Um Rumo a prosseguir

Nº 1740 - Outono 2017
Publicado em Editorial por: Revista Seara Nova (autor)

"A solução governativa em vigor no País não apenas resistiu, contra ventos e marés e azedumes vários, como permanece fecunda e, desejamos, que promissora"

"A inversão das políticas praticadas pelo governo do PSD/CDS, com a reposição gradual do poder de compra, o aumento do salário mínimo, e as políticas de redistribuição da renda nacional, mediante a diminuição da carga fiscal sobre quem trabalha são realizações políticas e sociais, que a generalidade da população portuguesa apoia"

"Para descrédito da direita, que, ao progresso e ao bem-estar dos portugueses, parece preferir o desastre do País e a vinda do diabo, foi aniquilada a política da austeridade e destruída a falácia das «inevitabilidades»"

 

 

"Perante uma direita desacreditada, frustrada e revanchista, melhor se poderão compreender as pulsões populistas, em especial no PSD, que se manifestaram no decurso da campanha eleitoral para as Autarquias Locais"

 

"A solução governativa em vigor no País e as transformações económicas e sociais ao serviço do bem-estar dos cidadãos, que constituem a melhor garantia da continuação do seu êxito, hão-de repercutir-se"

 

"Importará assim manter a trajectória de progresso e bem-estar dos portugueses e aprofundar as políticas que lhe servem de fundamento"

Contrariamente ao que a direita política preconizava, confundindo os seus desejos com a realidade, a solução governativa em vigor no País não apenas resistiu, contra ventos e marés e azedumes vários, como permanece fecunda e, desejamos, que promissora.

Poderá dizer-se que o Governo constituído, após as eleições de Outubro de 2015, na base do “Protocolo de Entendimento”, assinado por cada uma das forças políticas de esquerda, com expressão parlamentar, não foi, seguramente, “além da troika” - passe a ironia! - mas, pelo contrário, atingiu apreciáveis patamares de satisfação das necessidades colectivas.

De facto, a inversão das políticas praticadas pelo governo do PSD/CDS, com a reposição gradual do poder de compra, o aumento do salário mínimo, e as políticas de redistribuição da renda nacional, mediante a diminuição da carga fiscal sobre quem trabalha, bem como a valorização do trabalho e dos trabalhadores são realizações políticas e sociais, que a generalidade da população portuguesa apoia.

E, para descrédito da direita, que, ao progresso e ao bem-estar dos portugueses, parece preferir o desastre do País e a vinda do diabo, foram não apenas aniquilada a política da austeridade e destruída a falácia das “inevitabilidades”, ao arrepio das suas previsões e dos seus desejos, como também, no mesmo lance, quer dizer, mediante a inversão de tais políticas de desastre nacional e a adopção de medidas “mais amigas” dos cidadãos, o País alcançou o almejado equilíbrio das contas públicas, exactamente, apresentado como fundamento das políticas de austeridade.

E - pasme-se! – por acção de um governo apoiado pela esquerda, o País saiu do discriminatório “procedimento por deficit excessivo” que as instâncias da União Europeia, arrogantemente, fazem pender sobre os países mais vulneráveis, como se da espada de Dâmocles tratasse, condicionando, assim, por esta via, a acção do Governo e a vida dos portugueses.

E haverá ainda que assinalar a tão proclamada “saída do lixo” e a alteração positiva das célebres notações financeiras do País, não por aquilo que tais decisões valem – afinal são meros instrumentos de dominação política ao serviço do capital financeiro - mas por aquilo que, no plano simbólico, significam. De facto, é, no mínimo, curioso que seja exactamente um governo apoiado pela esquerda quem “convence” tais instituições, ao arrepio das políticas que os corifeus do capitalismo reputam como indispensáveis para atingir tal objectivo.

Julgamos que, neste contexto, perante uma direita desacreditada, frustrada e revanchista, melhor se poderão compreender as pulsões populistas, em especial no PSD, que se manifestaram no decurso da campanha eleitoral para as Autarquias Locais, porventura, como ensaio de uma nova afirmação política, inspirada nos movimentos da extrema-direita, que pululam um pouco por todo o Mundo e, particularmente, na Europa.

Noutro plano, haverá ainda que acrescentar, que, hoje em dia, pela “velocidade” de comunicação e pela integração em grandes espaços económicos, mais que nunca, os diversos países mutuamente se influenciam, sem negar, naturalmente, a expressão, a dimensão e as especificidades de cada um. De qualquer forma, o que hoje se passa em Lisboa não é indiferente ao que se passa em Madrid, Paris, Roma, Londres ou Bruxelas e vice-versa.

Quer isto dizer que a solução governativa em vigor no País e as transformações económicas e sociais ao serviço do bem-estar dos cidadãos, que constituem a melhor garantia da continuação do seu êxito, hão-de repercutir-se, em maior ou menor grau, na comunidade dos povos e, em especial, no espaço da União Europeia, despertando, porventura, energias e fomentando vontades em vista às alterações económico-financeiras e políticas, que tão necessárias se fazem sentir.

Importará assim manter a trajectória de progresso e bem-estar dos portugueses e aprofundar as políticas que lhe servem de fundamento, como garantia de elevação do País a padrões mais elevados de desenvolvimento económico, social e cultural.


É desesperante a situação em que Portugal se encontra.

São preocupantes os aspectos e indicadores financeiros, económicos, sociais, mas é limitativo confinar a tais planos a gravidade da situação actual do nosso País. No entanto são tais indicadores que em primeira análise dão a exacta medida das nefastas políticas que têm sido adoptadas e da fraca qualidade dos governantes que têm estado à frente dos destinos deste País, bem como das distorções do sistema económico em que estamos inseridos.

