Entrevista a Seraphim Seferiadis “A solução passa exclusivamente pelo controlo da economia”

Nº 1731 - Primavera 2015
Publicado em Grécia por: Ana Goulart (autor)

O que vale é o carro alugado ser pequeno e surgir um lugar onde, estacionado, se encaixa. Apressadamente galgo ruas e degraus. Já percebi que, só por força maior, os gregos falham as horas marcadas e passam quase dez minutos da três da tarde, hora combinada com Seraphim Seferiadis, professor de Ciência Política, na Universidade Panteion, Atenas, uma das três mais antigas faculdades de ciências políticas da Europa, fundada em 1927. A pressa impede-me de observar o que me rodeia, embora saiba que o encontro vai acontecer num café, no bairro de Atenas frequentado e vivido por trabalhadores e intelectuais, numa simbiose perfeita.

Orestis, o repórter de imagem, também nos espera para mais um serviço. Quase a chegar ao local marcado, o professor telefona a dizer que também ele está um pouco atrasado. Aligeiro o passo que ainda não se conseguiu sincronizar com a entrevista agendada. Perama, Andreas e Antigoni , que deixei há menos de uma hora, continuam a ocupar todo o meu espírito e pensamento. Felizmente, a entrevista foi preparada com antecedência e ainda em Portugal. Até está escrita e em inglês, para obviar alguma dificuldade.

Puxamos a porta do café (por razões de segurança, na Grécia, as portas dos espaços públicos abrem para fora), procuramos Orestis, que nos acena e sentamo-nos. Trocamos cumprimentos e sorrisos; Orestis indica uma mesa próxima com cadeiras (aquela a que nos encontramos é alta e servida por bancos altos), mais fácil para o seu trabalho; mudamos de lugar; indago pela casa-de-banho, numa urgência de horas, que só agora se manifestou.

Na casa-de-banho comum, isto é, utilizada por homens e mulheres, sem letreiros a enviar uns e outras para sanitas respectivas, aproveito para me recompor de várias noites de poucas horas de sono e do "murro no estômago" levado em Perama, ao mesmo tempo que me obrigo a acertar passo com o serviço que me espera (sabia que iria estar na Grécia na semana da Páscoa ortodoxa, sabia que não havia espaço para diversão, sabia que, com dois dias gastos em viagens de ida e volta, o ritmo do trabalho não permitia nem se coadunava com queixas).

Na sala maior do café, sento-me na cadeira, junto dos meus camaradas de profissão. O professor ainda não chegou. "Pedimos?". "Sim". Enquanto espero o "cappuccino" (na Grécia há muitas maneiras de beber café. Sem hora de almoço, os trabalhadores vão bebendo café - a maior parte das vezes expresso dissolvido em gelo - ao longo da jornada de trabalho. Café e água. Esta é entendida como um direito universal, pelo que quando, em qualquer café, o empregado vem saber o que o cliente quer, traz sempre o copo de água de cada um), lanço um olhar em redor. A sala é ampla e decorada com fotografias de cenas de filmes neorrealistas. Sobre todas, a preto e branco, foi colada uma rosa... cor-sua. Ao fundo de meia dúzia de degraus fica a livraria, onde várias pessoas folheiam livros, procuram leituras. É nela que fica o multibanco em que se pode pagar a despesa.

Não sei se o cappuccino, acompanhado de mais um cigarro, ajuda, mas de repente sinto que estou no meu café de sempre. O ambiente é tão descontraído que quando o professor Seraphim Seferiadis chega parece que acabou de chegar um amigo que não via há apenas dois ou três anos.

Andreas Vagias apresenta-nos e sugere que a entrevista se faça em inglês, sem necessidade de tradução. Desculpo-me pelo meu "mau inglês" e o professor Seferiadis pela seu, influenciado , diz, pelo regresso há dois dias dos EUA.

Depois foi uma conversa. Um "papo bom", como dizem os brasileiros. Aqui transformado em pergunta-resposta apenas para ajudar a leitura.

Pela primeira vez, após a Segunda Guerra Mundial, a Grécia tem um governo descrito como de esquerda. O governo do Syriza e ANEL é um governo de esquerda?

O modo como coloca a questão remete para uma resposta difícil. À partida, sim. Porquê? Porque o ANEL, tem um papel secundário no actual governo e porque o programa do Syriza é, de facto, um programa de esquerda. As políticas dos últimos cinco anos têm sido tão dramáticas para o povo grego que os trabalhadores, os pobres, os que sofrem com estas políticas que as medidas contempladas no programa do actual governo só poderiam ter o seu apoio se fossem de esquerda. Aliás, o Syriza conquistou o poder dizendo que ía pôr fim a todas estas medidas que têm conduzido o povo grego à sua actual dramática situação.. Para além disso, o Syriza emerge como movimento não apenas para combater a austeridade, mas para fazer outra política, até para alterar esta forma de fazer democracia. Por isso, posso dizer que sim, que é um governo de esquerda com o grande desafio de cumprir as suas promessas, o que é difícil e requer acções imediatas.

Havendo outras partidos de esquerda, o que levou a maioria dos eleitores gregos a darem o seu voto de confiança ao Syriza?

