António Galhordas

Nº 1732 - Verão 2015
Publicado em Memória por: Redaccao Seara Nova (autor)

António Galhordas deixou-nos. Era uma personalidade de enorme dimensão humana que se comportava com profunda serenidade perante familiares, amigos, colegas, trabalhadores hospitalares, ou companheiros das lides políticas, sem que alguma vez revelasse qualquer ponta de arrogância para fazer valer os seus pontos de vista.

Discreto, de grande simplicidade no trato com os outros, era avesso a homenagens, que bem as merecia. Quem com ele convivia deparava com um homem que conciliava a sua actividade científica, como cirurgião comprovadamente competente, com uma perspicaz intervenção cívica permanentemente atento aos fenómenos sociais, culturais e políticos que tanto afectaram a sociedade portuguesa durante a ditadura fascista que sempre combateu com firmeza e com coragem.

Espírito inquieto, mas simultaneamente bom organizador, influenciou, com outros colegas de profissão, como aconteceu com outra personalidade científica de relevo, e seu grande amigo, o Professor Pinto Correia, a persistente luta pela implementação em Portugal das carreiras médicas, o que constituiu um marco indelével para o desenvolvimento de um sector de primordial importância para o País. Deu novo exemplo dessa mesma determinação quando, mais tarde, foi impulsionador e um dos fundadores do Hospital do SAM's, de que foi seu primeiro director clínico.

Nos círculos onde se movia António Galhordas era reconhecido por ter uma enorme capacidade para intervir politicamente. Com tenacidade, sem nunca pretender impor as suas opiniões aos outros, impunha-se como um verdadeiro líder de opinião aliado a uma acutilante e certeira análise política. A sua sólida e serena argumentação era convincente.

Sempre envolvido nas lutas populares pela implantação das liberdades cívicas, empenhou-se nas mais diversas campanhas eleitorais no seio do Movimento Democrático Português e das CDE's, tendo sido dirigente do MDP/CDE, que abandonaria na sequência da crise instalada naquele Partido, há cerca de vinte e oito anos. Desde então, foi um companheiro e amigo da Associação Intervenção Democrática-ID. Há poucos anos, fiel aos seus princípios, filiou-se no Partido Comunista Português.

Com o advento da Democracia foi chamado a exercer as funções de secretário de Estado da Saúde. Como membro do governo, logo avançou com medidas de largo alcance social no sentido de ser facilitado à generalidade da população o acesso gratuito aos cuidados de saúde, lançando as bases do que viria, algum tempo depois, a ser o Serviço Nacional de Saúde, hoje a correr sérios perigos devido à política neoliberal do governo.

Exerceu o cargo de presidente da Assembleia Municipal de Portel, sua terra natal e, como deputado, ficou célebre a sua participação nos amplos debates ocorridos na Assembleia da República, em defesa da lei do aborto, também hoje na mira do PSD e do CDS que querem desrespeitar um inalienável direito humano.

Nas páginas da Seara Nova deixou expressa a sua opinião sobre os problemas relacionados com a Saúde, através de um artigo, publicado em 1970, de que transcrevemos parte da sua significativa e oportuna reflexão:

"É necessário romper barreiras: já não chega «a política do remendo», para se resolver a grave situação que se atingiu, é preciso acabar com a instalação definitiva das soluções provisórias dirigidas ao imediato, levadas a efeito por administrações de horizontes ou possibilidades limitadas".

"Não é concebível tratar doentes nas condições em que hoje se tratam.

Para os médicos, o problema atinge aspectos éticos perturbantes.

Não pode persistir, por mais tempo, a centralização monolítica da organização dos esquemas de saúde".

"Amplo caminho tem de ser aberto à participação efectiva dos quadros realizadores e de representantes dos beneficiários da saúde nos órgãos colegiais de administração dos organismos. É a fórmula-chave da vida democrática e das sociedades evoluídas. Há que proceder a uma total revisão dos esquemas administrativos dos hospitais, dos organismos de previdência, de assistência e de saúde pública. Há que democratizar todas estas instituições, abrir caminho às iniciativas e acabar com o servilismo ao poder central".

"Simultaneamente, a realização de saúde equivale nos nossos dias à execução de uma medida eficiente que ponha à disposição do doente, no máximo possível, os recursos científicos das possibilidades actuais, «fornecendo a todos os cidadãos em qualquer momento os cuidados médicos de que precisam»".

"As formas do novo humanismo médico só se atingem todavia, pelas vias de uma tecnicização válida das estruturas, acabando de vez com improvisos e interesses espúrios que não têm em conta os valores autênticos dos doentes do País".

Palavras bem actuais, António Galhordas!...

Ver todos os textos de REDACCAO SEARA NOVA