Médio Oriente: o caos como política imperialista

Nº 1737 - Out/Inv 2016
Publicado em Internacional por: Jorge Cadima (autor)

A Humanidade vive hoje a mais grave crise desde o final da II Guerra Mundial. Guerras sem fim. Uma permanente subversão de países e regiões inteiras, em particular das mais cobiçadas pelas grandes potências imperialistas. O risco dum conflito directo entre as duas maiores potências nucleares do planeta. Crise permanente duma União Europeia cada vez mais rejeitada pelos seus povos e incapaz de outra coisa senão mais miséria, exploração, autoritarismo e guerra. As incertezas associadas à eleição de Trump e as suas provocações à China. Crescentes rivalidades entre potências económicas, mesmo que formalmente aliadas. O ascenso da extrema-direita, dos fascismos, do racismo, do anti-comunismo, do terrorismo e da violência mais brutal. Milhões de refugiados – o maior número desde a II Guerra Mundial, segundo a ONU - com 5000 mortos no Mediterrâneo, apenas em 2016. Tudo isto reflecte a tragédia em que boa parte da Humanidade vive – e morre – nos nossos dias.

A catástrofe do Médio Oriente

Não há região do globo que tenha sido tão martirizada nas últimas décadas como o Médio Oriente e zonas limítrofes. Países inteiros foram destruídos, fragmentados, lançados na barbárie: Iraque, Síria, Iémen – um pouco mais além a Líbia, Afeganistão, Somália – para não falar do eternamente martirizado povo Palestino ou do Líbano vítima das invasões de Israel. A Turquia pode vir a ser sofrer outra enorme tragédia (vítima da sua própria política). Tendo em conta as posições conhecidas de Trump e membros do seu governo, e as suas relações com o fascista Netanyahu, não se pode excluir que o desastre se venha a estender ao Irão, com consequências imprevisíveis.

Este quadro trágico é indissociável de um quarto de século de guerras de agressão – directas ou indirectamente promovidas, financiadas e armadas - pelas grandes potências imperialistas, em particular os EUA, Inglaterra, França, e pela NATO. É indissociável da primeira Guerra do Golfo, da década de sanções assassinas e da invasão do Iraque que se lhe seguiu em 2003. É indissociável da opção de destruir a Líbia de Gadafi e a Síria de Assad, com 'mudanças de regime' financiadas a partir do exterior e que espalharam o caos e a barbárie. É indissociável duma opção deliberada de promover bandos terroristas que foram publicamente descritos pelo General Wesley Clarke (comandante da NATO na guerra contra a Jugoslávia) como «os jihadistas 'bons' financiados pelos nossos aliados». É indissociável de concepções como a de Martin Wolf, economista-chefe do Financial Times e habitué das reuniões do Grupo Bilderberg: «Decisores ocidentais parecem acreditar que o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (conhecido por ISIS) é a maior ameaça. Mas a Rússia […] assusta-me ainda mais».

Entre os principais alvos das potências imperialistas têm estado os regimes laicos da região: Iraque, Líbia, Síria, Iémen, Líbano. Mas não as ditaduras teocráticas financiadoras-mor do terrorismo fundamentalista e onde não há qualquer direito democrático (nem de fachada), como as petro-monarquias da Arábia Saudita, Catar ou Emirados Árabes Unidos – essas não foram objecto de guerras, subversões, 'mudanças de regime' ou sequer campanhas negativas na comunicação social. Quando, como no Bahrain, foram confrontadas com grandes protestos populares, viram a comunicação social rapidamente esquecer a euforia por mais uma 'primavera árabe' e fechar-se num silêncio conivente com a repressão das tropas sauditas.

As mentiras e os silêncios da propaganda de guerra

Todas as guerras de agressão directamente protagonizadas pelas potências imperialistas na região foram preparadas por enormes campanhas mediáticas. As 'armas de destruição em massa de Saddam Hussein' tornaram-se o paradigma das mentiras da propaganda de guerra. Em parte, porque as rivalidades que então opuseram a França e Alemanha aos EUA (e à Inglaterra de Blair, a Espanha de Aznar e Portugal de Durão Barroso – futuro Presidente da Comissão Europeia e alto quadro da Goldman Sachs) evidenciaram essas mentiras.

