No centenário do nascimento de Alexandre Cabral

Nº 1738 - Primavera 2017
Publicado em Cultura por: Aguinaldo Cabral (autor)

Alexandre Cabral é o pseudónimo literário do cidadão José dos Santos Cabral, meu pai, que nasceu a 17 de Outubro de 1917, em Lisboa, e faleceu a 21 de Novembro de 1996, na mesma cidade.

Era filho de um oficial de Marinha de baixa patente, algo severo e pouco tolerante com as transgressões disciplinares dos filhos. Viveu a sua infância na Ajuda, num bairro de gente humilde, convivendo com a miudagem pobre do bairro, descalça e aventureira. Frequentou com regularidade a escola primária, e foi aluno (pilão) do Instituto dos Pupilos do Exército onde imperava um regime rigoroso de “caserna”. Contudo, na Companhia de Alunos, existia um forte espírito de camaradagem e de solidariedade, fundamentais à formação da personalidade do jovem José. Alexandre Cabral sempre defendeu que “Aquilo que sou, e de que me orgulho, devo à matriz que me enformou.” Desta vivência marcante resultou, anos mais tarde, o romance Malta Brava (1955,1997).

Por vontade própria interrompeu os estudos aos 15 anos de idade, e teve sucessivos empregos, em diversas áreas, contactando, assim, desde muito cedo, com a realidade laboral e social do Portugal salazarista.

Manifestou sempre um profundo interesse pela literatura e a cultura em geral. Foi director do jornal A Voz da Mocidade em 1936, aos 19 anos, e publicou as suas primeiras obras em 1937: Cinzas da Nossa Alma e Parque Mayer em Chamas, a que se seguiram Contos Sombrios (1938) e O Sol Nascerá um Dia (1942). Aproximou-se e integrou o movimento neorrealista português, sendo considerado um nome importante na vertente literária.

Nos anos 40 emigrou, com o poeta Sidónio Muralha, para o Congo Belga (Leopoldville), para onde eu e minha mãe seguimos mais tarde. Foi director da Amical Portuguesa e desenvolveu importante actividade cultural. Esta experiência africana deu origem a várias publicações, como Contos da Europa e da África (1947), Terra Quente (1953), Histórias do Zaire (1956), A Fula (1963), onde são tratados, com realismo e humanidade, alguns aspectos pouco referenciados na literatura portuguesa, da relação entre os africanos e europeus, mas, também, entre estes últimos, estratificados consoante o seu estatuto, o seu poder económico (ler o belo conto O Cacholas inserido nas Histórias do Zaire).

Uma vez regressado a Portugal, retomou os estudos e frequentou o curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras de Lisboa, e iniciou um longo período de febril actividade literária, cívica, política e associativa, na defesa da Liberdade e da Democracia, sofrendo, em consequência, a prisão pela PIDE. Participou nas campanhas políticas e nas lutas antifascistas. Foi apoiante da candidatura do Dr. Arlindo Vicente à Presidência da República (1958). Pertenceu às Comissões de Escritores de apoio à CDE (1969,73). Fez parte da Comissão Organizadora e da primeira direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores, cujo presidente foi Aquilino Ribeiro, e integrou os primeiros corpos gerentes da Associação Portuguesa de Escritores, da Seara Nova e da Liga para o Intercâmbio com os Países Socialistas. Ocupou, sucessivamente, o lugar de vice-presidente, presidente da Assembleia Geral e presidente da Associação de Amizade Portugal-Cuba.

A vasta obra literária de Alexandre Cabral é constituída por vários romances, contos, novelas, ensaios, antologias, prefácios, crónicas, biografias, traduções, uma peça de teatro, e imensa colaboração escrita em jornais e revistas nacionais (incluindo órgãos regionais) e estrangeiros.

