Imediata campanha fascista

Nº 1732 - Verão 2015
Publicado em MUD por: Redaccao Seara Nova (autor)

O Governo que, depois da II Guerra Mundial, se sentiu na necessidade de tentar demonstrar, perante o mundo, uma certa abertura de que é exemplo a autorização para a constituição do Movimento de Unidade Democrática, cedo, muito cedo, continuou a revelar os seus instintos fascistas. Isso levou a que, ainda em Outubro de 1945, a Comissão Central, fizesse distribuir pelo País, num comunicado onde se dava conta das imediatas acções e ameaças desenvolvidas contra aquele movimento democrático. Para melhor compreendermos as dificuldades desde logo criadas aos seus organizadores, julgamos oportuno publicar na íntegra tal documento.

A Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática, em nome dos milhares de democratas que, por todo o País, veem dando a sua adesão a este movimento, conscientes das responsabilidades que lhe cabem, comunica o seguinte:

1.º - Este Movimento iniciou-se e tem-se desenvolvida e organizado dentro da mais perfeita legalidade, que o próprio Governo se viu forçado a reconhecer, tendo até esta Comissão Central sido recebida em audiência poe S. Exª o Sr. Presidente da República, de que ouviu louvores sobre a forma como o Movimento tem sido conduzido;

2.º - Dentro desta perfeita legalidade, com a assistência das autoridades competentes que em nenhum lugar tiveram de intervir até só o fizeram para louvar a ordem, disciplina e elevação verificadas, efectuou-se a reunião do Centro Almirante Reis, em Lisboa, e efectuaram-se, depois, inúmeras reuniões em todos os distritos, alguns concelhos e freguesias do país;

3.º - Ainda dentro desta perfeita legalidade se iniciou, desenvolveu e continua, a recolha de adesões espontâneas e conscientes de milhares de democratas que, confiados nas palavras do Sr. Presidente do Conselho, em 7 de Outubro, manifestaram o seu desejo de que as eleições legislativas viessem a realizar-se com as necessárias garantias de genuinidade, para que o Povo Português escolhesse livremente os seus representantes;

4.º - Apesar destes factos, iniciou-se contra este Movimento uma campanha de boatos e intimidação, com o propósito evidente de impedir que ele atingisse as grandiosas proporções que, não obstante, já hoje alcançou.

a) Fez-se desenvolver uma campanha de boatos no sentido de fazer correr que sobre os funcionários aderentes a este Movimento iriam ser exercidas represálias;

b) foram chamados à P.V.D.E. alguns comerciantes que tinham listas de adesões nos seus estabelecimentos, para serem avisados de que tal lhes não era permitido;

c) em algumas repartições públicas, foram chamados funcionários para que declarassem se era ou não verdade terem dado a sua adesão a este Movimento;

d) foi publicada a nota oficiosa do Ministro da Guerra e, finalmente; e) foi publicada a nota oficiosa do Ministério do Interior. Em que claramente se denuncia o propósito de se fazer uma devassa não só a esta organização, como ainda às pessoas que a ela deram o seu aplauso.

Jornal do regime fascista na época com campanhas contra o MUD e sua unidade democrática

Jornal do regime fascista na época com campanhas contra o MUD e sua unidade democrática

Em presença destes factos, aos quais se devem acrescentar as ameaças de "depuração" proferidas pelo director do Diário da Manhã na sessão de propaganda da Liga 28 de Maio, esta Comissão Central, que vem desde a primeira hora agindo com a mais perfeita honestidade e a mais completa serenidade, e que já previra esta reacção, perante a "nota oficiosa" do Ministério do Interior de hoje sentiu estar na eminência de um inquérito conduzido ad odium. E, se por um lado, ela própria tinha tomado a iniciativa de oferecer à fiscalização publica os documentos em que baseou a declaração do número de aderentes ao Movimento em Lisboa, por outro lado tem o dever de defender intransigentemente não só a honorabilidade pessoal dos seus membros, como, e principalmente, a honra e a pureza do próprio Movimento, impedindo que as suas nobres intenções e a dos seus aderentes sejam malsinadas por processos políticos unanimemente repudiados.

Neste espírito, a Comissão Central, a fim de assegurar a condução honesta e imparcial do inquérito que ela própria deseja, constituiu seu advogado o Sr. Dr. Mário de Castro, em cujo escritório depositou os documentos em que fundamentou a declaração de números de adesões produzida, e a quem deu instruções para a defender, ou acusar a quem seja necessário, conforme no caso couber.

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