Mário Dionísio Poeta do utopismo possível

Nº 1736 - Verão 2016
Publicado em Cultura por: Domingos Lobo (autor)

A poesia e a prosa do nosso neo-realismo tiveram como propósito iniciático descrever o homem em situação, o homem em conflito com o seu tempo, em luta contra a usura e as injustas condições de vida e de trabalho que em Portugal se viviam nos anos ignaros de 1930/40, entre duas guerras, cujo o horror formara a consciência crítica da geração do realismo social.

“A primeira descoberta do neo-realismo foi o povo”, escreveu Mário Dionísio no prefácio para a 3.ª edição de O Dia Cinzento e Outros Contos.1 O povo que andava arredado da nossa literatura desde Fernão Lopes e que só episódica e lateralmente surgia na nossa ficção, em obras do romantismo, que lhe explorou o lado pícaro e o tipicismo rural, e nas da Geração de 70 que o subalternizou, reduzindo-o à caracterização grosseira de megeras, serviçais, prostitutas, ou ao bom povo mourejando na paisagem, como em A Cidade e as Serras, de Eça, ou nos romances de Júlio Diniz. Mas o povo, “essa imensa massa humana secularmente explorada, objectivamente considerada nas diferentes situações a que a mesma exploração a reduzira e reduzia (e reduz) e em que assentava todo o prestígio, se assim pode dizer-se, social e cultural, da sociedade em que vivíamos – e vivemos”2, só o neo-realismo literário português no-lo conseguiu dar em toda a sua plenitude, consequências e complexidades, enquadrando-o e definindo-o nos referentes históricos, conceptuais e sócio-políticos, na segunda metade dos anos 1930, e seguintes, sob a orientação crítica e ideológica que o marxismo vinha permitir ao discurso literário, feito protagonista dessa ideia central do movimento, e do impulso geracional que atravessava a Europa nesse período, pugnando por uma arte interventiva, revolucionária, comprometida com a realidade do seu tempo e sua transformação.

Em oposição ao movimento da revista Presença, e do individualismo “modernista”, o neo-realismo literário português definia-se, segundo Mário Dionísio, por “uma nova atitude perante os homens e a natureza. Quer dizer: a raiz do neo-realismo é inicialmente de pura natureza ideológica”, não deixando por isso de estar “aberto a todas as técnicas, atento a todas as experiências”, advogando que “a tarefa imediata que se põe ao neo-realismo é a do reenquadramento do homem no seu plano social”.3

A nossa 1.ª geração neo-realista (1939/1950), a mais activa e fecunda, em termos de produção literária e crítica, pretendia igualmente contribuir, através da Literatura, para mudar o mundo e as consciências, através da denúncia de situações extremas, da exploração e pobreza, sobretudo as vividas no mundo rural, dos assalariados agrícolas dos latifúndios do Ribatejo e Alentejo. E essa análise, que se inicia com Gaibéus, de Alves Redol, em 1939, irá posteriormente alargar-se a outros espaços e realidades, ao Douro vinhateiro, com Redol; ao mundo da infância de Soeiro Pereira Gomes e Vergílio Ferreira; ao Algarve da angústia sufocante de Manuel do Nascimento; ao Norte litoral da diáspora de Joaquim Lagoeiro; ao Alentejo dos Largos que eram o centro do mundo, da violência dos poderes sobre os trabalhadores, de Manuel da Fonseca e às grandes urbes cercadas pelo medo e pela miséria dos quotidianos sem lastro de Mário Dionísio e José Gomes Ferreira.

Desde os tempos de Coimbra, e dessa aventura que marcaria para sempre a capacidade metafórica e a inventiva poética do neo-realismo que foi o Novo Cancioneiro, que o crítico Fernando J. B. Martinho designou de “espécie de manifesto, de afirmação programática do neo-realismo”,4 Mário Dionísio viria a revelar-se o seu principal crítico e teorizador5 tanto na vertente literária como pictórica, estendendo a sua influência doutrinária muito para além do que se convencionou ser o período histórico do movimento (1939/1960), vindo a influenciar autores de outras coordenadas estéticas e conceptuais, como Urbano Tavares Rodrigues, Augusto Abelaira ou José Cardoso Pires, este último na fase posterior à publicação de Os Caminheiros e Outros Contos. Ele próprio, já nos anos 60, no prefácio para Barranco de Cegos, obra-prima de Redol, nos fala de outros caminhos possíveis de trilhar pela literatura portuguesa: “Que um criador, como criador, afirme apenas genuíno o rumo que escolheu – eu próprio tenho dito e aqui repito que, depois de Robbe-Grillet, de Claude Simon ou de Nathalie Sarraute, se não pode voltar a escrever como antes deles -, está isso certo, corresponde a uma convicção e autenticidade, sem as quais aquilo que se propõe e tenta impor seria falho da força interior indispensável. E da cegueira fecunda de quem deve reconstruir o mundo de certa maneira e só dessa maneira. Mas o crítico tem outras obrigações”.6 A obrigação de estar atento aos rumores do mundo e às mudanças que no campo das artes, e da Literatura em particular, se operavam, mas considerando que elas se integram na continuidade do neo-realismo.