Dizemos que é limitativo, porque a degradação da sociedade portuguesa – e igualmente da europeia – é grave noutros planos, como o político, em que a democracia está restringida a aspectos formais, sempre mais limitados; como o cívico, onde o envolvimento das populações e dos cidadãos individualmente considerados nos destinos do País é cada vez menor, porque menos estimulado ou menos apoiado (caso do movimento associativo); como o cultural, onde apesar de muitas e interessantes manifestações, estas se destinam predominantemente a elites e os estímulos junto dos mais jovens são muito reduzidos; como o ético, com os exemplos pouco edificantes dos representantes dos poderes em casos de corrupção conhecidos ou suspeitados, com o desprestígio da justiça, provavelmente consequência principal de legislação inadequada, mas cuidadosamente elaborada para discreto benefício dos poderosos; e com os valores dominantes do sucesso individual sem olhar a meios, do individualismo exacerbado, da aceitação propagandeada de uma sociedade de injustiça e desigualdade social, temperada de uma caridadezinha quanto baste.

Haverá uma saída a curto / médio prazo?

Olhemos sucintamente os planos financeiro, económico e social: uma dívida externa elevada, pública, mas principalmente privada, com a banca descapitalizada (apesar das ajudas); um aparelho produtivo a ser extensa e servilmente destruído, desde o primeiro governo de Cavaco Silva; um mercado interno em retração, provavelmente cada vez mais acentuada dado o ataque aos direitos laborais e o crescimento do desemprego; a errada opção de privilegiar as exportações, constrangidas pela estagnação europeia; as dificuldades e ausência de apoios suficientes às pequenas e médias empresas, cujo peso é determinante no tecido produtivo do país; um desemprego descontrolado; a diminuição da parte dos salários no rendimento nacional; o nível muito baixo das reformas e o crescimento das manchas de pobreza.

A culminar tudo isto, uma política cega pela vulgaridade do neoliberalismo, sob a inadequação e malvadez das receitas da troika FMI/UE/BCE, condicionada pela inexperiência dos governantes e submetida às ordens das maiores potências europeias e a um patronato que ainda vegeta em ideias do século XIX.

Mas o descontentamento vai aumentando. Seria impensável que assim não fosse: a política em curso ofende as expectativas e os direitos de trabalhadores, de jovens e de idosos, dos estudantes, das forças de segurança e das forças militares, dos pequenos e médios empresários e de todos os sectores do funcionalismo público.

O que há de novo é que a resignação vai dando lugar à contestação e ao protesto.

Aí estão a comprová-lo as manifestações, concentrações, vigílias, abaixo-assinados e petições, vaias aos governantes e ao PR nas suas deslocações, contestação crescente na blogosfera. E acima de tudo a enorme manifestação sindical de 11 de Fevereiro, que no dizer da CGTP-IN transformou o Terreiro do Paço em “Terreiro da Luta” e a coragem desta em convocar uma greve geral para 22 de Março.

Esta luta alargada pode impor que a política nacional responda às reais necessidades do nosso País, na correcção dos desequilíbrios antes assinalados, em vez de estar subordinada à troika - instrumento do grande poder financeiro.

É isto possível na União Europeia e no espaço do euro?

A integração europeia sempre foi um projeto do grande capital europeu. Mas incorporou ideais democráticos e a defesa dos valores da liberdade, instituiu o modelo social europeu, inscreveu como seus princípios a coesão económica e social e a harmonização no progresso. Outros povos europeus – gregos, espanhóis, franceses, irlandeses, ingleses, belgas – lutam contra a actual política retrógrada imposta pela UE e respectivos governos. Os portugueses não estão sós na sua luta; e hão-de estar determinados a não seguir o caminho que nos esperará se continuarmos a deixar que aqui se reproduzam as selváticas medidas impostas ao povo grego.

Por cá, na Seara Nova, vamos dando o contributo possível na defesa dos valores democráticos, na promoção da cultura, na exigência de justiça social, na denúncia da política que não olha aos interesses do povo, tudo em respeito das tradições nobres desta revista de 90 anos.

Estamos a comemorar o 90.º Aniversário em justa homenagem aos que construíram e mantiveram esta revista, sempre num plano elevado que a colocam como uma referência da nossa democracia e da história portuguesa do século XX.

Dentro das comemorações “90 Anos Seara Nova” este é o terceiro número da revista que dá destaque ao 90.º Aniversário. Já realizámos duas Conferências Seara Nova, sob os temas “O Projecto Seara Nova” e “Leituras da Crise”, que foram assinaláveis êxitos, pela qualidade das intervenções dos oradores, pelo número de presenças e pela elevação dos debates. Inauguramos no Palácio Galveias, gentilmente cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, a Exposição Itinerante que tem por título “90 Anos de Intervenção Cívica e Cultural”, onde se manterá até ao final de Abril.

Entre outras iniciativas, está em preparação a 3.ª Conferência, sobre Comunicação Social, prevista para finais de Maio e organiza-se a lista das entidades e locais por onde circulará a Exposição. Esperamos contar com a presença dos nossos assinantes e leitores.

Nestas ações temos o apoio de uma Comissão de Honra, identificada noutro local desta revista e o patrocínio institucional da Câmara Municipal de Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Casa Museu Abel Salazar, Fundação Mário Soares e Fundação José Saramago.

As comemorações do 90.º aniversário da Seara Nova têm igualmente servido para divulgar a revista e é com agrado que registamos o número crescente de visitas ao sítio da internet inaugurado no âmbito destas comemorações e os quase 2.000 amigos que nos seguem no facebook.

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