A presidência Trump: É possível uma resistência nos EUA?

Nº 1742 - Primavera 2018
Publicado em Internacional por: John Catalinotto (autor), WW Photos (fotógrafo)

Donald Trump é o chefe-executivo mais abertamente racista, intolerante, misógino, xenófobo, autoritário e direitista do imperialismo norte-americano na história recente. Inimigo dos sindicatos e de todas as pessoas pobres, os trabalhadores e as massas oprimidas do mundo repudiam-no. Trump foi eleito por uma minoria do voto popular com base no racismo e na misoginia, juntamente com uma crescente revolta contra os políticos do establishment, especialmente Hillary Clinton e a ala direita do Partido Democrata.

Apesar das suas gafes e da sua crescente impopularidade, a maior parte da classe dominante bilionária ainda o apoia.

Em meados de Março de 2018, o Pentágono estava firmemente estabelecido na Casa Branca. Três generais da Marinha controlam a administração: os generais John Kelly, James Mattis e H.R. McMaster que, não tendo controlo sobre o que Trump coloca no twitter, têm toda a liberdade para executar a política militar sem consultar os civis.

Para o exterior, Trump insulta de forma grotesca e cruel os alvos dos EUA e mais levemente os aliados dos EUA. Com tweets, Trump ameaça com a guerra a República Popular Democrática da Coreia, a sua administração apoia os ataques da máquina de guerra saudita contra o Iémen, envia armas para a Ucrânia e ameaça a Rússia e a China. O Pentágono aumentou a intervenção militar activa por toda a África e na Síria assim como o contingente de tropas no Afeganistão.

Em relação à América Latina, Trump começou a reverter as medidas tomadas por Barack Obama, em dezembro de 2014, quanto a Cuba. O imperialismo dos EUA vê, desde a primeira eleição de Hugo Chávez em 1998, o governo venezuelano como seu inimigo tendo tentado até a eliminação do próprio Hugo Chávez. Ultimamente, enquanto pressionam a economia do país com sanções, apoiam financeira e politicamente a oposição pró-imperialista. Na Colômbia, como a oposição pró-imperialista é desorganizada e desacreditada, Washington admite até recorrer à intervenção directa.

Trump insulta os mexicanos, os haitianos, todos os africanos e muçulmanos. Ele ataca os imigrantes e insulta os porto-riquenhos. Esses ataques, que, do ponto de vista diplomático, parecem estúpidos visam reforçar o apoio da sua base política racista e xenófoba. O mesmo é verdade quando Trump twitta ataques a atletas que "se ajoelham" durante o hino nacional para protestar contra a brutalidade policial. Enquanto a polícia racista vê Trump como um aliado, a comunidade negra, o vasto setor migratório da população e os activistas de esquerda veem-no como um inimigo.

Será que a crescente oposição popular a Trump poderá transformar-se numa verdadeira resistência contra as suas políticas e tornar-se numa nova etapa da luta de classes contra os governantes bilionários?

Contradições na classe dominante norte-americana

Há uma contradição entre os interesses imediatos e de curto prazo das empresas e das direcções corporativas e os interesses de longo prazo da classe dominante em manter o papel dos Estados Unidos como a potência imperialista global. Se por um lado, Trump está a canalizar as riquezas para os patrões e banqueiros: biliões em cortes nos impostos, direitos de exploração do petróleo e do gás, direitos de extracção em terras públicas, destruição de regulamentações ambientais, reversões nas regulamentações bancárias e nas protecções dos direitos dos trabalhadores, etc., por outro lado, ele minou de tal modo a política externa de longo prazo do imperialismo e do capitalismo nos EUA que poderá vir mesmo a prejudicar os interesses de longo prazo da classe dominante.

Um vasto conjunto de intelectuais, criado e alimentado pela burguesia, serve diferentes facções da classe dominante. Há por isso que distinguir o establishment consultivo da classe dominante da classe propriamente dita.

Intelectuais pertencentes a grupos de análise política que se dedicam a investigar quais as políticas que melhor servirão os interesses dos imperialistas, jornalistas alinhados consoante a facção da burguesia e do establishment político pelo qual são pagos, uma vasta variedade de assessores académicos que vai e vem entre as universidades e o governo capitalista.

Enquanto muitos jornalistas, intelectuais burgueses vindos de think tanks políticos, especialistas académicos e comentadores de todos os tipos se horrorizam com Trump quando ele lança um aríete na diplomacia e política convencionais, os seus chefes concentram-se serenamente nos lucros.

Enquanto Trump estiver no poder, banqueiros e empresários vão conseguir muito do que querem quanto a lucros e negócios. Muito mais do que antes, eles estão agora livres para saquear a terra e o mar. Eles rejubilam com o corte nos impostos corporativos, de 35 para 21%. Os bilionários farão “vista grossa” às gafes de Trump enquanto este lhes garantir o “tacho” suficientemente abastecido.