Mas as mentiras não foram menores no caso da agressão à Líbia. O então Embaixador de Portugal em Tripoli, Rui Lopes Aleixo, desmentiu aos microfones da Antena 1, logo em Fevereiro de 2011, que Gadafi tivesse 'bombardeado o seu povo', afirmando que não era verdade que tivesse havido «os bombardeamentos que os noticiários têm estado a divulgar, com centenas de mortos. Isso não é verdade. Não há bombardeamentos da força aérea, não há bombardeamentos de artilharia pesada O que há é tiros, toda a gente tem armas»; «há mais confrontos entre a população, do que propriamente com as forças armadas ou com a polícia». O relatório da Comissão Parlamentar de inquérito da Comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento britânico, publicado em Setembro de 2016, confirmou as palavras do nosso Embaixador e desmentiu a propaganda de guerra que, na altura, condicionou a opinião pública e ajudou a desencadear a agressão da NATO. O relatório afirma que «uma análise posterior sugere que o perigo para os civis estava a ser publicamente exagerado […] a alegação de que Muammar Gadafi ordenou o massacre de civis em Bengasi não é sustentada pelas provas existentes. No início de Fevereiro de 2011, o regime de Gadafi retomou povoações aos rebeldes sem atacar civis». O relatório refere ainda que uma investigação da Amnistia Internacional «não sustentou alegações sobre violações em massa de direitos humanos pelas tropas do regime de Gadafi. Porém, descobriu evidência de que os rebeldes em Bengasi estavam a fazer falsas acusações e a fabricar provas. A investigação concluiu que muita da cobertura na comunicação social ocidental tinha, desde o início, apresentado uma visão muito unilateral do curso dos acontecimentos». Em vez de 'bombardeamentos de Gadafi sobre o seu povo', o que houve sim foram 'bombardeamentos da comunicação social ocidental sobre os seus povos'.

Chegará o dia em que haja o reconhecimento de que, também no que respeita à agressão à Síria, as campanhas mediáticas se basearam em «falsas acusações» e «provas fabricadas», para justificar mais uma tentativa de 'mudança de regime'. Como compreender a conivência da comunicação social internacional com o massacre das populações civis sírias pelos «jihadistas bons» de Wesley Clark, quando elas próprias reconhecem (longe das manchetes) actos de barbárie inqualificáveis, como a decapitação duma criança, gravada em video e orgulhosamente afixada na internet, ou actos de canibalismo dos corpos de soldados síros mortos? E quando entre as principais vítimas desses massacres se encontram as comunidades cristãs sírias? Como compreender que os mesmos bandos terroristas a quem são atribuídos os massacres de 11 de Setembro, de Paris e Nice, ou de Berlim,e cuja ameaça é invocada como pretexto para medidas securitárias e a suspensão de direitos, ou mesmo para operações militares (invasão do Afeganistão ou o regresso das tropas dos EUA ao Iraque), sejam os aliados das potências ocidentais na Síria ou Líbia?

A contradição é apenas aparente. O que parece incompreensível torna-se evidente se tivermos em conta a História e a natureza do sistema social e económico em que vivemos. O caos instalado no Médio Oriente visa o objectivo de velhas e novas potências coloniais recuperarem a hegemonia planetária, e em particular da sua região mais rica em recursos energéticos.

(Re)colonização e imperialismo

Num artigo de fundo, publicado há quase duas décadas, a revista The Economist (porta-voz do grande capital anglo-americano) procurava identificar «que países, ou grupos de países, poderão vir a ser sérias potências mundiais daqui a 30 e poucos anos», adiantando que «dificilmente a América permanecerá 'a única superpotência'». Longe das conversas 'humanitárias', sobre 'direitos humanos' ou 'ditadores que matam os seus povos', o Economist ia direito às questões de fundo, colocando quatro questões prévias, a primeira das quais era «saber se a economia de quem aspira a ser grande potência é suficientement rica para lhe comprar uma força militar que possa ser usada a grande distância [...]. Uma força militar global inclui armamento nuclear de alcance inter-continental, suficientemente numeroso ou bem protegido para dar uma certeza razoável de poder sobreviver a um ataque de outra potência nuclear. Mas terá também de incluir uma força expedicionária […] que possa ser rapidamente enviada para zonas distantes do planeta […] porque mesmo um ataque nuclear bem sucedido [sic!] precisa de ser seguido de soldados no terreno que possam assegurar que continue a ser bem sucedido». Identificando os seus candidatos a superpotências, o Economist salientava os EUA, 'a Europa' e a China. E defendia vigorosamente uma «aliança Euro-Americana», nos seguintes termos: «Em conjunto, as democracias Euro-Americanas podem permanecer sem concorrentes [unchallengeable] durante boa parte do novo Século. Possuem – e têm usado no Golfo e nos Balcãs – esse longo alcance militar. Têm, na nova NATO, uma organização central para coordenar as acções militares dos membros da NATO que decidem que é preciso agir. [...] O fim da Aliança Atlântica também tornaria mais difícil lidar com esse rectângulo explosivo entre a Arábia e o Cazaquistão. À medida que a economia chinesa se expande, os chineses procurarão nesta região muita da energia adicional de que necessitarão. […] As questões que permancem por responder – em que direcção correrão os oleodutos, de quem será o dinheiro que irá decidir a questão, se algo mais musculado do que apenas o dinheiro será usado – fazem atordoar a imaginação. Para impedir esta bomba de explodir será necessária mais autoridade global do que a Europa por si só possui. Também precisa da América, com o seu dinheiro extra e a sua influência diplomática e, em última análise, o seu muito maior poderio militar. Se a bomba explodir poderá ser o início duma guerra Euro-asiática».

