Papiniano Carlos, nos 100 anos do seu nascimento

Nº 1744 - Outono 2018
Publicado em Cultura por: Jose Antonio Gomes (autor)

Ler e estudar a obra, não descurar a reedição, propor às novas gerações a sua leitura – este o melhor tributo a prestar a um escritor que já não esteja fisicamente entre nós. Papiniano Carlos deixou-nos uma escrita que permite, através da leitura, honrar a memória do criador literário; e lembrar a biografia é reflectir sobre o exemplo cívico que nos legou.

No campo literário, Papiniano – de quem, em 9 de Novembro de 2018, se comemora o centenário do nascimento – dedicou-se a modos e géneros diversos (lírica, conto, romance, crónica, reportagem, obras para infância…), escrevendo obras para adultos e obras para leitores infantis. Trata-se de um autor em relação ao qual importa começar por recordar sumariamente traços do neo-realismo português (a que a história literária costuma associar Papiniano), movimento que emerge na década de 30 do século XX, e cujas figuras de proa, na escrita, foram nomes como Redol, Soeiro Pereira Gomes, Namora, Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, Cochofel, Manuel da Fonseca, Sidónio Muralha, Mário Dionísio, Manuel Tiago, Ilse Losa, sem esquecer o caso peculiar, algo heterodoxo, de José Gomes Ferreira. Lembre-se ainda Pavia, Augusto Gomes, Dias Coelho e Pomar (na pintura); Lopes-Graça (na música) e muitos outros.

Tratou-se de corrente estética influenciada pelos materialismos dialéctico e histórico, de Marx e Engels, pela memória da Revolução Socialista de Outubro, pelas suas lições e pela esperança que semeou. Uma corrente empenhada numa expressão atenta à dinâmica histórica, ao mundo e ao outro (e não apenas centrada no eu); concedendo protagonismo, em ficção (e ao contrário do realismo oitocentista) às personagens camponesas, às oriundas do proletariado urbano ou ainda a tipos humanos com o estigma da marginalidade, e recriando ficcionalmente a resistência, colectiva mas também individual, às injustiças sociais e económicas e à repressão ditatorial. Sob o foco neo-realista estiveram cenários socialmente tensos, como o Alentejo e o Ribatejo dos latifúndios, a Gândara bairradina, a região do Douro, alguns núcleos piscatórios, a pobreza nas grandes cidades. Mas não deve ser esquecido que falamos de artistas cuja cultura foi também marcada pelas imagens do expressionismo, do cubismo e do futurismo (nomeadamente o russo), dos muralistas mexicanos, do cinema neo-realista italiano e, naturalmente, por muitas leituras (sem ignorar as das vanguardas modernistas). Dessas cumpre destacar Jorge Amado, Graciliano Ramos e Veríssimo; Dos Passos, Hemingway, Steinbeck e Caldwell; Elio Vittorini, Silone, Carlo Levi, Pavese e Calvino. E que se não esqueça, além destes, a Geração de 27 espanhola (Lorca, Alberti, Aleixandre, Salinas, Cernuda…); Aragon, Éluard e alguns outros surrealistas; Hikmet, Neruda e Guillén; os escritores soviéticos do chamado realismo socialista; mas também Aquilino Ribeiro, Afonso Duarte, Ferreira de Castro, Torga…

Papiniano Manuel Carlos de Vasconcelos Rodrigues – que nascera na antiga Lourenço Marques, actual Maputo, em 1918, e que morreu, em 5 de Dezembro de 2012, em Pedrouços (Maia) – viria a integrar um grupo de escritores com ligações ao movimento neo-realista. Dele fizeram parte Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e Ernâni de Melo Viana que, com Papiniano, dirigiram, entre 1957 e 1962, os nove «fascículos de poesia» Notícias do Bloqueio, título tomado de um conhecido poema de resistência de Egito Gonçalves, de 1953.

Marcaram o grupo o impacto internacional da Guerra Civil Espanhola (1936-39), da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e da derrota do nazi-fascismo, os bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasaki pelos Estados Unidos da América (Agosto de 1945) e também a Guerra da Coreia (1950-53). Notícias do Bloqueio não quis ficar indiferente à Guerra Fria, aos receios do cataclismo nuclear e às campanhas em prol da Paz. Testemunhou ainda a contestação internacional à guerra no Vietname, a vitória da Revolução Cubana, em 1959, e a luta dos afro-americanos pelos direitos cívicos. Tais realidades surgem tematizadas nas poesias de Papiniano (sobre Hiroxima, a Coreia, Guevara…), e a guerra e a ameaça nuclear marcam o seu poema dramático Uma Estrela Viaja na Cidade, de 1958, reeditado como livro ilustrado para a juventude, em 2010. É de acrescentar que, no plano nacional, os escritores de Notícias do Bloqueio se integravam no movimento mais geral de resistência à ditadura fascista e de combate pelas liberdades democráticas, contra a injustiça social, a pobreza e o colonialismo.

