A Seara Nova e o MUD

Nº 1732 - Verão 2015
Publicado em MUD por: Redaccao Seara Nova (autor)

A Seara Nova que era comprovadamente um polo congregador de vontades políticas expressas por personalidades de relevo dos meios intelectuais e políticos da sociedade portuguesa de vários quadrantes ideológicos que se manifestavam contra o fascismo, abriu, como não podia deixar de ser, as suas páginas para esclarecer os leitores sobre o MUD, desde o inicio da sua actividade até ao momento, e não foi preciso decorrer muito tempo, em que a censura passou a utilizar o célebre lápis azul com mais rigor e frequência.

Assim, poucos dias depois da constituição do Movimento de Unidade Democrática (MUD), ocorrida em 10 de Outubro de 1945, no Centro Escolar Republicano Almirante Reis, em Lisboa, a revista publicou uma separata inteiramente preenchida, nas suas dez páginas, com informações sobre aquela importante organização política unitária a que deu o título genérico "O Momento Político - O Problemas das Eleições", onde nomeadamente se afirma: "Ao publicar-se a nova lei eleitoral, um grupo de cidadãos que, desde longa data, vem mantendo uma atitude ideológica contrária à política vigente, resolveu procurar, pelos meios legais, definir a sua posição doutrinária em face dos acontecimentos, diligenciando criar um movimento de opinião pública, no sentido de dar ao acto eleitoral o mais amplo significado democrático".

"Nesta conformidade, no dia 26 de Setembro do corrente ano, resolveu o referido grupo requerer ao Governo Civil do Distrito de Lisboa autorização para celebrar uma reunião em que fossem debatidos os problemas suscitados pela publicação da referida lei. Para tanto, fizeram entrega no Governo Civil de Lisboa, a 29 do mesmo mês, do requerimento seguinte:

Os cidadãos abaixo assinados, portugueses de origem no pleno exercício dos direitos civis e políticos, pretendem formar e levar a efeito uma reunião com a seguinte Ordem do Dia:

  1. Explanar as normas vigentes sobre eleições legislativas, em harmonia com o decreto nº 84938, de 22 de Setembro de 1945, tomado na sua generalidade.

  2. Deliberar se os cidadãos presentes devem tomar a iniciativa de sugerir, à generalidade dos cidadãos eleitores, a necessidade do seu concurso às primeiras eleições legislativas que vierem a realizar-se, no sentido de obterem representação na futura Assembleia Nacional para as tendências políticas e opiniões que não prestam o seu acordo à orientação política e administrativa do governo.

  3. Determinar os meios úteis e legais para ser dada execução às deliberações que tenham sido tomadas nos termos do número 2.º.

  4. Determinar os meios que devem ser adoptados para que os cidadãos, por qualquer título mais aptos, possam substituir os cidadãos presentes na execução das deliberações.

A reunião deverá ter lugar no Centro Escolar Republicano Almirante Reis, rua do Bemformoso, n.º 51-1.º, desta capital, no próximo dia 8 de Outubro de 1945 pelas 21,30 h, e a ela terão acesso, além das pessoas que se mostrem convidadas pelos promotores signatários, os jornalistas e quem mais, no decurso dela, seja autorizado pelo presidente.

Ao abrigo do disposto no n.º 14 do art.º 8.º da Constituição Política da República Portuguesa, respectivo parágrafo único do decreto nº 22468, de 11 de Abril de 1933, requerem a V.Exª, que se digne conceder-lhes autorização para a reunião pretendida.

Pedem deferimento"

Este requerimento, deferido pelo Governo Civil, foi assinado pelos advogados José Magalhães Godinho, Teófilo Carvalho dos Santos, Armando Adão e Silva, Gustavo Soromenho e Mário de Lima Alves, Manuel Catarino Duarte, proprietário, Manuel Mendes, escritor, Guilherme Canas Pereira, comerciante, Afonso Costa (filho) Doutor em Direito, pelos professores Luís Câmara Reys, e Alberto Candeias,

Na data fixada, realizou-se, efectivamente, a reunião autorizada, que constituiu o primeiro acto político de carácter oposicionista à política governamental das últimas quatro lustros. Presidiu à sessão o antigo Professor da Faculdade de Direito de Lisboa, antigo ministro da Justiça e Bastonário da Ordem dos Advogados, Barbosa de Magalhães, secretariado pelos Drs. Afonso Costa (filho) e Teófilo Carvalho dos Santos, e a ela assistiram representantes do Governo Civil e da Polícia de Segurança Pública. Foram convidados jornalistas de toda a Imprensa da Capital, bem como os adidos de Imprensa às Delegações e Embaixadas junto do nosso governo. Destes, compareceram o de França e o dos Estados Unidos. Estiveram também presentes os correspondentes da United-Press, Associated-Press, Reuter e France-Press.

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