Academias seniores Um movimento popular

Nº 1736 - Verão 2016
Publicado em Nacional por: Rui Pires (autor)

Normalmente encontramos nas Academias Seniores, as pessoas mais interessantes e interessadas da nossa sociedade, independente da idade, origem ou formação.
O serem sexagenários (os mais novos) ou septuagenários ou mais velhos, não lhes tira vontade de viver, nem a imaginação ou o sonho.
Este é, aliás, um dos pontos chave para o entendimento destes centros de cultura e convívio, que são as academias seniores, locais onde se dão forma a novos sonhos.
Neste artigo, procuramos dar espaço a estas iniciativas das gerações mais maduras do nosso País, que continuam a aparecer, diariamente, em todos os cantos de Portugal.
Aproveitando esta iniciativa da Seara Nova, de dar espaço editorial a este movimento independente de cidadãos, e que muitos aproveitadores querem dirigir ou chamar-lhe seu, dedico estas palavras a um dos seus melhores professores, que já nos deixou, o Professor Artílio Batista, que dedicou inteiramente a última dezena de anos da sua vida, à Universidade da Terceira Idade do Barreiro.
Foi dele a ideia de congregar várias academias seniores, onde se incentivasse a entreajuda, a troca de experiências e a solidariedade entre os que comungassem desses princípios. Assim nasceu o Núcleo de Academias do Universo Sénior (NAUS) que junta mais de uma dúzia de academias da zona da grande Lisboa e que procura, num espírito de diálogo e transparência, fortalecer um movimento onde e ao contrário de outros que por aí andam, todas as decisões são discutidas e aprovadas colegialmente.


Procura-se estimular, através do envolvimento em programas nacionais e internacionais, especialmente preparados e a baixos preços, o engrandecimento cultural de cada um, contribuindo, simultaneamente, para fomentar maiores laços de amizade entre os intervenientes, através de um convívio e duma sã confraternização.
As iniciativas, além de reforçarem os fins a que se destinam as Associações Seniores - o de contribuir para o desenvolvimento intelectual e cultural de todos os seus membros - põem à disposição das diferentes Escolas e Clubes Seniores aderentes, diversos projectos de participação em acontecimentos de interesse cultural, visitas apoiadas a museus, presença em festivais de diferente índole, encontros com diversas personalidades, assistência a peças de teatro ou concertos, nacionais ou internacionais, ou simplesmente visitas a locais com história,  explicados por especialistas, sempre com um programa elaborado caso a caso, conferindo-lhe um caracter distinto, mas integrado no amplo movimento social e de desenvolvimento cultural constituído pelas Academias Seniores e procurando, como maior objectivo, divulgar e preservar a nossa identidade cultural,  como povo a quem foi destinado, pelas circunstâncias do seu desenvolvimento e da sua própria índole, um papel maior na História Universal.
Artílio Batista além de ter sido um dos seus iniciadores, foi um exemplo de vida, de marido, de pai, de educador, de revolucionário, no sentido pleno da palavra.
Quando saiu, pela última vez, do Hospital dos Capuchos, poucos dias antes de morrer, telefonou a várias pessoas próximas, para lhes dar essa boa notícia, o que muito nos alegrou.
A mim disse-me, com seu modo simples, que me queria pedir desculpa por não ter ligado mais cedo, pois não tivera oportunidade! Ele que lutava contra a morte, telefonava-me a pedir desculpa por não ter ligado antes! Absolutamente extraordinário!       
E aproveitou para dizer que tinha estado a planear as próximas aulas e que, apesar de ir ainda demorar um pouco a recuperar, daí a pouco tempo, já estaria de novo entre nós, para as suas belíssimas preleções sobre Sociologia, onde nos ensinava a sermos melhores.
E foi, sobretudo isso, que eu aprendi com o mestre, a ser melhor!
Falava de um modo simples sobre os problemas mais difíceis e controversos, indicava sempre, no seu modo equilibrado e culto de falar, como observar este mundo em degradação, e conseguia sempre o milagre de nos transmitir a esperança de um futuro melhor. Ele transmitia-nos a certeza de que tudo iria ser de novo reconstruído, tudo o que tem sido destruído e vandalizado, tudo seria recuperado!


A sua certeza era chocante, a sua firmeza interior era inigualável e a melhor homenagem que nós, seus amigos e últimos companheiros, lhe podemos fazer, de modo a honrar a sua memória, é continuarmos na senda do que nos ensinou, lutar contra a injustiça, ter a certeza interior de que conseguiremos vencer o medo e a angústia que hoje grassa pelo mundo.
O que melhor o professor Artílio Batista nos ensinou, é que devemos permanecer fiéis aos princípios da liberdade e da fraternidade entre os homens, como tão equilibradamente, nos expunha semanalmente.
Toda a sua vida foi exemplo de como se deve combater, sem receio nem hesitações, os males deste mundo.
O NAUS foi criado dentro deste espírito de solidariedade e nele temos encontrado uma grande adesão e aceitação por estes princípios.
Esta geração mais madura, sabe que o seu papel cívico e social, não se esgota com a chegada da reforma e nesta fase da sua vida, sabe aliar a sua experiência única, a uma renovada vontade de viver e de a pôr ao serviço de terceiros!

Ver todos os textos de RUI PIRES