Notas sobre uma crise que se agrava

Nº 1719 - Primavera 2012
Publicado em Nacional por: Carlos Carvalhas (autor)

Reunião de Passos Coelho com a Troika

Como é sabido, a troika não está aqui para dar resposta aos nossos problemas, mas sim para velar pelos interesses dos credores. O "acordo" assinado pelo PS, PSD e CDS é um programa neoliberal com o fundamental das medidas sugeridas por estes partidos, designadamente pelo PSD e pelos representantes das Associações do grande patronato.
Mas o Governo não se fica sequer pelo "acordo" e está a usá-lo como biombo e pretexto para ir mais além, na liquidação de direitos e conquistas e na modificação da relação de forças entre o capital e o trabalho, num processo de retrocesso social e civilizacional.
O economista Silva Lopes, também se gabou recentemente de na altura da primeira intervenção do FMI, o governo se ter servido desta instituição para tomar medidas muito para além do que era exigido.1
O Primeiro-ministro procura dar a ideia que o "acordo" com a troika é uma escritura sagrada, que não se pode mexer, nem negociar e em relação ao qual o País só tem um caminho, cumprir! Mas como é sabido, quando lhe interessa, o acordo é negociado e posto de lado como já aconteceu várias vezes - taxa social única, Justiça, etc. E ainda agora negociou com a troika e com Bruxelas o alargamento dos prazos para o que tem chamado de desalavancagem da Banca (rácio de depósitos sobre o crédito superior ao que estava previsto para este ano, para atingir, os 120% em 2014).
Ao mesmo tempo, o Governo tem estado em segredo a negociar um "ajustamento ao programa", tal como se viu, no que já se designou e bem, de "beija-mão" do ministro das Finanças ao seu homólogo alemão, numa postura de vergonhosa subserviência. A revelação daquelas imagens estragou a encenação do Governo défice devia ser alargado mas que tal devia partir da troika. E mais recentemente Cavaco Silva também afirmou que qual-quer alteração do acordo deve partir da troika, tendo em conta que os pressupostos se alteraram.
Perante o agravamento da situação económica, financeira e social são cada vez mais os que defendem a renegociação do acordo e também da dívida: Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, António José Seguro (entre outros), e recentemente o conhecido neoliberal João Duque, presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão, que declarou na Rádio Renascença, que "Portugal apresenta todas as condições para necessitar de um plano de reestruturação da dívida".
No entanto, o Governo continua a insistir na ilusão de que, em 2013, a crise já estará ultrapassada e que Portugal irá aos mercados financiar-se. Com esta ilusão pretende atingir dois objectivos: dar a ideia de que a sua política é inevitável e necessária para resolver os problemas e que os sacrifícios são apenas para este ano de modo a fomentar a resignação. Depois arranjará a desculpa do agravamento da situação externa. Aliás, a União Europeia já admite um novo "plano de resgate" um novo empréstimo, com novas exigências e medidas de austeridade. E Cavaco Silva, não lhe querendo chamar "plano de resgate", vai dizendo que se não conseguirmos ir aos mercados a UE garantirá uma nova assistência desde que cumpramos o acordo!
Com esta política o País vai entrar numa espiral recessiva e vai chegar ao fim deste período, dito de assistência, mais pobre, mais desigual e mais endividado.
Para fazer crer que a política do "bom aluno" está a resultar e a credibilizar o País, o Governo tem argumentado que as idas recentes ao mercado para se financiar têm sido feitas a taxas de juro menos elevadas do que no passado.
O que se tem verificado, é que nos empréstimos a curto prazo e apenas a curto prazo, todos os países, inclusivamente a Grécia, foram nos últimos tempos aos mercados financiando-se a taxas de juro menos elevadas do que no passado.
Porquê? Porque a partir de Dezembro, data em que o Banco Central Europeu (B.C.E.) decidiu conceder empréstimos à Banca Europeia de montante ilimitado a 1% por três anos, contra a apresentação de colaterais (títulos, etc.) a Banca tem mais liquidez. E como esta mega operação do B.C.E., designada por Longer Term Refinacing Operation (L.T.R.O.), se ia repetir em Fevereiro, a Banca tinha todo o interesse em deter títulos públicos de curto prazo mesmo com taxas de juro menos elevadas, para os utilizar como colaterais (garantias) e assim levantar dinheiro a 1% por três anos.2 Nos últimos empréstimos de curto prazo do Estado, a Banca portuguesa foi a principal tomadora desses empréstimos.
Estas operações do B.C.E (L.T.R.O.), são operações de - criação de quase moeda - monetarização da dívida (quantitative easing) de forma encapotada. Uma maneira do B.C.E. tentar resolver os problemas de liquidez da Banca Europeia e de ganhar tempo.
A E.B.A. (European Banking Authority), o regulador da Banca Europeia, fixou em 114,7 milhares de milhão de euros as necessidades de reforço dos fundos próprios. E esta questão continua a ser um nó de contradições, tal como a dívida dos Bancos que continua a disfarçar-se inclusive, com eufemismos como "desalavancagem", "exposição", "imparidades". A Banca nunca está endividada (!), está alavancada e o Banco X ou Y que tem uma dívida a tal ou tal entidade, também não deve (!) está simplesmente muito "exposto" à tal entidade! Também está "exposto" se tiver activos sobreavaliados: "O BCP estava mais - exposto - à dívida grega do que o BPI!" E as provisões - insuficientes provisões para activos que estão desvalorizados passaram pela influência anglo-saxónica a designar-se por "imparidades".
Mas o que estes eufemismos e estas operações não resolvem é o problema da solvabilidade da Banca, nem os problemas das dívidas públicas. O financiamento directo dos Estados pelo B.C.E., tal como o estão a fazer todos os Bancos Centrais (F.E.D., Banco de Inglaterra, Banco do Japão, etc.), é proibido pelos estatutos do B.C.E. e a sua alteração tem tido a oposição da Alemanha. No quadro do sistema, tal medida embora de forma limitada e controlada teria evitado a agudização dos problemas de financiamento de diversos Estados da União Europeia.

