Cinema: "O sonho de Wadja" e "Obediência (Compliance)"

Nº 1728 - Verão 2014
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

O sonho de Wadja

Realizadora: Haifaa Al-Mansour

Intérpretes: Ree Abdullah, Waad Mohammed, Abdullrahman Al Gohani

(Arábia Saudita, 2013)

Como foi possível H. Al-Monsour tornar-se cineasta, num país onde não há cinemas, e levar a bom termo o seu trabalho numa sociedade que isola e exclui as mulheres do espaço público?

A realizadora, filha do poeta Abdul Rahman-Monsour seguiu a educação normal destinada às raparigas, mas apaixonou-se pelo cinema a visionar os filmes em VHS que os pais traziam para casa, peenchendo o vazio da sua inactividade.

O controlo que é imposto às mulheres depende em grande parte das famílias, umas mais conservadoras do que outras.

Haifaa teve a oportunidade mais tarde de estudar literatura no Egipto e cinema na Austrália.

Casada com um diplomata americano e mãe de dois filhos, vive hoje no Bahrein.

Realizadora a partir da década de 70, foi a primeira cineasta saudita (com 31 anos) a apresentar um documentário sobre a situação das mulheres no seu país, intitulado "Women Without Shadows", em 2005.

O Sonho de Wadja é a sua primeira longa metragem, que não foi fácil concretizar. Primeiro foi a dificuldade em escolher uma menina como protagonista (os pais e as crianças temiam entrar no filme) e posteriormente foi ter que dirigir os actores.

Homens e mulheres não se podem misturar na via pública a trabalhar em conjunto e as câmaras não são bem vistas nas cidades pequenas.

H. Al-Monsour, refugiada com a sua câmara numa carrinha, contactava os actores com um "Walkie Talkie" ou chamava-os à carrinha por telemóvel, o que, confessa, "foi bastante frustrante".

Mas conseguiu contar-nos a história de uma menina de 10 anos (a extraordinária Waad Mohammed), que convive com um menino seu vizinho, que se desloca em bicicleta, tal como ela gostaria também de fazer.

Na companhia de Wadja deambulamos pelas ruas e cruzamo-nos com as mulheres envoltas da cabeça aos pés em vestes negras, sob a clara luz dum sol brilhante. Na escola, frequentada por Wadja, as meninas são constantemente vigiadas e rapidamente retiradas do recreio se por acaso se vislumbram ao longe alguns operários na construção dum edifício.

A realizadora mostra como no seu país há uma clara distinção entre o público e o privado. Na rua as mulheres diluem-se nos trajes negros, pois é isso que a colectividade exige delas. Só no lar mostram a sua verdadeira personalidade.

É assim que descobrimos a beleza da mãe de Wadja (a actriz de TV da Arábia Saudita, Reem Abdullah) e a alegria das suas amigas. Elas cantam, dançam, citam poemas, vêem televisão, têm acesso à "internet" e amam.

Entre o carinho da mãe (e do pai que a visita amiúde), a escola e o amigo, Wadja tem o sonho de adquirir uma bicicleta verde que viu à venda num "stand". Tal desejo é-lhe negado, porque as meninas não andam de bicicleta, prejudicial à sua virgindade.

Alheia a conselhos e proibições, a menina vai lutar pelo seu sonho e prepara-se cuidadosamente para entrar numa competição da escola de recitação do Corão. A vencedora terá um prémio monetário como recompensa.

Mas os caminhos não são assim tão simples e a vencedora do prémio sairá desiludida da experiência, pois o dinheiro foi para outro lado.

No entanto não desiste e terá apoios. Quando no final, vencidos entraves e obstáculos, vimos Wadja feliz, montada na sua bicicleta, cabelos ao vento, sabemos que a jovem geração pedala com vigor e determinação para um futuro mais promissor que o actual.

Os actores e actrizes são excelentes nos seus papéis, mas é de relevar o papel da estreante Waad pela sua naturalidade e convicção no desempenho da protagonista.

