Cinema: The Post

Nº 1742 - Primavera 2018
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

O cineasta inspirou-se na história verídica de Katharine Graham, filha de Eugene Meyer, brilhante financeiro, primeiro presidente do Banco Mundial e proprietário do «Washington Post». Casada com Phil Graham, amigo do presidente J. F. Kennedy, ela é uma esposa modelo, membro do gotha de Washington, anfitriã excelente que organiza grandes festas em sua casa e convive com os poderosos.

Desaparecido o pai, Phil Graham toma naturalmente a direcção do jornal que alarga a sua influência. Viúva precoce, Katharine vê-se herdeira dum jornal que nunca quis e entra num mundo de homens que pouco ouvem a sua opinião. Reservada, insegura, duvidando frequentemente das suas capacidades, ela vai tornar-se a representante do jornalismo moderno, impondo-se num mundo inteiramente masculino.

No filme, Spielberg reconstitui admiravelmente a atmosfera da redacção do «Washington Post», com a efervescência dos jornalistas à procura da melhor notícia para ultrapassar a concorrência de outros quotidianos.

No ecrã, Meryl Streep interpreta Katharine, mostrando as suas inseguranças e fragilidades, que se apoia no seu autoritário chefe de redacção Bem Bradlee.

Em 1971, «The Post» enfrenta um cruel dilema. O «New York Times», por decisão judicial, é proibido de publicar as revelações que encerram os «Pentagon Papers» que lhe chegaram às mãos. O «Post» tem igualmente acesso a esses documentos, que são um escândalo. São 7.000 páginas que acusam os presidentes do pós-guerra que, conhecendo as consequências desastrosas da guerra do Vietnam para a América, continuaram a enviar jovens americanos para o Vietnam, que são massacrados e sacrificados numa guerra perdida.

O tonitruante chefe de redacção do «Post» Ben Bradlee (Tom Hanks) insiste com Katharine para publicar os documentos que aparecerão na primeira página do jornal. Procura assim desafiar a interdição aplicada ao «New York Times» que viria directamente da Casa Branca. Katharine está numa das suas sumptuosas recepções que decorre em sua casa. Katharine hesita, lembra-se das relações que o seu pai e o seu marido tinham com os grandes políticos, mas continua absorvida na dúvida da decisão a tomar, pois pode perder tudo e ir parar à prisão. Após um telefonema memorável, a proprietária do jornal permite a publicação dos escandalosos documentos que saem na edição do dia seguinte.

A interpretação de Meryl Streep é fabulosa, mas também a de Tom Hanks. O entusiasmo de Ben Bradlee, como jornalista está aliado ao seu sentido de responsabilidade.

Katharine Graham com a sua decisão histórica fez cair o presidente Nixon, abalando a alta sociedade americana.

Spielberg contagia o público com o nervosismo dos jornalistas na urgência da notícia, na composição do jornal. Figuras cimeiras Katharine Graham e Ben Bradlee confrontam-se, decidem juntos, valorizando o papel da mulher num acontecimento histórico de enorme importância.

Afinal, trata-se da liberdade de imprensa, de o público ter acesso à verdade, da responsabilidade dos jornalistas. O que se passou nos E.U.A. é de grande actualidade, pois este é sempre um problema presente nos nossos dias, que não pode ser escamoteado.

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