Qual é a estratégia do Governo?

O Governo pensa que, através da redução do défice orçamental e através do estrangulamento do consumo e do fomento das exportações, resolve o problema do défice externo e com ele as necessidades de financiamento da economia.
Para diminuir o défice orçamental o Governo aumentou os impostos (sobretudo sobre os rendimentos do trabalho), cortou nos salários, pensões e subsídios, limitou os serviços públicos e recorreu à transferência do Fundo de Pensões dos Bancários, no que se traduziu num grande negócio para a Banca à custa de graves problemas no futuro para a Segurança Social.
Esta política de brutal contracção da economia - consumo, investimento - vai ter como consequência uma fortíssima recessão, com as inevitáveis consequências sociais e com repercussões negativas no défice pela via da redução das receitas resultante da diminuição da actividade económica.
Quanto às privatizações elas irão diminuir momentaneamente a dívida pública e consequentemente, o montante de juros a pagar pelo Estado. Mas por outro lado, o Estado deixará de receber dividendos dessas empresas, como se verificou com outras privatizações, as receitas provenientes do IRC irão diminuir e a transferência de lucros e dividendos para o exterior vai aumentar, agravando a Balança de Rendimentos e, indirectamente, a Balança Corrente.
Hoje o que sai do País em lucros e dividendos - a mostrar o carácter altamente lesivo das privatizações - é já praticamente igual a tudo o que entra no País dos diversos Fundos da União Europeia (ver Quadro I) e esta situação tende a deteriorar-se com as novas privatizações, que agravarão também a nossa dependência e comprometerão ainda mais o nosso futuro.


E se lhe juntarmos os juros dos empréstimos realizados, as saídas quase duplicam as entradas da União Europeia, o que nos dá uma ideia do agravamento da situação financeira do país. (ver Quadro II)