A intervenção de Papiniano e de outros companheiros de tertúlia (no antigo café Rialto, na baixa da Invicta, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, nos Fenianos Portuenses ou noutras colectividades e estruturas como «Os Modestos» ou o Teatro Experimental do Porto) não é dissociável do convívio com Virgínia Moura, Lobão Vital, Ruy Luís Gomes, Armando Castro, José Morgado, Óscar Lopes e outras figuras incontornáveis da resistência democrática portuense. Todos foram vítimas da PIDE e doutras estruturas repressivas da ditadura, seja pelo envolvimento no Movimento de Unidade Democrática (MUD), que, a partir de 1945, se converteria em forte movimento de massas antifascista, seja no lançamento do Movimento Nacional Democrático, seja na candidatura de Norton de Matos à presidência da República (1949) ou ainda na de Ruy Luís Gomes, em 1951.

Tanto a moldura histórica aqui esboçada, como o compromisso político de Papiniano Carlos (adere ao PCP em 1949) e o seu envolvimento directo na luta antifascista irão ecoar, de modo nítido, na produção literária que nos legou. Isso fará com que muita da sua escrita seja aquilo a que se pode chamar poesia de resistência. Nos versos de «Vossos nomes», por exemplo, nomeia corajosamente os companheiros caídos na luta ou encarcerados; em «A espiga verde», presta tributo ao camarada clandestino; em «Canção», que Lopes-Graça musicou, evoca o assassinato de Catarina Eufémia. Noutros momentos canta a mulher e a sua fecunda vitalidade – «(…) Em ti estão as leivas; em ti / as fontes e as sementes (…)» –, figurações de um mundo em renovação e de amanhãs radiosos. Essa produção, que engloba vários títulos editados entre 1942 (data de Esboço, livro de estreia), encontramo-la, no essencial, reunida num volume antológico, A Ave sobre a Cidade, elegante edição de capa vermelha, com chancela da Livraria Paisagem, capa de Jaime Azinheira e ilustrações de Sousa Pereira. A obra é impressa em Março de 1973 – o que indicia, até por esparsos entretanto vindos a lume, a existência de poemas ainda inéditos que seria importante publicar.

Em 2005, é editada a plaquette Canto Fraternal, poema de fôlego que convida a uma travessia imaginária do oceano da História, elogiando os poderes da mente humana e conduzindo o leitor a diferentes tempos e cenários, numa viagem que principia antes dos primórdios da humanidade e encerra com uma saudação ao futuro em tom internacionalista e em conformidade com a retórica própria de uma poesia de compromisso, em que ecoa Marx: «Saudamos / o esplendor da manhã nascente! / Bom dia / Irmãos de todos os países!». Declaração de confiança no progresso do ser humano, os versos exalam um sopro épico característico de muita da poesia de Papiniano.

Além de ter visto livros seus apreendidos e proibidos, o escritor foi preso três vezes pela PIDE, uma delas na sequência de uma das viagens que fez ao estrangeiro na qualidade de membro do Conselho Português para a Paz e Cooperação. Numa, conheceu e tornou-se amigo de Pablo Neruda (Nobel da Literatura em 1971), uma das vozes poéticas insubmissas que refere no seu longo poema «Os companheiros na manhã», juntamente com as de Antonio Machado, Lorca, Langston Hughes, Brecht, Guillén, Nazim Hikmet, Auden, Sosígenes Costa, Aragon e outros – autores cuja leitura, duma forma ou doutra, deixou rasto na sua escrita poética.

Esta escrita canta a infância, a amizade e a camaradagem; são retratados tipos humanos reencontrados na prosa de ficção; exalta-se o amor e o corpo feminino; o desejo e o sonho surgem como forças motrizes da humanidade; e é notório o fascínio pelo progresso humano (social, científico, tecnológico), não obstante as imensas tragédias e derrotas que o pontuam. Mas estas são palavras que, anafórica e exclamativamente, se assumem amiúde como um facho aceso nas trevas (as da ditadura, da guerra, da exploração), sempre abertas a um apelo à realização do sonho; uma poesia, em suma, avessa à desistência e nos antípodas de uma atitude derrotista.

