O fim da História?

Nº 1719 - Primavera 2012
Publicado em Tribuna Pública por: Hugo Fernandez (autor)

Aqui há uns meses, naquele estilo de truculenta sapiência - e, convenhamos, notório simplismo - que lhe conhecemos, José António Saraiva não hesitou em fazer a seguinte declaração: "A ideologia já não tem força para se opor ao mercado. É esta a verdade. A luta de classes definitivamente acabou."i. A descoberta deste fim extemporâneo não é inédita, nem constitui novidade recente. Já nos idos de 1959, por exemplo, o sociólogo norte-americano Daniel Bell tinha prognosticado o "fim das ideologias". Três décadas depois foi a vez do corifeu do neoliberalismo, Francis Fukuyama, sentenciar "o fim da História". Mais recentemente não há "cão nem gato" que não se atire às canelas de qualquer ideia de equidade e justiça social e não invective com vigorosa prosa os seus defensores. Tempos houve, recorde-se, em que se previu igualmente a impossibilidade do sufrágio universal, da liberdade de expressão ou da igualdade entre homens e mulheres.

Longe do "fim da História" ouvimos sim repetir a mesma História. Não porque esta tenha acabado ou porque não se vislumbrem alternativas. Mas porque aos interesses ainda dominantes convém a manutenção desta narrativa que, tendo por base a supremacia (supostamente comprovada pela História) do capitalismo liberal frente a outros projectos de organização social, de que se destaca o comunismo, impele as sociedades numa senda imparável de progresso e bem-estar. Sabemos que as coisas não são tão evidentes e lineares. Sabemos sobretudo que a versão neo deste proclamado idílio terrestre está longe de corresponder à realidade contemporânea da humanidade. Naturalmente, a História... prosseguiu.

Vivemos o tempo de uma nova ordem. E de uma nova ordem que longe do orgulho triunfante de outras eras, procura dissimular a catástrofe (económica, social, ambiental, mental...) a que conduziu o mundo. Uma ordem em que os trabalhadores se transmutaram em colaboradores, em que os patrões se tornaram empregadores, em que as iniciativas se transformaram em empreendedorismo, em que o trabalho foi substituído por projectos, em que as dificuldades se converteram em desafios, em que a vertigem da novidade esconde a precariedade essencial das existências, em que o efémero passa pelo perene, em que o artifício se torna essencial, em que se banalizam os sentimentos e se ridiculariza a esperança. Assistimos ao presentismo das vivências individuais e colectivas que inviabiliza qualquer perspectiva de mudança e de melhoria de condição, subsumido que está na aflição quotidiana da sobrevivência. Os direitos convertem-se em privilégios. As gerações são lançadas umas contra as outras no perverso pressuposto de que as garantias dos mais velhos comprometem o futuro dos mais jovens e na crença de que os constrangimentos aos despedimentos são exactamente os obstáculos que impedem novas contratações.

Vivemos uma nova ordem em que a inversão de valores, muitas vezes travestido de "terceiras vias", é largamente prevalecente. Em que o mundo é dominado por uma "teocracia de mercado" que não hesita em renegar os mais elementares princípios da convivência democrática e da legitimação plebiscitária dos governantes pelos governados, na imposição de uma lógica fundamentalista de usurpação do poder político. Reunidos em conventículos iniciáticos e exclusivos - espécie de "conselho de sábios" (velayat-e faqih) de ayatollahs laicos - estes agentes da especulação e ganância internacional arrogam-se no direito de ditar sentenças, impor soluções, coarctar iniciativas, aniquilar expectativas, ao conjunto da sociedade. A legitimidade política democrática é assim subsumida aos ditames de alguns poderosos e substituída pelo mais completo arbítrio de interesses económico-financeiros obscuros e privados. Atente-se, para este efeito, no caso de instituições internacionais como o BCE ou o FMI, para já não falar nas tristemente célebres agências de "rating".

É, aliás, espantoso como os responsáveis pela presente crise continuam, impávidos e serenos, a determinar os destinos do mundo. Como aqueles que receberam somas incalculáveis de dinheiro dos contribuintes para remediar as consequências do gigantesco esbulho feito com fundos de pensões e especulação imobiliária, se acham no direito de exigir os mais pesados sacrifícios a todos os outros, com o singular objectivo da manutenção, por muitos e bons anos, dos seus lucros fabulosos. Parafraseando o título do famoso romance de Dostoievski, não só o crime não tem castigo, como os criminosos são os seus principais beneficiários. Sob a capa do discurso politicamente correcto e pretensamente responsável, obrigam-nos a alinhar num jogo de soma-zero onde "the winer takes it all"["O vencedor ganha tudo"]. Por isso, numa impressionante manifestação de desfaçatez política, o multimilionário Warren Buffet, precisamente um dos donos da agência Moody's, não tem qualquer pejo em afirmar que "Isto é uma luta de classes e a minha, a dos ricos, está a ganhar"ii. Elucidativo!