Outros partidos democráticos que combatem o neoliberalismo, combatem igualmente "esta" União Europeia, as instituições europeias, o que é um enorme desafio (penso que em Portugal acontece o mesmo). Não apenas na Grécia, mas em todos os outros países. A crise é global e as diferenças de um país para outro são ténues, o que pode diferir são as respostas sociais, de cada sociedade, porém, frequentemente essas mesmas respostas são semelhantes em todo o mundo. Regressei há dois dias de Nova Iorque e embora nos estados Unidos da América as respostas sociais sejam diferentes das que vimos na Europa, as pessoas acreditam que o que acontecer na Grécia, na Europa, pode acontecer no seu país. O Syriza esteva atento aos movimentos sociais. Em 2013, o Syriza já representava esses movimentos e deixava a mensagem de que quando estivesse no poder resolveria os problemas. No entretanto, houve imensas lutas, imensas manifestações (30 greves gerais, desde 2011), houve uma reacção massiva - que não se vê nos dias de hoje - da sociedade. O Syriza esteve em todas, participando, denunciando e criando a convicção de que era necessário um governo de esquerda. Em 2013, a votação que o Syriza obteve já expressava a vontade das pessoas de que se operassem mudanças políticas. E fazia perceber aos eleitores que a social-democracia, talvez com excepção para os eleitores de França se tinha evaporado.

Mas porque é que foi o Syriza a capitalizar o voto dos "descontentes" com a social-democracia?

Pela inacção dos outros partidos de esquerda. Porque nenhum veio dizer ou oferecer uma alternativa imediata e as pessoas precisavam disso. O Syriza foi o único que o fez.

Quem olha para a história recente da Grécia não deixa de se surpreender. Ionnis Metaxas, primeiro-ministro grego entre 1936 e 1941, foi, simultaneamente, um ditador fascista e, pelo menos na literatura, o primeiro resistente ao fascismo italiano e ao fascismo alemão. A história recente grega também está reflectida nos resultados eleitorais de Janeiro de 2015?

Em 2004, o Syriza conseguiu cerca de 4% dos votos. Foi um extraordinário crescimento até 2015, que reflecte a evaporação da social-democracia e não só (ver caixa), diria mesmo o seu colapso.

Impulsionado pelas políticas de austeridade?

Claro. Creio até que é o mesmo que sucede em Portugal. De um lado, o colapso do Estado social, do outro os atentados à democracia, com os ataques ao direitos do trabalho, aos direitos e liberdades cívicas, a corrupção, a alternância política, as decisões e leis decididas e aprovadas por uma maioria parlamentar que perdeu o apoio dos eleitores, um governo e um presidente da República que actuam e decidem sem respeito pelas regras da democracia. Um governo e um presidente que actuam com recurso a um discurso que promovia o medo: "se sairmos da Euro Zona será um desastre. Perderemos o nosso dinheiro, ficaremos pior do que já estamos". Este discurso funcionou nas eleições de 2012, mas não em 2015.

Porquê?

Porque as pessoas não estão nada interessadas na Euro Zona. Já perceberem que estar na Euro Zona não satisfaz as suas necessidades imediatas. Não é a possibilidade de comprar um smartphone ou um tablet que as preocupa, porque o seu rendimento é tão baixo que mesmo que estes sejam muito baratos as pessoas não os conseguem comprar! Em Nova Iorque tive imensa dificuldade em explicar que um jantar de 30 euros é caro para mim. Sou professor universitário e não tenho 30 euros no bolso! De que me serve comprar barato coisas importadas quando não tenho dinheiro para comprar coisas essenciais. É assim que as pessoas penam, na Grécia, nestes dias. Porque as políticas de austeridade lhes dizem isto: "ficamos sem emprego, sem acesso aos serviços de saúde e quando ficamos doentes não nos podemos tratar. As pessoas não acreditam já que seja "perigoso" estar fora da Zona Euro. Metade da população "está-se nas tintas" [recurso a expressão portuguesa, para tradução livre de "most the population it is damn for...] para isso. O que as preocupa é o acesso aos cuidados de saúde, à segurança social.

E a outra metade?

Procura segurar os seus rendimentos. Não falamos dos ricos, porque estes, naturalmente, defendem a globalização económica. Falamos de pessoas que acreditam no que lhes dizem e têm medo das consequências da saída da Zona Euro. Este medo é resultado da propaganda, incluindo a do Syriza, da Zona Euro.

Incluindo a do Syriza?

Sim, incluindo a do Syriza, que mantém as promessas feitas na campanha eleitoral, no programa do seu governo, permanecendo na Euro Zona, afirmando e reafirmando que o seu programa e as condicionantes impostas pelo Eurogrupo não são incompatíveis.

E na sua opinião. São ou não?

São incompatíveis. E não a longo prazo. A curto prazo.

À Grécia, o ocidente (para usar uma expressão comum) deve a invenção do conceito de democracia. O que pensa da democracia desta União Europeia?