A falência de tal estratégia está à vista. É certo que as exportações tiveram uma série de apoios e aumentaram. Mas como os países da União Europeia tomaram medidas contraccionistas e a zona euro vai entrar em recessão em 2012, as exportações já estão a abrandar substancialmente pondo em risco o cumprimento das metas previstas.
Mas mesmo que fossem atingidas e que diminuísse sensivelmente o défice da nossa Balança Comercial, o que é certo é a tendência para a Balança de Rendimentos continuar a desequilibrar-se pelo aumento dos dividendos distribuídos para o exterior (agora acrescido com os dividendos da EDP e da REN)!
Chegaremos assim a 2013, com o tecido económico altamente debilitado, com muitas empresas viáveis arrastadas para a falência, com uma situação social de desastre, mais endividados e sem perspectivas para o futuro. É o caminho para nos instalarmos na estagnação por largos anos com níveis de crescimento sem significado. O garrote dos credores vai continuar a apertar-se enquanto Portugal for um bom negócio para os ditos mercados. E com esta estratégia que conduz ao enfraquecimento do aparelho produtivo e à sua cada vez maior dependência do estrangeiro, logo que se vier a aumentar o consumo e o investimento os défices externos aumentarão de novo, pois praticamente nada está a ser feito para fortalecer e modernizar o aparelho produtivo nacional.
Entramos numa espiral de retrocesso e estagnação, cada vez mais dependentes da dita "assistência externa". "Suicídio assistido" como lhe chamou Wolfgang Munchau, no Financial Times, a propósito da Grécia. As contradições vão-se acentuar. A questão do desendividamento privado e público vai pesar cada vez mais e vai ser um sorvedouro insustentável de recursos. Esta questão vai colocar, mais tarde ou mais cedo, a necessidade de reestruturação da dívida, alargamento dos prazos, diminuição das taxas de juro e hair cut (anulação de parte da dívida). E não o deveríamos fazer quando estivermos exangues. O caso da Grécia devia servir-nos de aviso pois tem sido espremida como um limão, mesmo na operação de anulação de parte da dívida privada, conduzida pelo poderoso lobby da Banca, Instituto da Finança Internacional (I.F.I.) e o seu director Charles Dalarra.3
A questão do "euro" valorizado e sem correspondência com a nossa estrutura produtiva é outra contradição que tende a continuar a agravar os nossos problemas e a nossa competitividade.
Presidente da República, Governo, burocratas da União Europeia, Comissários, troika, todos repetem que Portugal necessita de aumentar a sua competitividade.
Na prática, o que têm em mente é a desvalorização da mão-de-obra, ganhos de competitividade pela diminuição dos salários e a liquidação de direitos. Todos parecem esquecer a política monetária e cambial do B.C.E., a apreciação do euro, e o aumento da competitividade pela organização, nível tecnológico, custos de produção (energia, transportes).
Os Estados-membros da União Europeia não podem estar sujeitos à competição internacional, com uma moeda sobrevalorizada desadaptada à estrutura económica de muitos países, como é o caso de Portugal, e sem utilizar as mesmas aro-mas que os seus principais competidores.
Os E.U.A., por exemplo, usam a preferência nacional, a moeda, as subvenções públicas, os juros, as tarifas aduaneiras, as grandes cadeias de distribuição, para defenderem as suas actividades internas e aumentarem a sua competitividade.
Esta contradição pode continuar a arrastar-se, pode-se ganhar tempo, pode-se alterar algumas regras com eventuais mudanças políticas resultantes das eleições em França e na Alemanha (mutualização da dívida, compra da dívida aos Estados pelo B.C.E., reforço do Orçamento Comunitário) mas a contradição mantém-se! Ou haveria toda uma outra política do B.C.E. e da União Europeia, ou a superação desta contradição vai impor-se.
A saída do euro de forma unilateral e não negociada e compensada conduziria a elevados custos e riscos por diversas vezes descritos: saída de capitais, levantamento de depósitos, desvalorização acentuada da moeda, pagamento da dívida (em moeda nacional ou em euros)!
Uma outra via seria a de uma saída controlada, negociada, compensada financeiramente pela União Europeia e com uma reestruturação da dívida externa. Vários cenários têm sido perspectivados para o euro e vários autores têm avançado procedimentos neste caminho sobretudo no plano técnico (Jacques Sapir, Philippe Murer, professor de Finanças na Sorbone, entre outros), embora a questão seja sobretudo política e de relação de forças.

Portugal a produzir

Perante o desastre da Grécia e o caminho para a recessão de praticamente todos os países da zona euro, em Bruxelas começou-se a mudar o discurso, mas não o essencial da política. Agora é a necessidade do crescimento e da criação de empregos sobretudo para as novas gerações que ocupa os discursos e a propaganda.
Mas como concretizar uma política de crescimento e de criação de emprego com as sucessivas políticas de austeridade, com as sucessivas políticas contraccionistas, procurando todos e cada um ao mesmo tempo dar resposta aos seus problemas exclusivamente pelas exportações, sem alargar o mercado interno?
É o que acontece com o nosso país.
Com esta política o nosso caminho é para mais um decénio perdido. Quando nos dizem que em 2013 já regressaremos ao crescimento, tal possibilidade será tanto maior quanto maior for a recessão este ano, mas, a verificar-se, será sempre um crescimento muito baixo ao nível da estagnação que não dá resposta ao desemprego e acentua o nosso atraso relativo.
Não há resposta aos problemas da dívida externa, do défice orçamental, da criação de emprego, sem crescimento económico, sem industrialização, sem uma nova política para a agricultura e as pescas, sem o combate aos nossos défices estruturais: défice energético, tecnológico e alimentar. É a partir do crescimento económico que se pode responder aos problemas que temos pela frente e não pela contracção drástica do mercado interno e do investimento, nem pela austeridade e a redução do défice a "mata cavalos"!