Não sendo, de modo algum, um especialista de análise literária, atrevo-me a afirmar que a obra ficcionista de Alexandre Cabral, algo irregular, contém páginas magníficas como ocorre nas Memórias de um Resistente – narrativa romanceada, escrita em 1968 (1970,1980), no romance Margem Norte (1961,1984), e em alguns contos inclusos no O Sol Nascerá Um Dia e nas Histórias do Zaire, já referidos. Com o seu estilo particular com a utilização frequente de palavras ou expressões pouco usuais, umas vezes irónicas e sarcásticas, outras mais rudes e brutais, as personagens e os acontecimentos ganham contornos nítidos e vida própria, onde não falta um toque de ternura e de humanidade.

Como se sabe, Alexandre Cabral dedicou longos anos da sua vida, após 1960, à investigação literária e ao estudo histórico-biográfico da vida, obra e época de Camilo Castelo Branco, de que resultaram mais de 160 títulos, onde se deve destacar a cuidadosa compilação das Polémicas, os comentários preciosos da Correspondência, e os Prefácios e Notas às Novelas sempre minuciosos e claros. Foram anos de trabalho absorvente, quase obsessivo, que debilitou a sua saúde, com uma solidez de investigação e um rigor informativo assaz incomuns, e que culmina na elaboração do Dicionário de Camilo Castelo Branco (1989,2003). Esta obra é reconhecidamente aceite como fundamental para os estudos camilianos e do século XIX português. Aníbal Pinto de Castro caracteriza o Dicionário como “inesgotável manancial de informação que pode, sem favor, qualificar-se de monumental”, e atribui ao autor o título de “Mestre incontestado dos Estudos Camilianos” (1996).

Pelo conjunto da sua obra e pelo seu percurso como cidadão, recebeu, em vida e postumamente, várias homenagens, consagrações, prémios, condecorações (como a de Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique), medalhas de mérito, e a atribuição do seu nome a uma rua de Lisboa.

Foi Alexandre Cabral um homem digno, firme nas suas convicções políticas até ao fim, afável, humano, de grande empenhamento cívico e social, um combatente da Liberdade, um intelectual despretensioso, que teve uma influência determinante na formação da minha personalidade e postura, como cidadão e médico. Por seu intermédio tive a oportunidade de conhecer, brincar, conviver, aprender, consoante a minha idade, com figuras que já eram, ou vieram a ser, personalidades de prestígio na cultura e na política. Não esquecerei nunca Sidónio Muralha, A. Vicente Campinas, Soeiro Pereira Gomes, Fernando Augusto, Mário Dionísio, Alves Redol, Alberto Ferreira, Ferreira de Castro, Fernando Namora, Vasco Pereira da Conceição e Maria Barreira, Mário Soares e Maria Barroso, Augusto Costa Dias, Rogério Paulo e outros.

Tenho lembranças de criança de situações que só as entendi corretamente mais tarde, como a proibição de mexer numas tábuas de madeira da varanda da casa da rua de S. Bento, que mudavam estranhamente de posição, das reuniões sussurradas no escritório do pai com pessoas que não podia ver, de uma maquineta (tipografia) escondida na carvoeira da cozinha, de uns documentos impressos em papel fininho, mais tarde do assalto à mão armada à nossa casa de Alvalade e a prisão do pai (cenário que se repetiria, não tão marcial, em 1965, com a minha prisão), da aflição de minha mãe (mulher modesta mas central na nossa família), das idas à António Maria Cardoso para exigir uma visita ao pai preso, os contactos breves, angustiantes, vigiados no Aljube, o som das chaves e das portas de ferro da prisão a abrir e a fechar, enfim e muitas outras inquietudes até Abril de 1974. São reminiscências que ficaram gravadas na mente da criança e do jovem adolescente, que eu fui.

Tal como Alexandre Cabral dizia, também eu afirmo “aquilo que sou, e de que me orgulho, devo à matriz que me enformou”. Tenho orgulho de ser filho de José dos Santos Cabral (Alexandre Cabral).

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