História

Advertência sobre o conteúdo desta secção

Esta secção de subsídios para a história da Seara Nova é composta por extractos seleccionados de trabalhos publicados sobre a revista ou até sobre o inicial "Grupo da Seara Nova".

Vão identificados os autores e as publicações onde os trabalhos foram inseridos.

Os títulos de cada subsídio são da responsabilidade da redacção da Seara Nova.

NASCIMENTO DA SEARA NOVA

Em entrevista ao Primeiro de Janeiro, em 1937, Luís da Câmara Reys, um dos fundadores, relatava assim o surgimento da Seara Nova:

(...) Nasceu de uma reunião na Biblioteca Nacional, no Gabinete do Director, onde me encontrei a convite de Raul Brandão, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Ferreira Macedo e Jaime Cortesão. Foi cerca do ano de 1920. Apareci ali sem saber qual era o fim da reunião. Pouco depois conhecia-o: era o de elaborar um programa de acção política e social, um programa mínimo de realizações nacionais, em que pudessem colaborar todos os elementos sinceros e sãos da sociedade (...) O pequeno grupo inicial alargou o âmbito da sua acção, empregando vários elementos à esquerda e à direita. Deste modo se trabalhou durante alguns meses. Foi difícil e lenta esta acção. Atingiu-se a concretização de um certo número de ideias e normas e fez-se a eliminação dos que, por incompreensão ou interesse, não eram desejáveis ou não desejavam comprometer-se, o que vinha a dar ao mesmo (...) Um dia, os elementos afins reuniram novamente e decidiram fundar uma revista de doutrina e crítica e organizar uma secção editorial, cuja base comercial foi a Empresa de Publicidade Seara Nova, constituída em Maio de 1921, com sede na Rua António Maria Cardoso, 26. Os corpos gerentes da empresa eram constituídos por Ferreira de Macedo - substituído em 1923 pelo Capitão Fernandes Duarte -, Jaime Cortezão e Luís Câmara Reys (Direcção), Faria de Vasconcelos, António Tomás Conceição Silva e Rodrigo Caeiro Vieira (Mesa da Assembleia Geral), João de Araújo Mo5rais, João Maria Sant'Iago Prezado e José das Neves Leal "Conselho Fiscal). Foi baptizada por Aquilino, que sugeriu a primeira palavra (Seara) e por mim, que a completei com a segunda (Nova).

Reproduzido de "As Causas da Júlia" (blogspot de Júlia Coutinho), de 27/07/2008

Breve apontamento para a História da Seara Nova

O primeiro número da Seara Nova foi publicado no dia 15 de Outubro de 1921, numa época conturbada, de desastre colectivo, em que pontuavam enormes desigualdades socais, consideráveis atrasos económicos, interesses inconfessáveis das clientelas e de oligarquias plutocráticas, baixo nível cultural da população, ausência de valores e de preocupações éticas na camadas dominantes, regime político de mentira e incompetência, alastramento da corrupção entre os detentores dos poderes, privilégios escandalosos destes últimos. Um quadro em tudo semelhante ao dos nossos dias.

Os fundadores da Seara Nova - Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Azeredo Perdigão, Câmara Reys, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Francisco António Correia, Jaime Cortezão, Raul Brandão e Raul Proença - opunham-se ao que designavam de "desastre colectivo" e pugnavam pelos valores da inteligência, da cultura, da ética, da justiça e do progresso. No editorial do primeiro número da revista escrevia-se: "...a Seara Nova não pode proceder... como se uma maior justiça social não fosse possível... como se o socialismo não representasse uma promessa de realização dessa justiça. Todas as suas simpatias vão, pois, para os que lutam, dentro da ordem, dos métodos democráticos e desse espírito de realidades sem o qual são inteiramente ilusórias quaisquer reformas sociais, pelo triunfo do socialismo".