Mistificações

Uma das principais mistificações difundidas até à saciedade é a de que não há alternativa.
Temos que cumprir o acordo com a troika se não será o caos e para dar força a esta chantagem avançam com a operação do "medo". Se não cumpríssemos não teríamos mais financiamento, não teríamos dinheiro para pagar as pensões e reformas, os vencimentos aos polícias (Paulo Portas), aos trabalhadores da Função Pública! Chegam até a invocar o incumprimento da Argentina de modo falso para dar credibilidade ao seu argumento do "papão". 4 E nada nos dizem sobre a Islândia!
O grande princípio que comanda a União Europeia é o princípio neoliberal, sem qualquer fundamento científico, "a concorrência livre e não falseada". Isto é, o domínio da oligarquia e dos grandes grupos europeus que submetem ou liquidam as actividades nacionais mais fracas. A sua grande tradução orçamental é a do equilíbrio das Contas Públicas como base para o desenvolvimento económico. Nada mais falso. Uma coisa é o control9o das Contas Públicas, outra é erigir em dogma de fé a chamada regra de ouro - um limite de 0,5% do PIB para o défice estrutural - (corrigido o ciclo), limite que Portugal nunca atingiu.
Há uns anos uma televisão japonesa entrevistou o Sr. Trichet e perguntou-lhe em que é que se baseava para afirmar que o equilíbrio orçamental era a questão básica para o desenvolvimento. A resposta foi o argumento de autoridade: todos os economistas o afirmavam...
A situação que se vive na União Europeia é tão injusta e tão penalizadora que milhões se indignam e revoltam apesar das doses maciças de opiniões de editorialistas, comentadores e falsos debates pluralistas a pregar o conformismo, o pensamento único, o não há outro caminho.
Não conseguindo conquistar as cabeças com bons argumentos procuram obter a resignação através da argumentação pseudotécnica: os governos não podem ir contra os mercados, nem contra as leis da globalização. Em nome deste falso realismo vão dizendo: nós bem gostaríamos de aumentar os salários, as pensões, mas não podemos.


Como podemos ser competitivos se temos tantos países que concorrem connosco e que trabalham mais horas e com menores salários?
Os mercados são transformados em divindades, em entes sagrados. Mas então se tudo está condicionado pelos mercados, pela globalização, pela troika, se os governos não têm mais escolhas possíveis a não ser liquidar direitos e conquistas, o voto dos cidadãos é perfeitamente desnecessário, como já alguém afirmou!
É que no cerne de tudo isto está a exigência da democracia, da soberania nacional e o não perder de vista que todas estas construções: livre circulação de capitais, domínio do sector financeiro, euro, são construções humanas - decididas pelas forças dominantes - e que nada têm de leis objectivas ou naturais. *

A mistificação do défice orçamental e da dívida pública

Não há charlatão que não nos fale do Estado gastador, do menos Estado e melhor Estado.
As despesas do Estado, segundo estes, são a causa da nossa crise, dizem e repetem. Estamos claramente perante impostores intelectuais.
Uma coisa é combater os desperdícios, a corrupção, os dinheiros públicos mal gastos. Outra, é servir-se de maus exemplos para liquidar as funções sociais do Estado e privatizar tudo o que possa ser rentável.
A crise rebentou em Agosto de 2007 e as suas consequências começaram a repercutir-se a partir de 2008
Em 2007, o défice orçamental português foi de 3,1% do PIB. Qual a razão então para o défice começar a subir de forma acentuada? Foi porque o Estado passou a ser mais gastador, foi porque começou a gastar muito mais, na saúde e no ensino, por exemplo? Não. Foi por causa da crise capitalista desencadeada pelo sistema financeiro que as receitas diminuíram substancialmente. Simultaneamente aumentaram as despesas com o apoio à Banca e aos grandes grupos económicos, com as tentativas de relançamento económico através de obras públicas e também, nos primeiros tempos pelo aumento de algumas despesas sociais (subsídio de desemprego).
Assim, o défice passou de 3,1% do PIB em 2007, para 3,6% em 2008, e para 10,1% em 2010! E é a partir destes números que os "sacerdotes" do neoliberalismo desencadearam nova campanha contra o Estado gastador, contra os serviços públicos e os trabalhadores da Função Pública escamoteando as causas do aumento de tais défices.
O mesmo se passou com a dívida pública. Primeiro nunca se fala da dívida privada, que é ainda maior do que a dívida pública, depois nunca se analisa com seriedade a sua evolução e as suas causas!
É preciso que se saiba que a dívida pública portuguesa era em 2006, um ano antes da crise, de 63,8% do PIB, valor inferior (pasme-se) à dívida pública da Alemanha, da França, da Itália, da Grécia, da Bélgica, do Luxemburgo.... A dívida pública portuguesa era inferior à média da zona euro! (ver Quadro III)


