A cidade ao serviço do senior (História Local para uma cultura integrada de compreensão)

Nº 1736 - Verão 2016
Publicado em Nacional por: Marilia Abel (autor)

Presta-se a cidade de Lisboa plenamente para servir de palco aos acontecimentos que alimentam a História Local. Aliás, a história da cidade é também o somatório de várias histórias locais, já que cada sítio tem o seu próprio devir independente e integrado no todo da cidade. Pela sua diversidade consegue, ao mesmo tempo, juntar cada identidade dando-lhe um espírito uno e plural.

Lisboa, cidade de mil histórias, de mil relevos, de mil etnias, de mil poemas, onde tudo se interlaça e se revela em harmonia de mil canções, que podem ser fados.

Para conhecer as cidades que vivem dentro da grande cidade não é preciso ter uma idade própria. A intergeracionalidade adequa-se perfeitamente à procura dos seus recantos à maneira de Norberto Araújo quando escrevia: “Labiríntica, confusa, aglomerada, policroma; tortuosa, contorcida, cheia de abraços de ruelas e de beijos de beirais, arcos, alfurjas, becos, escadarias e planos, serventias e pátios (…); postigos, quinas, cunhais, muros floridos, brasões, balcões, poiais, (…) arraial perpétuo de roupas estendidas, dois metros foras do alinhamento (…) – por sobre tudo isto um sol de lisboa e um céu de estrelas, e Além o Tejo (…)”.

Claro que o autor se referia a Alfama. No entanto, por quantas ruelas e escadinhas, cunhais e muros floridos é constituído cada sítio lisboeta? E quantas histórias encerram? E que segredos guardam as suas colinas? Que povo navega no seu rio?

A multiplicidade urbanística torna-se um atrativo para jovens e seniores, estes fazendo das fraquezas forças, galgam as curvas sinuosas sem sentir o peso da idade, tal o prazer que permite uma visita de estudo. Também as belas vistas da cidade são um incentivo para estas e outras andanças. Estas práticas, por um lado de lazer e por outro pedagógicas, completam-se com o auxílio dos meios audiovisuais que são um instrumento imprescindível para a História Local. Tudo se torna mais compreensível com o apoio das imagens, embora estas não dispensem a ida ao local.

O local fica enriquecido com os sons, os cheiros, o toque na pedra ou no ferro, as cores avivam-se com a esplendida luz refletida desse enorme espelho de água que é o Tejo com o Mar da Palha. Vemos, ouvimos e lemos a cidade, mas também, a cheiramos e tocamos, fora os outros sentidos que desconhecemos e nos ajudam a tomar consciência de tudo o que nos rodeia. Assim a cidade se constrói na nossa memória, ela mesma também objeto de estudo e compreensão no ensino sénior.

Mas a cidade não é apenas um objecto perceptível é também um local de diferentes leituras e interpretações, segundo a experiência, a cultura ou a sensibilidade do observador que fará as suas associações, análises e/ou conclusões. A cada dia que passa a complexidade e a beleza de Lisboa transformam-se e poderão ser apreciadas em ângulos diferentes ao longo do tempo. A cidade torna-se num livro aberto de uma extraordinária legibilidade que nos surpreende a todo o momento.

A relação da cidade que se vê e a que se deseja ou idealiza pode ser um exercício atractivo para quem frequente a universidade sénior e ser ainda pretexto para discussões e propostas de soluções para a reabilitação, a criação de novos espaços, a adaptação às necessidades das suas gentes, o usufruto, por um lado turístico e, por outro, vivencial dos autóctones. Para cada um a sua cidade.

A nossa experiência em várias universidades seniores mostra que o sénior tem uma particular apetência para a aprendizagem das matérias de que mais gosta. Não procura aprender por aprender. Tem as suas preferências por determinados conteúdos, com certeza aquelas que sempre desejou saber ao longo da vida e que, por diversos motivos, não pôde concretizar e vê agora a oportunidade ansiada. Muito raramente se inscreve numa disciplina apenas para passar o tempo. Quando isso acontece, pode significar, a procura do combate à solidão. Deverá haver uma particular atenção nestes casos quando detetados porque, por vezes, são dramáticos e a necessitar de outro tipo de acompanhamento. Mas, sem dúvida, que a escola sénior pode ter um papel pedagógico e até quase profilático, em especial no caso da História de Lisboa, pois além das aulas teóricas ainda se fazem as práticas.

Outro aspeto muito interessante que a História de Lisboa apresenta é a de ser procurada tanto por naturais da cidade, como por oriundos de fora. Ao contrário do que se possa supor os lisboetas são muito curiosos pela sua cidade. É comum ouvir-se: “Vivi ou trabalhei aqui tantos anos e nunca vi isto ou reparei naquilo.” Pode-se falar em estupefação o que justifica a enorme procura pelo estudo de Lisboa e das muitas lisboas que nela habitam. Os alunos passam a sentir o palpitar da cidade com outra dimensão aproximando-os cada vez mais dela, qual força centrifuga que os atrai para o seu seio como um íman.

É bom recordar que a escola sénior serve os alunos, mas também os professores que, em muitos casos, começam como alunos e acabam a lecionar. Há pelo menos dois tipos de professores: os que continuam a dar as matérias, das quais foram profissionais; e, os amadores de um qualquer conteúdo que alimentaram ao longo dos anos e agora põem ao serviço dos outros. Em ambas as situações há excelentes professores, dedicados e sempre presentes.

Todas estas situações, em interligação umas com as outras, dão um grande contributo para a noção e prática de cidadania. A cidade e os que nela habitam e trabalham merecem. Uma cidade sem o seu povo é pura arqueologia. Um povo bem informado carrega uma melhor consciência do seu espaço e do modo de nele habitar e usufruir. Bem hajam as universidades seniores e seu papel de despertar para novos mundos, novas formas de vida no respeito pelo passado e novos caminhos. Tal modo de vida origina um determinado pensamento, alegre, consciente e solidário.

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