Ao longo destes quase 100 anos de existência, pelas páginas da Seara Nova passaram muitos colaboradores frequentes, assinando páginas de grande qualidade, como (de entre os já falecidos) Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva, Alberto Vilaça, Alexandre Cabral, Alves Redol, Armando Castro, Augusto Abelaira, Bento de Jesus Caraça, Blasco Hugo Fernandes, Fernando Lopes Graça, Fernando Namora, Francine Benoît, Francisco Pereira de Moura, Gago Coutinho, Gilberto Lindim Ramos, Hernani Cidade, Irene Lisboa, Rodrigues Miguéis, José Saramago, José Gomes Ferreira, Magalhães Godinho, Magalhães Vilhena, Manuel Mendes, Manuel Machado da Luz, Mário Azevedo Gomes, Mário Sacramento, Mário Sottomayor Cardia, Mário Ventura, Jorge Peixinho, Jorge de Sena, Rogério Fernandes, Rui Grácio, Sarmento de Beires, ou Vitorino Nemésio. Intelectuais de grande valor. Homens de carácter. Homens cuja moral está espelhada nesta frase do editorial do primeiro número da revista: "Em democracia quem mente ao povo é réu de alta traição".

Esse mesmo editorial terminava com a aspiração de que ainda hoje a Seara Nova comunga: "Possam os homens de boas intenções de todas as Pátrias erguer um dia, sobre um mundo que ainda hoje se debate em miseráveis disputas nacionalistas, o arco-de-aliança duma humanidade justa e livre, realizando na paz vitoriosa as conquistas da inteligência e da vontade desinteressada!"

A Seara Nova foi sempre um espaço de diálogo, de abertura às ideias do progresso, de rigor ético, de investigação e de divulgação cultural.

Embora tivesse passado por alguns períodos de hegemonia de grupos ideologicamente mais restritos, o traço saliente da Seara Nova e que caracterizou os seus momentos mais conseguidos foi a sua grande abertura à cultura e à unidade pelos ideais progressistas, criando esse fenómeno ímpar que se tem designado por "espírito seareiro".

No final da I República, a Seara Nova foi uma "pedrada no charco" daquele desastre colectivo, elevando-se pelo seu valor intelectual e, desde logo, alertando e denunciando os perigos do advento da ditadura. A Seara Nova foi ideológica e culturalmente antifascista e até antes da ditadura fascista estar implantada em Portugal.

Na Resistência ao fascismo, a revista, mesmo quando gravemente mutilada pela censura, foi um farol democrático e espaço de elevadas polémicas e de valiosas colaborações de toda a intelectualidade progressista. A partir da década de 60 do século XX atingiu mesmo o estatuto de grande revista da Resistência antifascista, mantendo o seu forte pendor cultural. E neste plano teve importante papel directo em momentos altos da luta democrática e de resistência ao fascismo, como eleições de Humberto Delgado, Congressos da Oposição Democrática de Aveiro ou campanhas eleitorais das CDE's.

A Revolução de Abril entrou pela Seara Nova dentro, a começar no entusiástico e prudente editorial de Maio de 1974, redigido por José Saramago. Mas as condições da sua circulação alteraram-se. Deixou de haver espaço para ser "a revista da oposição democrática".

Porém, nos anos 80 do século passado e tendo em conta a situação gerada no País pelo sucessivo prosseguimento de políticas hostis à dignidade do Povo português, pela acentuada perda de soberania nacional, pelo retomar de condições de exercício do poder similares às que determinaram a fundação da revista, pela deriva neoliberal e pela submissão do poder político ao poder económico, a Seara Nova renovou o seu projecto como revista cultural e democrática, apostada nos valores da democracia, do progresso, da justiça social, da solidariedade e da Paz e arrimada no espírito seareiro, princípios que continua a perseguir.

Ao longo da última década, cerca de 300 homens e mulheres empenhados na realização daqueles princípios e numa sociedade mais justa honraram a Seara Nova com as suas valiosas colaborações. Gente das mais diversas áreas do saber e do conhecimento, que não se resignam perante as injustiças, a mesquinhez e a mentira e que ajudam a fazer da Seara Nova um ponto de encontro de ideias desenhadoras do futuro e do aprofundamento dos valores democráticos e culturais.