Voltando à sua questão e a propósito da resistência grega ao fascismo. Metade do povo grego não se conforma com o que lhe dizem. Metade do povo grego sabe que as instituições europeias não são instituições democráticas, reconhece a perversidade da democracia de instituições que ninguém elegeu. Conhece o cancro que estas instituições são, incluindo o Eurogrupo. Sabe que os que constroem esta Europa são ideólogos do neoliberalismo. Nas manifestações de solidariedade que o governo do Syriza recebeu de quase todos os países da União Europeia, a ideia de que enquanto permanecermos na Zona Euro não temos saída, foi muito clara. És uma portuguesa que nos vem visitar e isso é muito bom. O povo grego não é nacionalista [as bandeiras gregas hasteadas não só nos edifícios públicos como em casas particulares motivam uma discussão actual entre o povo grego; uns defendem que é uma demonstração de patriotismo e apoio ao actual governo, outros olham-nas como manifestações de nacionalismo], e dizer que sair da Zona Euro é sinónimo de nacionalismo é falso. É dizer que precisamos de um sistema económico diferente. É dizer que precisamos de controlo sobre a nossa economia.

E isso é possível, no âmbito da actual construção europeia?

É preciso solidariedade internacional. Esta crise do capitalismo não começou na Grécia. Ou em Portugal. O colapso do Lehman Brothers, em 2007, foi aproveitado para injectar dinheiro nos bancos, para evitar a sua falência. Em todo o mundo. Os povos da União Europeia, e do todo o mundo, foram obrigados a salvar a banca privada. Os governos, a União Europeia, podem usar muitas palavras, mas foi isto que aconteceu. E para evitar que volte a acontecer é necessário que os países, todos e não apenas os da União Europeia, assumam o controlo dos sectores estratégicos a sua economia.

No actual quadro da União Europeia isso não é possível. O Syriza, enquanto partido do governo de um Estado-membro, pode promover alguma alteração nesse quadro?

O Syriza ainda não chegou a esse estádio. E esse é o problema. O que o Syriza diz junto da União Euopeia é razoável, só que esta não quer saber. É como eu roubar-te a carteira e tu dizeres: "essa carteira é minha. Não a podes roubar". E eu responder: "Eu sei que é a tua carteira, foi por isso que a roubei". O que se passa na Grécia não é muito diferente do que se passa em Portugal, ou na Irlanda, ou em Espanha, ou na Itália, ou em França. A TINA [sigla de "there is no alternative" - não há alternativa] transformou-se num dogma, mas, apesar deste dogma, o Syriza continua a acreditar que é possível uma solução, no seio do Eurogruo. No final das negociações, talvez consiga umas migalhas, porque a União Europeia tem medo de toda e qualquer instabilidade. Se aceitar essa migalhas, o Syrza será "destruído", porque as pessoas dirão: "após todas estas lutas, após toda esta mobilização, após toda esta organização, é tudo o que temos!?".

Se assim acontecer, para onde se desloca a esperança do povo grego? O que se pode esperar do povo grego?

Desmoralização. E provavelmente a esperança desloca-se para a direita. A história está cheia de exemplos semelhantes. O fascismo sempre teve a sua génese em crise profundas do sistema capitalista. Se as pessoas não vêem alternativas, viram-se para o populismo, o fascismo. As novas gerações não viveram o fascismo como as antigas gerações e é fácil este aproveitar-se das suas legítimas aspirações, dos seus sonhos. Isto explica o porquê de num país como a Grécia, subjugado durante anos ao fascismo (interno e externo), o partido fascista ter conseguido tantos votos. O perigo está aí.

O professor Seferiadis consulta o relógio. O ponteiro dos minutos afastou-se 10 passos do das horas. Como é que o tempo, contado em ponteiros de relógio de pulso, passou tão depressa? O professor universitário, assumido marxista-leninista, tem de abandonar a conversa. Pede-me que nos mantenhamos em contacto. Dou-lhe o meu endereço electrónico e prometo que a revista lhe será enviada.

Apetece-me permanecer no "meu" café de paredes decoradas com neorrealismo. E ficava. Não fosse a fúria audível do meu estômago, reclamando por algo sólido. Concedo-lhe atenção depois de uma primeira refeição feita às sete e pouco da manhã, a que apenas se juntaram uns pedacitos de queijo frito e pão, perto do meio-dia.

Já em modo passeio, regresso com Andreas e Orestis, à subida de ruas e escadas. "Sabes? Se no tempo da ditadura e da ocupação fascista, um taxista aqui deixasse um passageiro que o acusasse de fascista, esse taxista não saía daqui com vida", informa-me Andreas, camarada jornalista sem o qual nada teria conseguido, na viagem de trabalho à Grécia. Entre os jacarandás e os jovens que passeiam câes, a informação é recebida com uma satisfação que não escondo: "sinto-me em casa".

É neste bairro que me despeço de Andreas e Orestis. Comemos (várias refeições numa só), numa antiga escola primária tornada restaurante. E conversamos - à moda dos gregos que adoram conversar - , entre comida tradicional grega, vinho tinto grego, cigarros Philip Morris e o tsipouro oferecido pelo restaurante, como forma de agradecer por o termos escolhido.

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