Notas de Leitura: O 25 de Novembro e os Media Estatizados Uma história por contar de Ribeiro Cardoso

Nº 1743 - Verão 2018
Publicado em Cultura por: M V (autor)

Este livro, cujo autor é o jornalista Ribeiro Cardoso, com edição da Editorial Caminho, propõe-se dar um contributo fundamentado para o esclarecimento das malhas e enredos que se urdiram no “25 de Novembro” e as suas sequelas nos órgãos de Comunicação Social estatizados, designadamente, RTP, Emissora Nacional, Rádio Clube Português, Diário de Notícias, Século/Vida Mundial, ANOP, Jornal República e Rádio Renascença.

E porque não “chega pensar”, mas por que importa “também agir”, o autor lança mãos à obra, espicaçado pelo propósito de restabelecer a verdade sobre os saneamentos políticos de cerca de centena e meia de trabalhadores dos média, sobre cujo processo de despedimento recaiu longo silêncio, apesar de, sem qualquer excepção, todos terem ganho as respectivas acções judiciais e tenham sido mandados reintegrar nas respectivas funções.

Trata-se, portanto, de um livro que visa contribuir para repor a verdade histórica e, assim, num processo de contornos kafkianos, o autor, desassombradamente, não hesita em tomar partido para, sem meias tintas, evocar os acontecimentos e designar as pessoas pelos seus próprios nomes, seja qual for o lugar da barricada em que tivessem actuado, sabendo sempre destrinçar o trigo do joio, quer dizer, as características revolucionárias, ou contra-revolucionarias, de cada comportamento e acção política em concreto.

O autor dá-nos assim uma penetrante síntese de uma época da nossa história recente, densa de acontecimentos explosivos, cujos ecos e reflexos se fazem ainda sentir, dirigida fundamentalmente para a encarniçada luta política no interior dos órgãos de comunicação social estatizada e os subsequentes e arbitrários despedimentos de jornalistas, operários gráficos e outros trabalhadores, entre os quais, avulta o caso de José Saramago, não apenas pela importância da personalidade do escritor (futuro Prémio Nobel), mas também, por este caso, ser recorrentemente agitado pelas forças da direita, durante anos consecutivos.

Estas anotações pretendem assim chamar atenção para a importância deste livro, não apenas para académicos e estudiosos da história contemporânea, mas também para os leitores em geral, sobretudo as novas gerações, que aqui encontrarão uma súmula muito expressiva do que foram “os anos de brasa”, no período subsequente à madrugada libertadora do dia “25 de Abril de 1974”.

Nesta perspectiva, julgo ser de salientar a metodologia seguida, onde é perceptível a preocupação do autor em ir o mais longe possível na narração e análise dos factos e acontecimentos, transcrevendo comunicados e outros documentos da época e recolhendo o depoimento dos protagonistas, ouvindo sempre os dois lados do conflito.

Esta saudável prática democrática de exercício do contraditório não deixará de constituir, porventura, uma lição de boas práticas democráticas para aqueles que, vencedores do “25 de Novembro”, postergaram direitos constitucionais e as mais elementares regras de cidadania e despediram homens e mulheres, cujo único crime foi a afirmação das suas convicções políticas, sem ao menos terem possibilidade efectiva de se defenderem.

Chocam, efectivamente, os atropelos e as ilegalidades na elaboração dos processos disciplinares, com acusações vagas e genéricas que, naturalmente, impossibilitaram os interessados de organizarem eficazmente a respectiva defesa. E, como se tanto não bastasse, depois de arbitrariamente despedidos, os recursos judiciais arrastaram-se anos a fio nos tribunais, mediante diligências e manobras dilatórias, sem a consideração mínima pela situação profissional destes trabalhadores e a sua subsistência familiar.

E quando, finalmente, foi reconhecida pelos tribunais a razão dos trabalhadores despedidos, então nova floresta de dificuldades e mil pretextos foram invocados para protelar a reintegração, como era requerido e de elementar justiça.

A soprar as velas desta narrativa de perseguição e arbítrio, o poder político emergente do “25 de Novembro”, onde não faltavam juristas distintos e alegados “patriarcas” do regime.

É de referir ainda, a grande dignidade deste conjunto de trabalhadores arbitrariamente despedidos que, durante anos a fio, nunca claudicaram (excepto num caso ou outro que, na expressão irónica do autor, “mudaram de ramo”) e se bateram, sem tibiezas, na defesa dos seus direitos, mas, sobretudo, se bateram pela defesa e preservação dos valores democráticos fundamentais, numa demonstração viva de que em política não vale tudo. Não pode valer tudo, como bem salienta o autor.

Um livro notável, portanto. Que importa ler e recomendar para que, também neste plano, a memória não seja curta.

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