Estabilizada a situação da Seara Nova, através do apoio da Associação Intervenção Democrática -ID, sua actual proprietária, a Seara Nova tem

saído com regularidade e assegurado o cumprimento da sua periodicidade trimestral, com uma atenção constante e selectiva às grandes questões nacionais e internacionais.

Extraído de um folheto promocional

"90 anos em 2011"

publicado em Setembro de 2010


Síntese histórica até 1979

A Seara Nova não foi apenas a revista de «doutrina e crítica» que, com este título, surgiu a lume pela primeira vez como quinzenário em 15 de Outubro de 1921, em Lisboa, e se publicou, com breves interrupções e periodicidade variável, até ao nº 1598-1599 em 1978-1979. A revista constituiu, sim, o principal órgão de intervenção na vida política e cultural de sucessivos grupos de intelectuais republicanos de esquerda ao longo de seis décadas, a par de outros meios, nomeadamente a actividade editorial e a organização de ciclos de conferências e colóquios, bem como a participação em actos políticos em circunstâncias determinadas. Por isso se pode falar durante esse período em «seareiros» e «espírito seareiro» como designações, não tanto de uma corrente política ou partidária formalmente estruturada, mas de sucessivas gerações de intelectuais animados de propósitos de doutrinação política e reflexão crítica sobre os grandes problemas nacionais, como condição prévia para uma mais eficaz acção política, e sem obediências dogmáticas ou sectarismos ideológicos. Naturalmente, ao longo de tão dilatado período de tempo, assistiu-se a uma inevitável evolução das linhas de orientação seguidas, umas determinadas pelas alterações surgidas no contexto político envolvente, com a passagem à Ditadura Militar e ao Estado Novo, primeiro, e destes ao processo revolucionário do 25 de Abril, depois, outras ditadas pela progressiva influência do pensamento marxista nos círculos de intelectuais de esquerda, sobretudo a partir da década de cinquenta. É, assim, possível detectar cinco grandes ciclos na vida deste movimento doutrinário e cívico-cultural: 1º ciclo (1921-1926)- período da fundação, definição doutrinária, critica sistemática aos «males da República», intervenção política pontual e denúncia do perigo fascista; 2º ciclo (1926-1939)- período da conspiração contra a Ditadura Militar, com os principais «seareiros» exilados, marcado pela doutrinação democrática e cooperativa de António Sérgio, que acaba por abandonar o grupo e a revista por desinteligências com Câmara Reis, 3º ciclo (1939-1958)- período da resistência cívica, dominada pelo discurso reivindicativo das liberdades cívicas, na linha republicana tradicional, e marcado por dificuldades financeiras com a consequente irregularidade na publicação da revista; 4º ciclo (1959- 1974)- período de renovação doutrinária mercê de forte influência das correntes marxistas, com abertura às novas gerações, e de significativa expansão da revista e demais publicações, com crescente intervenção cívico-cultural; 5º ciclo (1974- 1979)- período de hegemonia doutrinária comunista, que leva à imediata desagregação do grupo e à drástica redução do universo de assinantes e leitores ..............................................................................................................................

Fundada por um grupo de intelectuais republicanos, em que avultavam os nomes de Jaime Cortesão, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Ferreira de Macedo, Câmara Reis e Faria de Vasconcelos, a revista surgiu em plena crise das instituições liberais do republicanismo, desencadeada pelas consequências de vária ordem da participação de Portugal na Grande Guerra. O «grupo Seara Nova» adoptava uma atitude ética de desinteresse pelo exercício do poder em nome da prioridade da «reforma da mentalidade da elite portuguesa e consequente formação de uma «opinião pública nacional que exija e apoie as reformas necessárias», «opondo-se ao espírito de rapina das oligarquias dominantes e ao egoísmo dos grupos, classes e partidos» e condenando os constantes movimentos revolucionários em nome da verdadeira Revolução - a dos espíritos ( nº 1, 15.10.1921). Dois anos depois, e coincidindo com a entrada de António Sérgio na direcção da revista, estes propósitos eram melhor precisados. Os seareiros definem-se como «republicanos de tendência socialista», demarcando-se quer do bolchevismo, quer do liberalismo económico, quer ainda do jacobinismo republicano sectário, e defendem a institucionalização de um «parlamento técnico» consultivo ao lado do parlamento político (nº 22, Abril 1923). Um pensamento filosófico de cunho racionalista-idealista crítico surgia ao mesmo tempo como alternativa ao desacreditado positivismo que inspirava a geração republicana no poder e como antídoto contra as novas correntes irracionalistas que seduziam as jovens gerações intelectuais. ..............................................................................................................................