Para o complexo industrial militar - Lockheed, Boeing, Raytheon, United Technologies, etc. - estão destinados, para o próximo ano, 700 biliões de USD, para armas nucleares, sistemas anti-mísseis, novos navios de guerra, aviões de guerra, drones e mísseis. As acções militares no mercado chegaram a um máximo histórico quando Trump assinou um contrato de 110 biliões de USD com a monarquia feudal-burguesa da Arábia Saudita. Prometeu ainda, preparando-se para a guerra contra a Coreia do Norte, a instalação de sistemas de mísseis ofensivos, caças e navios no Japão e na Coreia do Sul.

Para os setores anti-Trump da classe dominante, em especial aqueles com conselheiros colocados nos media e think tanks, assim como para os líderes do Partido Democrata, atacá-lo com base em ligações reais ou presumíveis com a Rússia é a táctica perfeita e esperam que o investigador especial Robert Mueller, do FBI, usando as conexões russas como base, o possa derrubar ou fazer recuar. Recorrem assim à mentalidade da Guerra Fria, mentalidade que, embora a Rússia de hoje seja um rival capitalista e não um inimigo socialista, ainda motiva fracções no Departamento de Estado e do Pentágono.

Usando a Rússia, evitam confrontar politicamente Trump com o seu racismo, sexismo, fanatismo, o seu estilo autoritário, bélico, islamofóbico e anti-operário.

A campanha contra a Rússia tem ainda a dupla virtude de manter os contratos militares do Pentágono e promover uma posição geoestratégica, colocando a Rússia sob um cerco militar. Aconteceu assim quando tentaram aproveitar-se da situação da Ucrânia. Agora, os batalhões e baterias anti-míssil dos EUA estão a aproximar-se da Rússia.

O secretário de Estado Rex Tillerson verdadeiro cão de guarda de Wall Street diferenciou-se de Trump em muitas coisas e tentou manter muitas das posições políticas padrão do imperialismo americano no mundo. A sua substituição a 13 de Março pelo chefe da CIA, Mike Pompeo, é uma aproximação à direita. Gary Cohn da Goldman Sachs, chefe do Conselho Económico Nacional, renunciou em Março por causa das medidas de Trump para aumentar as tarifas sobre as importações de aço e alumínio e arrisca uma guerra comercial, também contra os "aliados" dos EUA.

Há ainda os três generais, gente de Wall Street e dos grandes bancos, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, da Goldman Sachs; e o secretário do comércio Wilbur Ross, um bilionário.

A ‘Resistência’

Em 20 de janeiro de 2017, um movimento radical formado por forças antifascistas, lideradas por anarquistas e comunistas, lutou nas ruas de Washington. No dia seguinte e também no primeiro aniversário, milhões juntaram-se numa marcha liderada por mulheres com posições políticas muito mais próximas das do Partido Democrata, em particular da ala de Bernie Sanders.

Nos últimos tempos, nos EUA, não há precedentes de um tão elevado número de pessoas, na ordem dos milhões, se terem tornado politicamente ativas. Impulsionadas pelo medo e o ódio a Trump chamam-se a si mesmos, meio a brincar, de “Resistência”, embora o seu objectivo não vá além de conseguirem a substituição de republicanos por democratas, especialmente no Congresso dos EUA, esperando assim conseguir a destituição do presidente. Destituição tão improvável como é conseguir deter o ataque dos patrões e banqueiros contra todos os trabalhadores.

No entanto, alguns dos envolvidos na “Resistência” lutam também contra o racismo, a misoginia, as políticas anti-imigrantes de Trump e ultimamente os seus ataques contra toda a classe trabalhadora. A “Resistência” integra acções como as levadas a cabo por organizações de pessoas com deficiência, que desenvolveram acções diretas defendendo o Affordable Care Act, também conhecido como Obamacare, e ajudaram a evitar que o Congresso aprovasse outros cortes graves nos serviços de saúde.

Até agora tem estado ausente das preocupações deste amplo movimento a contestação à política externa agressiva dos EUA talvez porque para além de toda a classe dominante dos Estados Unidos apoiar as aventuras imperialistas de Washington o próprio Partido Democrata embora justifique as suas intervenções com razões humanitárias é tão pró-imperialista quanto os Republicanos.

Há ainda a referir o facto de algumas destas forças se deixarem desviar pelos que persistem em usar a suposta intervenção russa nas eleições dos EUA como uma arma legal contra Trump e, nesse sentido, há ainda que esperar que a classe trabalhadora não se deixe induzir pelo culto patriótico do FBI reaccionário. A demonização da Rússia é o primeiro passo no caminho para a guerra. Os trabalhadores precisam de um movimento massivo para reverter toda a agenda de direita de Trump e desafiar a polícia, a ICE (polícia de imigração) e o FBI que são os opressores do povo. Trabalhadores e pessoas pobres não saiem beneficiados se permanecerem passivos seja qual for a facção da classe dominante a ganhar.

