Nota de Leitura: Varela Gomes - história de uma vida com significado de António Louçã

Nº 1735 - Primavera 2016
Publicado em Cultura por: L B (autor)

Ainda que não autorizada - mas também não desconsentida pelo biografado - a biografia de João Varela Gomes, por António Louçã, revela-se obra indispensável ao conhecimento do outro Portugal, o Portugal fora da norma, na medida em que recupera para a História da segunda metade do nosso Século XX a história de uma vida com significado no panorama político de um País sacudido, a partir de fins dos anos 50, pelo estrondo do "furacão Delgado".

Enquadrado política e ideologicamente o biografado, a sua militância revolucionária é considerada no período da resistência antifascista e na Revolução de Abril, fatalmente sobre os pontos-chave da sua vida de cidadão militar e revolucionário: de um lado, a Revolta de Beja (1961/62), do outro, a sua participação, como militar "resgatado", na Revolução de Abril, especialmente no flic-flac militar de 11 de Março de 1975, na 5.ª Divisão e no 25 de Novembro, com o consequente exilio africano.

Rememoram-se, ao correr das páginas, factos do nosso quotidiano que nos importam especialmente e que nos fazem presentes circunstâncias tão decisivas como o papel das Forças Armadas na sobrevivência da ditadura - e aquilo que, por contraste, levou um dos insurrectos de Beja a afirmar que João Varela Gomes, por ter pegado em armas contra o fascismo logo em Janeiro de 1962, deveria ser considerado o primeiro Capitão de Abril.

Esclarecedor ainda, o retrato de uma justiça cumpliciada com a polícia política, avivado no julgamento do "Caso de Beja", no Plenário da Boa Hora (os militares eram submetidos à justiça dos tribunais militares ou à do tribunal especial Plenário Criminal, consoante as conveniências da Pide), como paradigmático da infâmia que representava essa pseudo-justiça, administrada por magistrados serventuários dos interesses da prestimosa - não de modo acrítico, sublinhe-se, mas com o fervor de seus empenhados cúmplices e encobridores. Para vergonha nossa sobrou-nos o exemplo do acusador público, um juíz-ajudante do Procurador-Geral da República, que lamentou não poder pedir para os réus a pena de morte por não estar prevista na lei portuguesa, e ainda a humilhação suplementar de, no post-25 de Abril, este mesmo magistrado ter vindo a ocupar um lugar de juiz-conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, no qual se jubilou em devido tempo, com as correspondentes mordomias democráticas.

O desprezo que sentia por toda essa farsa judiciária levou João Varela Gomes, "como réu, em sua defesa", numa sala de audiências invadida pela polícia política, a, contra ventos e marés, confrontar o tribunal e o regime com um discurso de ruptura, maduramente pensado e memorizado, no qual, assumindo as suas responsabilidades na Revolta de Beja, afirmou, com a determinação e a coragem de sempre, que a sua finalidade era "o derrubamento da governo e da ditadura fascista que há quase quatro dezenas de anos oprimia e explorava o País", referindo-se ainda ao banco dos réus, que ocupava no Tribunal Plenário, como "o refúgio da honra em Portugal". Nessa declaração final não se eximiu o réu a exprimir o voto de "que outros triunfem onde nós fomos vencidos", infalível premonição de um 25 de Abril que ainda ia tardar dez anos.

No processo revolucionário que se seguiu ao golpe militar de 25 de Abril de 1974, vencidas as indecisões iniciais pela determinação do Povo nas ruas, em aliança com o MFA, João Varela Gomes viria a retomar o seu lugar nas Forças Armadas, com o posto de Coronel, reconstituída a carreira militar de que fora expulso na sequência dos acontecimentos de Beja, com a entrega ao braço secular da Pide e ao Tribunal Plenário às suas ordens.

No entanto, inevitavelmente, o percurso de João Varela Gomes nesse processo revolucionário havia de ser marcado por um desconcerto rítmico com os seus camaradas da Revolução de 74 que o biógrafo não deixou de relevar: "A precedência de João Varela Gomes relativamente aos capitães de Abril não é só a do militar que se ergueu mais cedo, que correu mais riscos, que fez mais sacrifícios, ou que tirou da sua experiência conclusões mais radicais. A sua diferença não é quantitativa, de ser mais do que os capitães de Abril em vários parâmetros e sim qualitativa, de ser outro tipo de personagem".

Daí que talvez não seja errado dizer-se que a Revolução de Abril, tal como João Varela Gomes a viveu, não foi aquela com que sonhara, nem aquele foi o modo como nela gostaria de ter participado. Foi a Revolução possível, na qual entrou com entusiasmo condizente com a visão crítica da realidade revolucionária que a sua crónica impaciência enfrentava, afinal aquela que possibilitou a independência das Colónias e uma democratização contada, mas muito aquém da revolução libertária (no sentido da libertação dos humilhados e ofendidos) para que todo o seu passado revolucionário apontava.

De todo o empenho que pôs na sua intervenção ficou-lhe o travo desagradável do erro de, na terminologia militar, não ter explorado consequentemente o sucesso no 11 de Março: "Eu, por exemplo, considero que após o 11 de Março cometi um erro básico. A 5.ª Divisão ganhou o 11 de Março e não soube explorá-lo. Impusemos a realização da Assembleia do MFA, mas cometemos o erro de não impor que se acabasse ali mesmo com a hipótese das eleições. Costa Gomes e Vasco Gonçalves intervieram a dizer que elas constituíam um compromisso de honra do MFA". Sempre a eterna questão das condições objectivas e subjectivas para, em qualquer situação, se fazer o que se quer, ou ficar-se pelo que se pode.

E no 11 de Março, com as nacionalizações e outros feitos que possibilitaram um avanço popular autenticamente revolucionário, ficou-se a meio do caminho, acabando-se por criar, sobretudo na vertente militar, mecanismos que viriam a servir de freio e a liquidar esse avanço. Daí em diante, a ala militar com a qual João Varela Gomes mais se identificava, designadamente na 5.ª Divisão, foi remando contra a maré, num confronto em que outras forças internas e externas levariam a melhor e que se saldaria pela derrota da utopia que o nome do biografado subscrevia.

Contas feitas, na obra agora publicada pelas Edições Parsifal biografado e biógrafo merecem-se. Saúdem-se, pois, pela proeza.

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