Mário Dionísio, à revelia de alguns dos seus compagnon de route, entendia que a arte literária estava muito para além da sua circunstancial instrumentalização ao serviço de uma ideologia, e que o mudar o mundo se podia igualmente inscrever no apuro estético, no aprofundar da análise psicológica das personagens, do meio e do ambiente social em que o conflito se estabelecia, integrando no discurso ficcional uma dimensão mais vasta de recursos metonímicos, sintácticos e prosódicos, incorporando no discurso neo-realista a ideia platonizante de que Belo e Bem são coadjuvantes e, portanto, a justiça social que o movimento preconizava, sendo um Bem, integrará, inevitavelmente, o sentido do Belo: o conteúdo não pode, nesta vertente, estar separado da forma.

Já pelos anos 1940, Mário Dionísio se confessava admirador da prosa de alguns escritores brasileiros, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Lins do Rego e dos norte-americanos Dos Passos, de Hemingway, de John Steinbeck, cuja escrita, embora reflectindo uma realidade diversa, tinha linhas de convergência, estilística e conflitual, com o nosso neo-realismo.

Ao contrário do que durante anos foi difundindo pelos seus detractores, o neo-realismo literário português não se constituiu um grupo fechado a outras correntes e influências, sequer um grupo esteticamente harmónico, encerrado nas suas fundas convicções políticas, sociais e estéticas. Sabemos das influências que alguns autores do Novo Cancioneiro recolheram de poetas como Afonso Duarte (Cochofel); Álvaro de Campos (Cochofel e Joaquim Namorado) e dos poetas espanhóis Rafael Alberti, António Machado e, sobretudo, Lorca (Manuel da Fonseca, Namorado, Carlos de Oliveira), não representando essas esparsas influências qualquer ruptura relacional com o projecto cultural e de intervenção social que o neo-realismo propunha e consolidava. É o próprio Mário Dionísio que o afirma sem rodeios: “um coração pulsando por todos os «humilhados e ofendidos» (líamos muito Dostoievsky, apesar do que terá parecido)”.7

Mas não apenas o crítico de lúcida militância crítica nas páginas de O Diabo, Seara Nova, Vértice, justifica esta abordagem breve, a propósito do centenário do seu nascimento, sobre a obra de um dos mais importantes e influentes autores do nosso século XX. Na poesia, desde o livro de estreia Poemas, até O Riso Dissonante; no conto, do canónico O Dia Cinzento, passando por esse soberbo, de lisura, de contenção descritiva, de certeira respiração que é A Morte é para os Outros, um e outro referindo os horizontes fechados do universo feminino, o desejo, a solidão, o desespero e a esperança, o alheamento da cidade perante os dramas do quotidiano, como a ficção portuguesa raramente foi capaz; até esse perturbador, inquietante romance, que vai ao cerne das nossas perplexidades hodiernas, Não há Morte Nem Princípio, passando pela incontornável obra que é A Paleta e o Mundo bastariam, se mais não houvesse, para fazer de Mário Dionísio uma das vozes mais exigentes, rigorosas e sensíveis da Literatura e da Cultura portuguesa de grande parte do século XX, voz cuja inteligência deixa um lastro de prata em tudo o que escreve. Um esteta que possuía, segunda as palavras de José Gomes Ferreira, “um instinto muito fino da cultura e do julgamento crítico”. Autor que sabia, como poucos de nós, que a escrita é uma forma em que permanentemente nos buscamos e, nessa busca, nos entrecruzamos, em frutuoso diálogo dialéctico, com o Outro, a sua circunstância e o peso avassalador da realidade.

Vale a pena regressar à escrita modelar de Mário Dionísio. Descobrir, ou redescobrir, esse lastro inquiridor e partir com ele “sem uma hesitação, de olhos abertos,/com a firmeza única de quem tem a certeza,/com decisão, com raiva, com delírio/e com o encantamento, a feliz perturbação, a embriaguês, /a silenciosa alegria/ duma virgem que parte para o minuto de núpcias”.8


1 Livros de Bolso Europa América, Abril de 1978

2 Mário Dionísio, Prefácio a O Dia Cinzento e Outros Contos, p.9, Publicações Europa-América, 1978

3 Mário Dionísio, citado por Violante F. Magalhães, in Sobressalto e Espanto, p.65, editora Campo da Comunicação, Lisboa, Novembro 2009

4 Fernando J.B. Martinho, Os Poetas do Novo Cancioneiro, p.13, in Poemas Ditos por Maria Barroso, Althum, Lisboa 2010

5 Especulação critico/ideológica que contou igualmente com os contributos de Mário Sacramento, Joaquim Namorado, Óscar Lopes, Álvaro Cunhal e Alexandre Pinheiro Torres, entre outros.

6 Mário Dionísio, Prefácio a Barranco de Cegos, de Alves Redol, 4.ª edição, p.12, Publicações Europa-América, 1978.

7 Mário Dionísio, prefácio a Poemas Completos, (6.ª edição) de Manuel da Fonseca, p.11, Forja, Lisboa 1978

8 Mário Dionísio, Poema do Sacrifício Sublime, in Poemas, p.60 Novo Cancioneiro, 1941 – edição facsimile, Althum, 2010

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