Mais ou menos na mesma altura, o General Loureiro dos Santos defendia teses análogas em entrevista ao Diário de Notícias, que o jornal destacou em manchete com o título «Guerra mundial é inevitável». Antevendo a guerra «para daqui a 20 anos», o General Loureiro dos Santos dizia há 17 anos: «não podemos esquecer que na base de tudo isto está a disputa dos recursos mundiais». Falando de novas potências que possam emergir («e estou a pensar na China em especial») e «reúnam capacidade para se opor ou desafiar os Estados Unidos», acrescentava: «os Estados Unidos precisarão de actuar. Isso não será para já, mas dentro de 15, 20 anos é praticamente inevitável». Tal como o Economist, Loureiro dos Santos colocava o uso de armas nucleares no domínio do possível, afirmando mesmo: «Tem de haver formas novas de fazer a guerra. Possivelmente as outras armas de destruição maciça vão passar a ter um papel muito mais importante, nomeadamente a arma biológica. A arma atómica continuará a ser uma arma muito importante […] mas para as grandes potências deixará de ser um obstáculo» [sic!], já que «começam […] a aparecer novas tecnologias, nomeadamente nos EUA, que vão permitir tornar os teatros de operações invulneráveis a ataques de mísseis adversários. O que altera completamente os raciocínios estratégicos».

Estas velhas avaliações sublinham que discorrer sobre sunitas, xiitas ou curdos, sobre o papel deste ou aquele país ou dirigente, é seguramente importante para compreender as dinâmicas dos acontecimentos que se vão sucedendo. Mas para compreender as forças motrizes dos acontecimentos que vivemos, há que dirigir o olhar para as grandes potências imperialistas e a forma como encaram a imposição dos seus interesses.

Quando no rescaldo da derrocada da URSS, os EUA, Inglaterra, França e outras potências da União Europeia decidiram fazer regressar a política internacional aos 'gloriosos' tempos imperiais e coloniais, lançando às urtigas a Carta da ONU e apostando em cheio na lei do mais forte e na política da guerra, tinham como objectivo central retomar a hegemonia planetária e impedir o surgimento de novas potências (independentemente do seu sistema social) que lhes pudessem fazer sombra. Não a propalada 'livre concorrência', mas a imposição duma 'ordem hierárquica' por todos os meios, incluindo a força e a guerra. No quarto de Século decorrido houve momentos de maior colaboração EUA-UE (presidências Bush Sr., Clinton e Obama) e momentos em que os EUA procuraram impôr unilateralmente a sua hegemonia (Bush Jr.).

O impetuoso crescimento económico da China, o eclodir da grande crise do capitalismo em 2007-8, a resistência da Rússia agudizaram as contradições. As operações militares das potências imperialistas não se saldaram pelo êxito desejado, bem pelo contrário. O caos destruiu Estados independentes, mas também abriu portas para que outros actores independentes reforçassem a sua influência na região, como o Irão, o Hezbollah e a Rússia. A derrota dos jihadistas em Alepo, em finais de 2016, embora não seja o fim da guerra na Síria, é um acontecimento de enorme importância e impacto. Pela primeira vez nas últimas décadas, uma ingerência militar imperialista de grandes proporções sofre uma clara derrota no terreno. A hegemonia mundial dos EUA estremece.

A ascensão de Trump e as profundíssimas clivagens internas que revelou, é inseparável deste agudizar da crise económica do capitalismo, da crise da hegemonia mundial das velhas potências imperialistas e da crise dos EUA em particular. Embora muito esteja ainda por esclarecer em relação aos reais objectivos de Trump, tudo aponta para uma tentativa de conter o ascenso da China e retomar a imposição da dominação planetária pelos EUA, também através do reforço (já anunciado) das forças militares, incluindo nucleares, dos EUA.

Uma coisa é certa: é urgente que os povos do mundo, já tão martirzados por este capitalismo cada vez mais parasitário e destrutivo, ganhem consciência dos enormes perigos com que estão confrontados. Apenas a sua unidade, organização e intervenção poderá derrotar os desígnios imperialistas que de novo se arriscam a arrastar a Humanidade para a catástrofe.

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