A obra ficcional de Papiniano Carlos tem ficado na sombra, face à expressão resistente da sua lírica e à originalidade dos seus livros infantis. Ombreando com Redol, Sidónio Muralha, José Gomes Ferreira, Ilse Losa, Matilde Rosa Araújo ou Maria Rosa Colaço, nestes livros o autor inovou de facto, cedo explorando poeticamente tópicos de cariz científico ou associados à vida natural, tanto em poemas narrativos simples, ritmados e cativantes (A Menina Gotinha de Água, 1963; O Cavalo das Sete Cores e o Navio, 1977) como em histórias em prosa (A Viagem de Alexandra, 1989, focada no circuito sanguíneo). Abordou a vocação musical (Luisinho e as Andorinhas, 1977) bem como a defesa do património natural e a luta por uma ideia, criando um herói juvenil capaz de desencadear acção colectiva (O Grande Lagarto da Pedra Azul, 1986). Lembre-se ainda que, na origem de um disco e de um filme de televisão, A Menina Gotinha de Água tematiza de forma animista o ciclo da água, estando presente em todas as escolas portuguesas, e sendo um dos livros de maior sucesso público na história da literatura portuguesa para a infância.

Redescubram-se ainda os tipos humanos populares, inesquecíveis, que Papiniano nos deixou no seu muito elogiado livro de contos para adultos, Terra com Sede (1946) – por exemplo as oprimidas mulheres do meio rural duriense; Nana, o tocador de harmónica; Chico Miana, o cantador; Zé Formiga, vidreiro, e a sua desgraça; o velho do engenho; Tónio Panal; os meninos da Ribeira do Porto… São figuras reavidas duma realidade que Papiniano conheceu, enquanto administrador de uma propriedade rural, na região de Cinfães, para onde começou por ir morar, com os avós maternos, ao vir de Moçambique para Portugal, ainda na infância. Lembre-se, a propósito, que, em jovem, frequentara Engenharia e a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e que, por se ter recusado a subscrever a «declaração anticomunista», foi impedido de leccionar no ensino oficial. Deu por isso explicações e foi delegado de propaganda médica. Viria a fixar-se na Maia (Pedrouços), nos finais dos anos 50 do século XX, depois do casamento com Olívia Vasconcelos e de passagens pelo Porto e por Oliveira de Azeméis, onde as suas residências constituíram pontos de apoio a antifascistas na clandestinidade. Papiniano posicionou-se sempre corajosamente contra as detenções políticas fascistas e foi candidato pela Comissão Democrática do Porto nas «eleições» de 1969. Em Pedrouços, já depois do 25 de Abril, viria a desenvolver actividade política no plano autárquico e a prosseguir o seu envolvimento de sempre na luta pela Paz e pelos direitos dos trabalhadores.

Terra com Sede, livro de contos já referido, suscita também reflexão sobre o declínio da economia e da cultura rurais nortenhas entre os anos 30 e 40 do século XX; sobre a miséria de rendeiros, jornaleiros e pequenos proprietários de terras, condenados ao abandono, ao isolamento e ao analfabetismo pelo governo fascista; sobre a pobreza infantil; e ainda sobre a trágica ilusão motivada pela frenética exploração do volfrâmio, durante a Segunda Guerra.

Leia-se ainda o romance de estrutura fragmentária, O Rio na Treva, quase todo escrito antes do 25 de Abril, mas concluído depois (atestam-no as páginas iniciais e finais) e publicado em 1975. Um livro empenhado ainda em escalpelizar uma realidade rural nortenha, apresentando uma galeria de convincentes personagens, quer de extracção camponesa quer de origem pequeno-burguesa mas progressista. Livro que, em certos capítulos, talvez seja, juntamente com as crónicas de A Rosa Nocturna (1961), um dos textos de maior implicação autobiográfica que Papiniano escreveu, e onde ganham corpo outros tipos humanos inolvidáveis, como a família dos Marcelas ou Ti Pantaleão, homem do povo, senhor de um lúcido olhar sobre o mundo. Reportando-se a diferentes momentos do século XX, é a narrativa em que o autor recria ficcionalmente a luta clandestina e a repressão fascista, abordando ainda a crendice alienante, a miséria rural e da emigração, bem como a reconquista da liberdade em Abril de 1974.

Apesar de notas, aqui e acolá, de compreensível desespero existencial, a escrita de Papiniano Carlos (que assinou inesquecíveis composições como «Poema para Langston» – contra o racismo e a escravidão –, «Os ciclistas» – sobre a força da classe operária – ou «Caminhemos serenos»), essa escrita nunca renuncia à expressão de confiança no génio humano, ao sonho com um futuro próspero e justo, à exaltação da liberdade. Isso se pode ler no poema intitulado «Estela» incluído em A Ave sobre a Cidade, que dedicou ao advogado comunista Arnaldo Mesquita, preso político, defensor de presos políticos e poeta também ele:

Da pedra dos túmulos e dos cárceres

também se podem fazer navios, uma canção

que atravesse invencível a cidade:

Ó fogo, sangue, fértil respiração

da Liberdade!

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