Tempos outros

Nº 1734 - Inverno 2015
Publicado em Tribuna Pública por: Helio Viegas (autor)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Camões

 

No jornal Público de 20 de Novembro de 2015, João Semedo, do Bloco de Esquerda, acerca do entendimento à esquerda verificado após as eleições de 4 de Outubro, escrevia: "E, certamente, não deixará de ter consequências no conjunto da esquerda e em cada um dos seus partidos, não apenas táticas, mas, seguramente, também programáticas e estratégicas".

Sem mudarem os seus princípios, os seus programas, os seus objectivos, sem terem de alterar os seus Estatutos, os partidos de esquerda entenderam-se. O "impossível" aconteceu!

Em França, os comunistas juntam-se ao partido socialista-democrático contra a burguesia, conservadora e radical, sem por isso abdicarem do direito de assumir uma atitude crítica perante as frases e as ilusões provenientes do legado revolucionário.

In Manifesto do Partido Comunista

K. Marx e F. Engel

 

O que mudou então?

Parece evidente que a mudança operada, subscrevendo-se quase na totalidade a afirmação de João Semedo, ocorreu ao nível da táctica e da estratégia.

Mas em prol de quê e sacrificando o quê?

Um objectivo nada desprezível, derrotar a direita, afastá-la do poder, foi alcançado. Mas, derrotar a direita não implica automaticamente derrotar a política, as políticas, de direita, dirão. Lá se irá!

E é aqui que parece encontrar-se o cerne da questão.

Agora, porque é possível, os votos e os deputados permitem-no, derrota-se a direita. A política, todas as políticas, de direita, isso será outra etapa para a qual é preciso criar as necessárias condições.

E, ocorrendo à memória a velha questão dos fins e dos meios, dir-se-á que tudo estará bem desde que os meios respeitem regras fundamentais que o progresso das sociedades democráticas consagrou, que se encontram inscritas na Constituição e que legitimam e confirmam os nobres ideais da Revolução de Abril de 1974.

O processo, ora ocorrido, verdadeiramente histórico, consubstancia ainda uma, não menos importante, vitória sobre o medo de mudar!

É que mudar, sendo embora uma constante no processo de desenvolvimento do homem e das sociedades por ele construídas, assim como o novo, o simples renovar, cria sempre algumas, naturais e compreensíveis, resistências. Para quê mudar se eu/nós estamos bem assim? Para quê mudar se tenho/temos razão, se a verdade está comigo/connosco?

É que a mudança, qualquer mudança, trás consigo algo de desconhecido, algo que não se domina totalmente.

Por isso mudar, implicando uma séria, responsável e consciente, consideração e reconsideração dos factores que compõem uma determinada situação, a realidade, implica consequentemente uma completa disponibilidade para o reexame do estabelecido como correcto, certo, verdadeiro.

Mudar, agir, no tempo certo, no momento certo. A angústia, a grande angústia.

Como determinar esse momento? Como ter a certeza?

Não sendo possível, com os meios hoje disponíveis para tal avaliação, a experiência nomeadamente, obter a resposta desejada, poderá pensar-se que, apesar disso, não será, não poderá ser, por isso, que não se avance. É que só com grande disponibilidade, grande abertura face à realidade, à consideração do factor verdade na sua imensa complexidade se pode abrir o caminho e chegar ao que, com luta e perseverança, se ambiciona legitimamente construir.

É que a luta, meio para obter as desejadas mudanças, também ela, no seu conteúdo e na sua forma, terá, consequente e permanentemente, de ser objecto de constante reavaliação e reformulação e para tal é preciso mudar comportamentos, atitudes e práticas, não dar tréguas a atitudes de natureza arrogante, a manifestações de auto-suficiência características daqueles que se acham senhores da verdade, de todas as verdades, das verdadeiras soluções, das verdadeiras vias, dos caminhos certos, únicos!

É necessário, é fundamental cultivar a humildade, característica dos homens sábios e matéria determinante para a consolidação das conquistas conseguidas. Optando por esta via chegar-se-á, seguramente, a bom porto. De outra forma o mais certo é perdermo-nos, destruirmo-nos. É a história que o mostra.

Foi dada também uma oportunidade à esperança que, apesar dos negros tempos que atravessámos, e que ainda não se dissiparam, nunca deixou de ser evocada. Esperança que também é uma arma que funciona quando se acredita no que se defende.

Está-se perante um momento verdadeiramente histórico da vitória do discernimento, da abertura à mudança, sobre o enquistamento de posições que, embora legítimas, entravam o que mais se deseja: o avanço da história no sentido da justiça, da tolerância, do progresso colectivo, enfim da realização do bem comum, da "vida boa" como já Aristóteles defendia porque, afinal, "somos feitos assim da matéria dos sonhos", disse Shakespeare.

E, em jeito de remate esperançoso:

"Desenvolver o potencial humano e promover a igualdade"; "criação de empreendedorismo em prol do crescimento, da paz e da prosperidade"; "eliminar a pobreza e a fome, permitir a todos o acesso aos cuidados básicos de saúde e cultivar relações pacíficas e a compreensão entre os povos".

Zuckerberg, criador do Facebook, em carta aberta dirigida à filha no fim de 2015.

Tempos outros? Sim, outros e novos virão!

Assim não deixemos cair os braços!

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