Instauração de forças anti-capitalistas

Trump, ao expressar abertamente o seu racismo, chauvinismo e misoginia, abre espaço aos supremacistas brancos e fascistas para levantar a cabeça. Exemplo disso foi o que ocorreu no fim-de-semana de 12 de Agosto de 2017 em Charlottesville, Virgínia. Fascistas mataram uma mulher com um automóvel durante um fim de semana de manifestações que eram pró-Confederação - que significa pró-escravidão - anti-imigrantes e antissemitas.

Em resposta a este sério desafio, a ala mais radical da juventude anti-Trump iniciou a luta contra estes fascistas nas ruas. Começando por assumir atitudes de oposição à supremacia branca, milhares tornaram-se anticapitalistas, com alguns a tornarem-se favoráveis ao socialismo e ao comunismo. Começaram a ler Marx e Lenin e a procurar uma resposta revolucionária.

Durante os 26 anos decorridos desde o fim da URSS, a maioria dos grupos de orientação comunista que sobreviveram mal conseguiu recrutar novos camaradas jovens. Agora, quase todas as tendências políticas desenvolvidas em torno de Bernie Sanders estão a crescer. O Workers World Party, por exemplo, duplicou nos últimos dois anos. A maior parte dos novos membros tem estado ativa no movimento Black Lives Matter, no movimento antifascista e em toda a oposição a Trump.

Entretanto algumas iniciativas tomadas por forças da esquerda anticapitalista têm afectado o amplo movimento anti-Trump descrito anteriormente. Exemplo disso foi o que ocorreu dois dias após o assassinato fascista em Charlottesville, em que jovens membros do Workers World Party, de Durham, Carolina do Norte, tiveram uma acção directa que, por desespero, acabou em provocação.

Uma jovem afro-americana, Takiyah Thompson, subiu uma escada e pendurou uma corda à volta de uma estátua de um oficial da Confederação que, de seguida, outros jovens derrubaram - os racistas ergueram centenas de estátuas, produzidas em massa há cerca de 100 anos atrás, para intimidar a população afro-americana. Os jovens quiseram mostrar que não confiavam nos órgãos do poder do Estado e que somente tomando em suas mãos a luta pela justiça esta poderia progredir. Depois da acção em Durham, dezenas de governos “municipais” decidiram remover estas estátuas pró-Confederação para evitar acções directas em massa. Os arguidos do derrube da estátua, que inicialmente enfrentaram acusações legais graves, foram considerados inocentes em Fevereiro deste ano.

Luta de Classes na Virginia Ocidental

Outro sinal positivo da resistência à era Trump tem sido a greve dos trabalhadores da educação na Virgínia Ocidental em Março deste ano. Este Estado tem uma heróica história de união sindical, especialmente dos trabalhadores mineiros de 1920 a 1975, que incluiu até batalhas armadas. Entretanto a exploração de carvão entrou em colapso e na eleição de 2016, a população deste Estado votou esmagadoramente por Trump. No entanto tal não impediu que a maioria das mulheres professoras e outras trabalhadoras escolares desafiando uma lei de não-greve e anulando os seus próprios líderes sindicais conservadores realizassem uma greve de oito dias e ganhassem um aumento de 5%. Outros professores em Oklahoma e Arizona, inspirados pela luta da Virgínia Ocidental, estão também a planear a greve.

Estes acontecimentos na Virgínia Ocidental são uma prova de que, mesmo no centro do imperialismo mundial, onde a classe dominante capitalista dos EUA domina tanto a ideologia quanto o poder do Estado, há uma luta de classes intensa. O movimento laboral, com apenas alguns momentos de reacção, esteve em recuo ao longo das últimas quatro décadas. Actualmente, apenas 10% de todos os trabalhadores estão sindicalizados, sendo que em 1965 esse número era superior a 30%. A greve na Virgínia Ocidental, sendo apenas a primeira etapa de um novo desenvolvimento na luta laboral nos EUA, é um bom começo, um começo forte.

Os afro-americanos lutaram pelos direitos civis. As mulheres lutaram pela igualdade. O mesmo acontece com a comunidade LGBTI, desde a revolta de Stonewall até todas as lutas que se seguiram. Migrantes sem documentos lutaram contra deportações. Pessoas com deficiência têm lutado por acessibilidade. Se os sindicatos lançarem novas lutas pelos direitos dos trabalhadores, e se entre todas essas lutas se estabelecerem fortes laços de unidade e solidariedade, crescerá com certeza o movimento de resistência política para o monstro Trump e a luta de classes contra a classe dominante que ele representa.

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