Universidades seniores de Portugal (Reflexões sobre a situação actual)

Nº 1736 - Verão 2016
Publicado em Nacional por: Carlos Consiglieri (autor)

Nas primeiras décadas do século XX surgem em Portugal as nomeadas “Universidades Populares”, que recolhem várias experiências, então levadas a cabo de “educação popular”, fruto das iniciativas republicanas e progressistas orientadas para a educação permanente de adultos.

Registam-se, entre outras designações, as mais emblemáticas e significativas de Universidades Livres ou Populares, assim como, Academias (de denominação esta muito usada actualmente). Os objectivos básicos e divulgados baseavam-se em conceitos muito amplos e abrangentes como Escolas Livres.

Porém, com o advento do fascismo todas estas ideias e estruturas foram proibidas e, nalguns casos, severamente perseguidas. Em Bento de Jesus Caraças podemos simbolizar esses tempos de luta e de repressão física e intelectual. No entanto, nem tudo foi perdido nem esquecido no processo histórico pois, nos inícios da década de 70, surgem estruturas que retomam, de certa maneira, princípios e objectivos dessas lutas.

O 25 de Abril trouxe, como seria inevitável, a recuperação destas “ideias”, a par de muitas outras que traduziam renovação do passado, mas também, as mudanças revolucionárias desses anos como os princípios da aprendizagem integral do cidadão. Foi nestes contextos e objectivos que uma nova consciência tomou nas suas mãos as “ideias” da aprendizagem ao longo da vida que a UNESCO lançara uma década atrás e que entrara escancaradamente pelas portas da Revolução.

É que, a abertura à democracia exigia respostas socioeducativas adequadas aos nossos problemas e aos níveis culturais então existentes de forma a criar e dinamizar o que então se inventariava, na base das actividades políticas, culturais, formativas e de convívio, no âmbito da liberdade que se vivia num contexto de enquadramentos plurais e diversificados nas áreas das ciências e da cultura popular.

As iniciais ideias sobre a formação da aprendizagem ao longo da vida no âmbito mantiveram-se no decorrer das lutas mais amplas que integraram o nosso processo histórico. Sobressaíram os aspectos fundamentais ligados às ideias estruturais da democracia como o “bem-estar” social. Para se compreender este processo deve-se partir dos conceitos de envelhecimento activo proclamados pela Organização Mundial de Saúde. Foi, portanto, ao longo do laborioso aprofundamento destas questões teóricas e práticas que se chegaram a conceitos criativos do “envelhecimento activo” quando ele potencia não só a importância da saúde, mas também, a segurança da qualidade de vida e onde a cultura se revela básica e essencial, espelhando a verdadeira integração social.

Dos múltiplos ganhos pessoais e colectivos que desde logo foram visíveis ressaltaram, entre outros aspectos, a valorização da pessoa idosa no seio da sociedade e das suas contradições de classe. Assim, o envelhecimento activo assumiu as suas dimensões polivalentes e inovadoras permitindo a realização de muitas das ideias sociais e pedagógicas que se tinham revelado ao longo das práticas e das múltiplas discussões que se realizaram.

Todas as actividades e meios envolvidos nesse trabalho evidenciaram, ao longo das últimas décadas, as mudanças qualitativas quanto à participação cívica, à coesão e integração social. Para tanto, e na base de todas estas alterações (preferíamos dizer mudanças) constatou-se a partilha dos conhecimentos e, igualmente, ressaltaram entre todos os aspectos positivos daqueles que julgamos essenciais: a melhoria generalizada dos conhecimentos e a partilha das conquistas culturais e políticas entre todos os intervenientes do processo.

As transformações demográficas que se revelam ao longo do processo histórico nas relações do trabalho, nas mudanças das estruturas sociais de apoio ao cidadão, adquirem nas UTIS o local de análise e de confrontação. Milhares de voluntários que se encontram neste momento inscritos nas cerca de meio milhar de instituições que integram um amplo e generoso trabalho social tomam, dia a dia, consciência de que o seu trabalho voluntário assume uma importância que ainda não mereceu o reconhecimento oficial e de muitas outras esferas que deveriam colocá-lo no centro das suas observações e acompanhamentos.

Inquéritos e sondagens recentemente publicados, como por exemplo, no livro intitulado Universidades Seniores – uma visão sobre o envelhecimento ativo, de Nuno Rebelo, revela dados actuais da evolução das percepções e avaliações sobre o envelhecimento e ocupação dos “tempos livres”, tais como: o regresso à escola; os impactos e os benefícios para a saúde; e, a valorização social são a expressão de uma análise descomprometida e tecnicamente realizada.

Por último, convirá reconhecer que a participação livre de cada um dos beneficiários tem incidências fortes e determinadas a nível familiar e que essas influências se revelam, em muitos casos, em práticas de intervenção social e política.

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