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SEARA NOVA, nome de rua em Lisboa
22 de Maio de 2017

Um acto de justiça não se agradece. A justiça, quando acontece, regista-se, quantas vezes com espanto; saúda-se, com maior ou menor entusiasmo – mas a justiça não se agradece, como um favor que se retribui. Por isso aqui estamos hoje, nós, fiéis depositários da herança seareira, para registar e saudar a decisão da Câmara Municipal de Lisboa de atribuir o nome da Seara Nova a um arruamento da Cidade, e para felicitar os lisboetas, em especial os que passam a ter no seu bairro uma rua com o nome da Seara. Confessamo-nos honrados com a distinção, que é uma homenagem, conferida à Seara Nova, distinção que igualmente honra e enobrece a autarquia que a confere.

Porque é de um acto de justiça que falamos, ao celebrarmos a inscrição da Seara Nova na toponímia da Cidade onde foi fundada, e onde continua a existir, uma revista que, prestes a atingir o centenário, se mantém fiel ao projecto com que, em 1921, no quadro de uma jovem República ainda em fase de consolidação, finda a tragédia da 1.ª Guerra Mundial, foi sonhada por um grupo de cidadãos, atentos e preocupados com a vida do País, que se propunham contribuir para uma necessária e profunda transformação das mentalidades, nos planos cívico, cultural, ideológico e, por que não?, político.

Orgulhamo-nos da excelência dos nomes que nos precederam, os que fundaram a Seara e os que, ao longo dos anos, nela mantiveram acesa a chama da democracia e da liberdade: Raul Proença, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Luís da Câmara Reys, Raul Brandão, Ezequiel de Campos, Leal da Câmara, António Sérgio, José Rodrigues Miguéis, António Faria de Vasconcelos, Irene Lisboa, João Sarmento Pimentel, Maria Lamas, Jorge de Sena, Augusto da Costa Dias, Augusto Abelaira, Rogério Fernandes, Fernando Lopes-Graça, José Saramago, e tantos, tantos outros – tanta gente, tão boa gente! – que, vindos quer da literatura, quer das artes, da ciência, do jornalismo, souberam fazer da Seara um exemplo da cidadania, do livre pensamento, contra o obscurantismo, contra as teias de aranha mentais, contra o conservantismo passadista de uma sociedade reticente, quando não avessa, a reformas, contra o “reino da estupidez”, sempre resiliente a alterações e, por isso mesmo, sempre a exigir combate sem tréguas, a favor da inteligência, da mudança e da modernidade.

Durante o quase meio século da Ditadura, contra toda a sorte de obstáculos e dificuldades, da vigilância e da obstrução da polícia política e da Censura (que agilizou as nossas mentes no entendimento das entre-linhas, relevando factos e documentos), a Seara ocupou sempre um lugar cimeiro na informação e na crítica, assim no campo editorial, quer no domínio dos clássicos quer na actualidade, como farol da resistência antifascista. Por isso, cada número da revista representava, não só em Portugal, mas também nas Colónias (sobretudo no período da guerra colonial), na emigração e no exílio, um sinal de esperança e de confiança no futuro de um País livre e soberano.

A Revolução de Abril de 1974, ao abrir as portas da liberdade à Cidade e ao Mundo, foi saudada pela Seara Nova com a emoção que, desde a madrugada de 25 de Abril, trouxe para a rua o Povo de Lisboa e do País, na fraternidade do abraço aos militares do Movimento das Forças Armadas, celebrando a conquista da liberdade e dos direitos, que são a essência da dignidade humana, pelos quais a Seara sempre se batera, contra ventos e marés.

A construção da democracia, numa sociedade aberta, recortada numa Constituição ágil e descomplexada como é a Constituição de Abril de 76, é a linha de rumo que define a Seara Nova: com uma política marcadamente de esquerda, que continuamos a defender, não por obstinação ideológica, mas por considerarmos que, quer por princípio quer por força da lição da experiência, só uma política de esquerda possibilitará concretizar o caminho de libertação integral que nos apontou a Revolução de Abril.

A cidade de Lisboa, cada dia mais bonita e aberta ao Mundo, planta hoje mais um cravo de Abril, com a homenagem que presta à Seara Nova dando-lhe nome de rua. Com o sinal da nossa presença nesta cerimónia, aqui deixamos o testemunho da nossa gratidão a todos os que, ao longo dos tempos, souberam manter vivo, e transmitir-nos, o ideal de liberdade e de progresso que desde sempre foi a razão de ser da Seara Nova."

Levy Batista



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