Nota de leitura: A queda de Salazar - O princípio do fim da ditadura de José Pedro Castanheira, António Caeiro e Natal Vaz. A última cadeira

Nº 1746 - Primavera 2019
Publicado em Cultura por: L. B. (autor)

Goste-se ou não da personagem (ele há gostos para tudo), o certo é que a figura do catedrático de Santa Comba tem o seu lugar na história pátria. Tendo assombrado o país por quase meio século, o espectro do ditador vagueia por aí, emergindo recorrentemente, em letra impressa ou noutras formas de expressão, seja em biografias, memórias, ensaio ou ficção. Para alguns um nicho de mercado, para outros uma janela de oportunidade para matarem saudades do fascismo caseiro.

De toda essa prolífica produção em torno do mesmo peditório surge agora A queda de Salazar – O princípio do fim da ditadura, de José Pedro Castanheira, António Caeiro e Natal Vaz (Ed. Tinta da China, Lisboa, MMXVIII). Centrada no famigerado fait-divers da queda da cadeira, no Forte de Santo António da Barra, no Verão de 1968, a obra trata do desaparecimento de Salazar da cena política, esfumado nos desvãos do Forte do Estoril, do Hospital da Cruz Vermelha e do Palácio de S. Bento, assim como do advento do seu sucessor a enfrentar os “trabalhos ciclópicos” para os quais, irresistivelmente, todo o seu percurso político e a sua óbvia vontade de poder o conduziram.

A primeira parte do livro é um relato factual, quase ao minuto, do princípio do fim até ao finale, isto é, do desconchavo da preciosa cadeira (perdida para a História pelo nosso habitual descaso da memória) até à agonia e morte do ditador, em S. Bento, e ao derradeiro regresso de comboio à terra e à campa rasa de aldeão assumido. Nela perpassam os figurantes do regime, órfãos ao desamparo que, sem surpresa, nos deixam pasmados da sua vulgaridade de devotos perante o figurão que adulavam. De tal modo que os autores da obra se dispensam de, salvo uma ou outra excepção, emitirem os seus juízos de valor, deixando ao leitor o cuidado de tirar as suas conclusões de factos que tão flagrantemente falam por si.

Afinal, de mais interessante e elucidativo, nessa primeira parte, fica, no vasto rol de padecimentos físicos e mentais, a revelação do segredo de Estado mais bem guardado, tão bem que dificilmente virá a ser desvendado, agora que, desaparecidas as testemunhas, não restam vestígios na Torre do Tombo: o ditador como regular consumidor de um antidepressivo, em injecções sub-repticiamente chegadas do estrangeiro, do qual o seu homólogo Adolfo Hitler também dependia: o Eukodal, mezinha oriunda da Alemanha.

Do rasto dos anos em que Sua Eternidade mandou, A queda de Salazar regista a face respeitável, a dos ministros de chapéu, do incrível país da minha tia,/trémulo de bondade e de aletria, do O’Neill, subdesenvolvido, o país rural do pé descalço, da décima e do analfabetismo, governado pelo medo, de que as armas mais eficazes eram a pobreza, a censura e a polícia política. Esta, aliás, supervisionada por Salazar, na sua actividade preventiva e repressiva, em marcação cerrada no dia-a-dia das audiências com o respectivo director.

Naturalmente, dada a nossa queda para o escárnio e maldizer, a resistência do “outro país” à ditadura passava, além da luta política possível, pela anedota, a rábula do Parque Mayer e as alcunhas coladas à figura fradesca e distante do ditador: o Botas, o Manholas, o António da Calçada, o Frade, o Esteves (a sua versão do Encoberto: não o que vai chegar, nunca o que está, mas aquele que, à sorrelfa, esteve algures, como referiam os jornais do dia seguinte à furtiva passagem do “Senhor Presidente do Conselho”).

Por não ser este, porém, o objectivo da obra em apreço, passa ela, na segunda parte, ao tema da resolução da crise do regime, na transição de uma ditadura que se vê sem ditador, pendente da angústia de saber se, arrumado o ditador, terá ficado arrumado o regime. Assiste-se então ao desfile dos barões, mais ou menos organizados em clãs, na luta pela designação do sucessor, centrada na figura do “Venerando Chefe do Estado”, A. Thomaz, que emerge do seu sombrio posto de corta-fitas, com o encargo de manter o rumo sob a palavra de ordem “a Pátria não se discute”.

Assim é designado para o cargo Marcello Caetano, com um currículo político que a isso o destinava, já que fizera todo o necessário percurso desde a sua juventude quando, aos vinte anos, em 1926, ajudou a criar a revista Ordem Nova, antidemocrática, antiliberal, antiburguesa, antibolchevista e outros antis na mesma onda. Depois participou activamente na criação do regime corporativo e do Estado Novo, que ajudou a pôr a funcionar, e, além de Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa, fez parte de tudo o que neles contava, bem como na Universidade de Lisboa.

Mas os tempos foram sendo outros, uma tímida abertura política voltou a fechar-se, o essencial das mudanças necessárias ficou-se por meras alterações semânticas (PIDE/DGS, Censura/Exame Prévio, União Nacional/ANP). A guerra colonial, em Angola, Moçambique e Guiné Bissau continuava a dessangrar o país e a condicionar toda a sua vida. Na visita que fez a esses territórios africanos, em Abril de 1969, M. Caetano não percebeu – porque não quis, ou não soube, ou não o deixaram perceber – aquilo que verdadeiramente se passava. Em Angola, por exemplo, deixou que lhe fosse escamoteada uma realidade que quer da parte dos angolanos mas também dos colonos e das próprias Forças Armadas, pouco ou nada tinha que ver com aquela que lhe foi exibida com o aparato das manifestações populares, os banhos de multidão, para os quais as autoridades coloniais tinham mobilizado, reforçando-os, os tradicionais poderosos meios.

Por tudo isso, em 1974, o 25 de Abril se tornou inevitável – e com ele o fim de uma ditadura que, após os seus 48 anos, mais os 44 de democracia, ainda tem que se lhe diga, como acontece com A queda da cadeira que, de forma isenta, factual e instrutiva, aproveitará sobretudo a quem não viveu esses acontecimentos de tamanho significado histórico.

Dulce Maria Cardoso, com a sua Eliete, dá um dos últimos contributos para o peditório: “Eu sou eu e o Salazar que se foda. Um ditador governa Portugal quase meio século, quase outro meio passa desde a sua morte, até que aparece na minha vida.”

É tempo então de recuperar o aceno do Álvaro de Campos ao cliente sem metafísica da Tabacaria: Adeus, oh Esteves!

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