No plano da estratégia política, duas preocupações dominaram a actuação da Seara Nova: a denúncia do perigo fascista e a desmontagem doutrinária das mistificações das correntes ideológicas de extrema-direita (do Integralismo Lusitano à Cruzada Nun`Álvares), sobretudo pela pena de Raul Proença, por um lado, e o apelo, por outro lado, à formação de um governo extrapartidário, dotado de «poderes excepcionais» mediante prévia autorização parlamentar, que executasse um «programa mínimo de salvação pública», cujas medidas essenciais se enumeravam em três documentos sucessivos, publicados em 1922 e 1923. Os acontecimentos vieram dar razão aos seareiros. E se a 30 de Maio de 1926 ainda admitiam a hipótese, embora já com muitas reservas, da possibilidade de se vir a formar o seu desejado «governo excepcional [...] composto de competências [...] a fim de preparar [...] um insofismado regime de instituições democráticas, adaptadas às necessidades do nosso tempo», não deixavam de manifestar a sua reprovação de um «governo com a tendência a firmar um regime antiliberal e o predomínio de classe, e a não respeitar a liberdade de consciência sob todas as suas formas». A 10 de Junho de 1926, porém, já Raul Proença denunciava a incompetência dos novos governantes e a 23 do mesmo mês acusava-se o programa apresentado por Gomes da Costa de não caber «de uma maneira geral dentro do regime republicano» e propunha-se o almirante Gago Coutinho para presidente do Governo. A censura não poupará a partir de então os textos da revista, que se vê obrigada a suspender a publicação entre 12 de Agosto de 1926 e Abril de 1927, depois de ter chegado a assegurar a periodicidade semanal entre 3.10.25 e 23.7.26. Inicia-se então o 2º ciclo da vida do grupo e da sua revista com os seus principais membros no exílio (Sérgio por ter assinado em nome da Seara um documento contra o empréstimo externo solicitado pelos militares, Proença pelos seus famosos «Panfletos» clandestinos e pela participação com Jaime Cortesão no movimento de 3-7 de Fevereiro de 1927) e integrando a Liga de Defesa da República. Limitados pela censura na capacidade de acompanhamento crítico dos acontecimentos políticos, os seareiros investem sobretudo na acção doutrinária, bem patente na célebre série de artigos de Raul Proença sob o título «Para um evangelho de uma acção idealista no mundo real» (1928) e nos artigos com que Sérgio, director-delegado da revista a partir de 7.6.1934, teoriza o racionalismo idealista, a democracia e o cooperativismo , numa óptica de valorização dos factores económico-sociais em relação aos factores políticos. ............................................................................................................................

Em 1939 a saída de Sérgio causa uma grave crise no grupo e na revista que sobreviverá com dificuldades nas duas décadas seguintes. Com participação autónoma nos movimentos de unidade democrática, como o MUD em 1946, o grupo alimenta-se de um discurso antifascista e reivindicativo das liberdades cívicas e a revista na década de cinquenta vai pouco além dos mil exemplares de tiragem, não ultrapassando setecentos o número de assinantes efectivos. As dificuldades financeiras explicam, por outro lado, a crescente irregularidade da publicação. Câmara Reis apercebe-se da necessidade de lhe injectar sangue novo e reúne em 1957-1958 um novo grupo seareiro, em que avultam nomes como Manuel Sertório, entretanto nomeado director-adjunto, Rui Cabeçadas, Nikias Skapinakis, Augusto Abelaira e Lopes Cardoso. O grupo de Azevedo Gomes, defensor da linha republicana tradicional, acaba por se afastar.