Vivemos uma nova ordem que, na delirante irresponsabilidade da sua vertigem suicidária, procura esquecer a História. Mais do que isso. Procura fazer esquecer a consciência desta. Estigmatiza ideais, ignora personagens, omite efemérides, promove o mais descarado revisionismo do devir da humanidade, deprecia sistematicamente o conhecimento do passado. Opõe um designado pós-modernismo aos ideais modernos de consagração da universalidade dos direitos, liberdades e garantias, da soberania popular e da representação política, da justiça social e da igualdade de oportunidades, renegando o próprio património histórico e civilizacional das revoluções liberais oitocentistas que estiveram na sua génese. Mascara as conquistas alcançadas e toma os legítimos anseios numa vida melhor por tibiezas utópicas. Sobretudo, camufla a realidade da exploração desenfreada, da predação desregrada dos recursos existentes, da furiosa persecução do lucro máximo, da despudorada especulação de interesses e expectativas, e da manutenção dos mais violentos índices de miséria e desigualdade sociais.

Não é por acaso que a atitude do poder instalado é a da desvalorização recorrente das ciências sociais e humanas e de toda e qualquer tentativa para um melhor conhecimento do mundo em que vivemosiii. Compreende-se que assim seja. Este conhecimento podia questionar algumas das certezas proclamadas e perspectivar soluções alternativas de organização social (apetece-nos citar, a este propósito, a conhecida provocação de Paul Valéry: "O que tem sido acreditado por todos, e sempre, e em toda a parte, tem toda a probabilidade de ser falso."). Ao invés, e numa lógica estritamente economicista, estes campos do conhecimento científico são encarados como improdutivos e desnecessários. Seguindo propósitos meramente instrumentais, aposta-se nas tecnologias e nos saberes com aplicação imediata à máquina capitalista da exploração e do lucro. Esquece-se convenientemente a constatação de que a tecnologia pode conseguir fabricar uma arma poderosa, mas que o entendimento aprofundado das sociedades pode evitar a guerraiv.

A desconfiança do pensamento dominante relativamente ao que apelida de grandes narrativas - isto é, teorias sistemáticas de interpretação da história da humanidade - fez dos detractores das revoluções e da ideia da mudança social e da emancipação humana os expoentes intelectuais da contemporaneidade. Resta saber se a apologia ad nauseum da "democracia liberal" e da "economia de mercado" resiste à analogia ontológica com as referidas grandes narrativasv. Não se assumem estes princípios ideológico-políticos como ubíquos e omniscientes? Não são eles incontestáveis e inevitáveis, o "fim da história" como proclamou Francis Fukuyama em 1992? Esta evolução universal e necessária em direcção a "sociedades livres", legitimadora da actual ordem capitalista, não é ela, precisamente, uma grande narrativa? Não enferma das mesmas debilidades teóricas - esquematismo, linearidade, finalismo, teleologia, irreversibilidade, fatalidade - que se apontavam àquelas anteriormente referidas? Por outro lado, está longe de ser despicienda a dúvida se a vontade dos "mercados" corresponde, efectivamente, aos princípios de igualdade e liberdade que presidiram à constituição da ordem democrática-liberal, não constituindo antes um expediente instrumental para a legitimação de um statu quo societário que, servido por um "pensamento único", apresenta características tão totalitárias como aquelas que são atribuídas aos propósitos dos seus adversários políticos.

A deslegitimação de qualquer pensamento alternativo a este estado de coisas - amplamente provido pela eficácia demolidora de uma máquina ideológica omnipresente - serve, de facto, um projecto totalitário de sociedade. A dissidência é permitida (dentro de certos limites), mas totalmente abafada. Mais do que isso. Há uma permanente campanha de desconsideração - quando não mesmo de achincalhamento e humilhação pessoal - de todos aqueles que ousam pensar de forma diferente. Neste estado de falsa tolerância ninguém, em princípio, é eliminado. Mas é completamente marginalizado e ostracizado (práticas indutoras de efectiva coerçãovi). Não matam o indivíduo, mas seguramente matam o cidadão. A própria memória de revoluções passadas é desprezada e procura-se que estas sejam condenadas ao esquecimentovii. Ora, como disse um dia aquele que foi considerado o "pai da História negra", o historiador afro-americano Carter G. Woodson (1875-1950), "When you control a man's thinking you do not have to worry about his actions." ["Quando controlamos o pensamento de alguém, não precisamos de nos preocupar com as suas acções"]. Que afirmação tão verdadeira!

i Sol, 3/9/2010.

iiCourrier Internacional, nº 183, Maio de 2011, p. 46.

iii Na expressão sarcástica do filósofo espanhol Santiago Eguidazu, "Os filósofos são empresários do inútil" (El País, 16/10/2009)

iv É que, como diz Vicente Romano (A Intoxicação Linguística, Porto, Deriva, 2008, p. 186), "o desenvolvimento tecnológico vivido no século XX está a conduzir à questão sobre se é socialmente conveniente tudo o que é tecnologicamente possível."

v Ainda que tenha de se ressalvar que uma analogia, isto é, a similitude de características que situações historicamente distintas podem apresentar, não significa homologia, ou seja, a correspondência exacta dessas características.

vi Em muitos casos a lembrar as "técnicas disciplinares" de que falava Michel Foucault.

vii E muitas vezes sujeitas aos mais despudorados processos de revisão histórica, decorrentes daquilo que Daniel Bensaïd ("Revolutions: Great and Still and Silent" in Mike Haynes e Jim Wolfreys eds., History and Revolution, London, Verso, 2007, p. 204) define como "anemia do imaginário social" que, para este autor, "deve ser urgentemente contrariada por um novo esforço de historicização e uma erupção da politização." [tradução minha].

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