Alguma crítica frisou que o filme nada tem a ver com qualquer manifestação de "feminismo". Porquê este receio? Não sabemos que conceito tem o crítico do termo "feminismo", mas este significa lutar pela dignificação das mulheres, pelos seus direitos para alcançarem a cidadania, o que é louvável.

H. Al-Monsour mostra-nos a realidade das mulheres sauditas, sujeitas ainda a muitas restrições, mas rompendo caminhos aqui e ali.

O filme não é um "panfleto", mas tem um profundo significado e objectivo, como se nos dissesse - a realidade é esta, mas há que mudar.

Aliás a realizadora expressa abertamente o que pretendeu ao declarar: "gostava que o Sonho de Wadja inspirasse as raparigas sauditas a não desistirem, a mudarem as coisas".

A cineasta confia na juventude desafiadora para avançar com a mudança.

O filme, que já obteve prémios na Europa, EUA, Coreia do Sul e no Dubai, deve ser visto por um público alargado, atento e desperto, que valorize a liberdade para todos e seja amante do cinema, pois trata-se igualmente dum bom produto desta nobre arte.







Obediência (Compliance)



Realizador: Graig Zobel

Interpretes: Ann Dowd, Dreama Waker, Pat Healy.

(EUA 2012)

O realizador mostra-nos claramente como numa sociedade (neste caso a americana) a existência, verdadeira ou falsa, dum qualquer poder influência de modo perigoso o comportamento dos cidadãos.

A partir de casos verídicos, Graig conta-nos uma história passada na tranquilidade dos dias que se reveste de aspectos violentos.

O tinir do telefone ecoa no espaço dum restaurante de hamburgeres. A gerente Sandra (Ann Dowd) atende e uma voz, que se identifica como agente de polícia (Pat Healy), comunica-lhe que uma cliente se lhe queixara dum roubo feito pela sua empregada Becky (Dreama Walker).

A partir daqui a gerente, sem uma reflexão, uma dúvida, passa a obedecer a todas as ordens dadas pela voz e que vão submetendo aos piores vexames a jovem empregada. Becky é revistada, obrigada a ficar despida numa arrecadação donde não pode sair. Todos os que vão entrando vão participando na execução das exigências até ao mais chocante. Só um colega de Becky se recusa a participar e é, por fim, o homem mais velho que se insurge contra a situação chamando a polícia. Só que entretanto a jovem foi humilhada ao extremo na sua dignidade.

É a polícia que lhes revela que entre 1990 e 2004 foram registadas 70 ocorrências em várias cidades dos EUA, absolutamente idênticas.

Que sociedade é esta em que as pessoas estão prontamente disponíveis para acreditarem em tudo, e sem uma hesitação se amedrontam e se sujeitam, ou obrigam a sujeitar-se outros, às piores vilanias?

Graig Zobel é um dos cineastas independentes de Nova Yorque que faz filmes "incómodos", ou seja, mostra a realidade dos dias de hoje obrigando-nos a pensar no que somos e no que fazemos para não reagirmos ao absurdo.

Dreama Walker, que já trabalhou sob orientação de Clint Eastwood em Gran Torino (2008) como neta da principal personagem, encarna aqui perfeitamente a jovem Becky, inocente e assustada com tudo o que lhe está a acontecer, ofendida nos seus sentimentos e pudor.

O papel da gerente é desempenhado pela talentosa actriz Ann Dowd, veterana do cinema e da televisão, que brilhou já em "O Candidato da Verdade" (2008) de Jonathan Demme, ou em "Efeitos Secundários" (2013) de Steven Soderbergh. No papel da gerente Sandra, uma mulher de meia idade que tem um noivo, impressiona pela atitude obediente e complacente com que acata as ordens recebidas pelo telefone.

Os personagens da história serão todos afectados com o acontecimento aviltante, principalmente aqueles que colaboraram numa situação sórdida.

Um alerta para não aceitar sem análise tudo quanto nos chega por telefone, pelas redes sociais, pela televisão, pela própria internet.

As tecnologias são grandes conquistas, mas não devem fugir ao controlo dos homens.

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