Em Janeiro de 1959 a Seara reaparece com nova orientação e renovado aspecto gráfico. De conteúdo mais variado, a revista propunha-se «desenvolver um amplo inquérito aos problemas actuais da gente portuguesa e proceder ao estudo e à articulação das soluções democráticas e socialistas ajustadas àqueles problemas». Morto Câmara Reis em 1961, sucede-lhe Augusto Casimiro. Rogério Fernandes, então director-adjunto, virá a ser director entre 1967 e 1969, sendo substituído por Abelaira em 1969. Por demissão deste, Rodrigues Lapa assumirá o cargo entre 1973 e 1975, vindo a demitir-se por desacordo com a nova orientação resultante da conquista da maioria do capital social por accionistas ligados ao PCP.

A revista e a editora tinham entretanto conhecido, ao longo do período marcelista, uma acentuada subida das tiragens e do número de assinantes e de títulos editados. Assim, em 1972, a revista, de rigorosa periodicidade mensal, atingia os 26.500 exemplares de tiragem com 16.373 assinantes, com 70 por cento dos leitores nas camadas etárias até aos 34 anos. Em vésperas do 25 de Abril, a tiragem rondava já os 30.000 exemplares e o número de assinantes de cerca de 18 mil.

......... a ausência de outras publicações de carácter declaradamente oposicionista, a par de uma equilibrada colaboração de intelectuais ligados ao Partido Socialista, ao PCP e de outros independentes de esquerda, com assinaláveis melhorias na qualidade teórica dos textos e na apresentação gráfica, ajudam a explicar o êxito de uma revista que em 1971 comemorava o seu cinquentenário não apenas com um número especial, como já acontecera em 1964 por ocasião do 25ª aniversário, mas também com uma exposição itinerante, acompanhada de colóquios, que percorreu dezenas de colectividades por todo o país.

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Assinale-se, por último, que a par da sua conhecida intervenção doutrinária e política, a Seara Nova foi igualmente um importante veículo difusor das artes e letras, que chegaram em muitos períodos a ocupar cerca de metade do espaço da revista. Grandes escritores deste século, como Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, Manuel Teixeira-Gomes, Irene Lisboa, colaboraram regularmente nas suas páginas.

António Reis

In Dicionário de História do Estado Novo,

Coordenação de Fernando Rosa e de J.M. Brandão de Brito,

Edição de Círculo de Leitores, 1996

 

Nos finais dos anos 50 e nos anos sessenta

… não é fácil definir a orientação politica da Seara Nova em período nenhum da sua trajectória política. Mesmo em 1921, entre os fundadores da Seara havia naturalmente posições ideológicas e políticas comuns, mas também diferenças de opinião política que, não se manifestando em sede da revista, existiam. É o caso de Raul Proença, o de Aquilino Ribeiro ou de Jaime Cortesão.

De qualquer modo, a Seara nunca perdeu alguns aspectos da sua vocação inicial. Foi um baluarte (para usar a palavra chavão) do republicanismo crítico dos homens que, em 1921, caminharam para a fundação da revista porque entendiam necessário assumir um papel de vigilância crítica em relação à I República e às suas insuficiências, quer no ponto de vista político, quer no ponto de vista social. Entendia-se dar um conteúdo social à democracia republicana e, nessa orientação, a Seara definia-se como agrupamento de homens de pendor socializante, talvez mais próximos de uma social-democracia, à maneira nórdica na actualidade, do que propriamente de um socialismo mais nítido.

Ao longo da história, a Seara Nova também manifesta outro aspecto muito curioso – de relações entre este ideário republicano e socializante com outras manifestações do pensamento político e outras ideologias, designadamente com o marxismo e o socialismo marxista.

Esse diálogo, que por vezes tomou carácter polémico, manifestou-se por diversas vezes na Seara.

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No interior da Seara, sem dúvida nenhuma, sobretudo a partir de 58 e mais precisamente no início da década de 60, pessoas que se reclamavam do marxismo, como era o caso de Alberto Ferreira, de Augusto da Costa Dias e o meu próprio caso, começaram a ter na Seara uma posição paritária, digamos, com outros companheiros de luta que lá se encontravam. Porque é preciso dizer uma coisa: a Seara, pelo menos enquanto lá estive, nunca foi um grupo inteiramente fechado sobre si, mas mais concretamente uma plataforma unitária em que pontos de vista diferentes coexistiam, embora unidos todos em relação a um objectivo comum: derrubar a ditadura e, efectivamente, aniquilar o fascismo, no sentido da democracia e do progresso social. ………………………………………….

Um domínio que penso ter sido bastante privilegiado foi o da crítica literária, da crítica de cinema ou da crítica de artes. Aí, foi possível fazer passar certos aspectos da mensagem, porque a censura era menos sensível a esses canais do que a artigos de discussão ideológica facilmente descodificáveis pela Censura. Muitas vezes a Censura actuava não propriamente pelos conteúdos mas por suspeitas acerca dos conteúdos.

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Creio que a Seara teve um outro papel muito importante de pedagogia política e ideológica, exercida sobre a gente jovem. Eu próprio sou um exemplo disso, na medida em que passei a ser um leitor mais assíduo a partir da campanha de Norton de Matos. …………………………………………….

Entrei na Seara nos finais da década de cinquenta, depois do período do Humberto Delgado. O Câmara Reys era o director da revista e por isso tínhamos uma ligação à velha Seara: o Câmara Reys tinha sido um dos fundadores da primeira hora.

Era um homem de enorme tolerância. Sabia que, a seu lado, estavam socialistas, comunistas e independentes e nunca houve qualquer pergunta ou qualquer actuação que desse a perceber que sabia que um era comunista e o outro não. Foi sempre um homem de grande espírito democrático e de enorme capacidade de luta. Coube-lhe a tarefa bastante ingrata de orientar a Seara em períodos em que, do ponto de vista económico, a empresa no seu conjunto se debatia com enormes dificuldades………………………………………………………………………………………………

Foi neste período em que entrei na Seara que começa a ser levantada uma questão que será um elemento de clivagem no interior da oposição portuguesa e em relação à qual tivemos de ter algum equilíbrio. Quando o Câmara Reys faleceu e passou a ser director Augusto Casimiro, o problema da independência das colónias e da guerra colonial levou a uma certa divisão das águas. Na Seara a unanimidade fez-se rapidamente …………

A Seara, no entanto, vai sofrer um período muito crítico depois do golpe de Beja porque a esmagadora maioria dos redactores da Seara esteve ligada ao movimento. Muitos saíram do país e, de um momento para o outro, a redacção ficou reduzida a duas ou três pessoas. Foi um momento de crise que se conseguiu vencer e que, curiosamente, marcou uma certa arrancada em relação ao reequilíbrio da Seara, agora já não do ponto de vista apenas redactorial mas também do ponto de vista empresarial, visto que essa base era absolutamente para que a Seara sobrevivesse.

A Seara começou a editar livros que enviava à cobrança para os assinantes, que, entretanto foram aumentando. A Censura não tinha possibilidade prática de controlar as nossas decisões, já que não era fácil apreender os livros na sua totalidade. Quando a Censura dava por eles já uma parte da edição tinha saído para os assinantes.

A revista começou a reequilibrar-se e a renovar a sua redacção. Nessa altura entraram Augusto da Costa Dias, Aquilino Ribeiro Machado, José Fernandes Fafe, Sottomayor Cardia, Nuno Brederode Santos, José Tengarrinha e Jorge Sampaio…………………………………………………………………

A política internacional foi outro domínio em que começámos a marcar também presenças indirectas, digamos assim. Por exemplo, em relação à guerra do Vietname, tomámos posições que, de alguma maneira, nos levavam à guerra colonial. Aí, interviemos não só com artigos, mas também com a edição de livros. Destaco Vietname segundo a Resistência e Bombas sobre Hanói, de William Burchett………………………………………………

A Seara era uma sociedade por acções e não sabíamos por onde é que essas acções andavam. Enquanto a Seara tinha sido uma empresa desmantelada, vivendo penosamente um dia-a-dia de calamidades e de carências, certamente não haveria accionistas interessados em aparecer, mas se a Seara continuasse a equilibrar-se, do ponto de vista empresarial, receávamos que surgissem pessoas que, brandindo acções, desfizessem os equilíbrios políticos alcançados dentro da revista……………………………………..

… procurámos o Professor Adelino Palma Carlos – sabíamos que ele era um accionista da Seara – e perguntámos se estaria disposto a vender as suas acções à redacção da Seara. Ele vendeu e nós revendemos as acções de maneira bastante igualitária por todos os redactores da Seara. As acções serviam-nos apenas para assegurar a independência da revista: que a Seara continuasse a ser o que queríamos que ela fosse. Uma Revista de intervenção política e ideológica, cultural (e este aspecto talvez tenha vingado menos do que devia), uma revista de esquerda, a que, na minha opinião continua a ser. Marcada, de facto, pela presença do marxismo, do existencialismo francês de esquerda, aliás, neomarxista nalguns aspectos. E também pelas socialistas concepções acerca da organização da sociedade, da justiça social, do progresso. Ideias que nos uniam mais ou menos a todos, independentemente das clivagens de opinião política que pudesse haver. Queríamos essencialmente que a Seara Nova fosse um campo de luta e de unidade onde coexistiam opiniões que não eram necessariamente coincidentes, mas de cujo debate o consenso havia de surgir.

Rogério Fernandes

Intervenção na Casa Museu Abel Salazar,

Publicada em “Seara Nova: Razão /Democracia /Europa”,

Edição de Campo das Letras, Outº/2001

 

Espírito Seareiro

Seara Nova desenvolveu, desde a sua fundação em 1921 até ao final da década de setenta, um excepcional trabalho cívico, cultural e pedagógico centrado na necessidade de (re)descoberta do elemento social da democracia, na definição da verdadeira identidade das elites intelectuais, na actualização de soluções para os problemas estruturais da sociedade portuguesa, cujo diagnóstico sistemático não foi das suas menores preocupações.

Foi um lugar de síntese de diferentes preocupações e foi-o, pode dizer-se, desde o início, como poderemos concluir do notável grupo que lhe dá origem e que uma célebre fotografia imortalizou: do activo militante republicano Jaime Cortesão, futuro grande historiador com participação determinante no esgotado movimento da Renascença Portuguesa e da revista A Águia, ao politicamente discreto, mas presente, Raul Brandão, à escuta das grandes vozes de mistérios e fantasmas; do romancista Aquilino Ribeiro, revolucionário de armas na mão cujo exílio parisiense integrara em correntes avançadas da literatura, das artes e do pensamento, ao filósofo Raul Proença, sem esquecer Teixeira de Vasconcelos e Câmara Reis, - detecta-se na fundação de Seara Nova uma conjugações de preocupações cuja síntese - ou, para sermos mais precisos, cuja harmoniosa conjugação de diferenças - haverá de constituir a própria identidade da revista.

Porém, não é simplesmente de uma revista que se trata. Uma publicação chamada Seara Nova pretendeu ser, desde 15 de Outubro de 1921, quando apareceu, um elemento visível de um profundo movimento de revitalizações, em que a elite política e a elite intelectual se encontravam e em ambas, mas afinal uma só, pretendiam alimentar-se da seiva popular tanto quanto dar uma direcção consciente à espontaneidade de vontades por vezes contraditória.

Não admira, por isso, que Seara Nova se desdobrasse, para ser ela própria, em movimento político autónomo embora não partido, em chancela editorial com um catálogo diversificado (poesia, ficção, histórica, política, divulgação), em opinião esclarecida livremente assumida pelos seus membros. Não admira, em suma, que tudo isto pudesse resumir-se na ideia de um espírito seareiro, ao qual se sentirão igualmente vinculados um modo peculiar de fazer jornalismo, um estilo de ilustração e de caricatura ou um exercício permanente de ensaio e de crítica.

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De António Pedro Pita

In "Seara Nova: Razão, Democracia, Europa"

Edição de "Campo das Letras", Outº / 2001