Então o que é que sucedeu para que a partir de 2007 a dívida pública tenha disparado? O Estado passou a ser gastador incontrolado? Ou Portugal foi vítima da crise e da especulação, da agiotagem da finança internacional?
Aqueles que clamam contra o Estado endividado, contra o Estado omnipresente, como dizem, escondem estes dados e servem-se dos dados actuais da dívida pública para continuarem a sua sanha neoliberal contra o "Estado social"!
Mesmo em relação à dívida é também importante ter presente os dados relativos à evolução dos juros pagos em percentagem do PIB.
Em 2006, os juros pagos por Portugal em percentagem do PIB (2,6 %) eram inferiores à média da zona euro (2,9%).
Em 2010 a percentagem dos juros pagos pelo País em relação ao PIB (3,0) já era superior à média da zona euro (2,8) e da União Europeia (2,7)! Em 2011 a percentagem dos juros que pagámos em relação ao PIB foi de 4,2 contra 3,0, da zona euro e 2,9 da União Europeia.
Para este ano as previsões apontam para uma percentagem de 5,2 para Portugal e contra 3,0 da zona euro e 3,1 da União Europeia. E em 2013 segundo as previsões atingiremos os 5,5 do PIB.
O peso dos juros agiotas vai sufocando a nossa economia e o nível de vida do povo português.
Mas há quem esteja a ganhar e muito. E é a esta agiotagem que chamam ajuda e solidariedade europeia!
Isto não significa que estejamos a absolver as políticas seguidas antes e depois de 2006, designadamente as políticas orçamentais quer ao nível dos investimentos, das despesas, da fiscalidade ou das receitas. Significa apenas que não alinhamos no discurso neoliberal daqueles que se estão a aproveitar da situação em que estamos para desferirem ainda mais gravosos golpes no já muito debilitado "Estado social", designadamente no ensino, na saúde, na segurança social.
É necessário desmontar e mostrar a falsidade de algumas "verdades" feitas e repetidas por todos os papagaios das classes dominantes. É necessário combater a "conventional wisdon", expressão anglo- saxónica (termo muitas vezes creditado ao economista John Kenneth Galbraith) para designar as ideias e teorias geralmente aceites como verdades e que, à força de serem repetidas por analistas e comentadores oficiais, acabam por definir o "politicamente correcto", o razoável, de tal maneira que qualquer afirmação que vá contra a corrente ou qualquer proposta alternativa surge desde logo como irrealista, não verdadeira ou incongruente!

Os trabalhadores e os povos que paguem a crise

No início de 2011, os economistas do sistema e os analistas da corte financeira consideravam que o essencial da crise já tinha passado e que a retoma embora lenta e difícil estava assegurada. A partir desta análise, o B.C.E. decidiu aumentar a sua taxa de referência e os Estados da UE sob o impulso da Comissão Europeia e do Directório das grandes potências, designadamente Alemanha e França, colocaram no centro da política económica, a redução drástica e abrupta dos défices, somando austeridade à austeridade. Tratava-se de pôr os trabalhadores e os povos a pagar a factura do endividamento dos Estados e da Banca. Esta política só poderia levar à travagem da retoma como veio a acontecer. Já com a economia da União Europeia a afundar-se, o B.C.E. veio corrigir o tiro, ao diminuir as suas taxas de referência e a ultrapassar a sua ortodoxia com medidas que têm vindo a contornar os seus Estatutos a que têm designado eufemisticamente de "medidas não convencionais". Mas foi uma reacção tardia e os Estados, a começar pela Alemanha, continuaram e continuam com uma política contraccionista. Segundo as previsões oficiais a recessão regressa à zona euro!


Tal como toda a crise do modo de produção capitalista, a crise actual é em primeiro lugar uma crise de valorização do capital. Realizar lucros e assegurar a reprodução do capital investido tornou-se mais difícil na esfera "produtiva", pelo que a especulação financeira foi a opção.
O crédito foi um dos principais veículos de financiamento dessa mesma especulação, pois permitiu manter por um período ainda longo, elevado nível de consumo, apesar da redução dos salários (UE) e do poder de compra, em vários países, de largas camadas da população, como permitiu a criação de "novos produtos financeiros", produtos derivados e mecanismos pseudo seguradores (CDS) que foram difundidos pela banca de todo o mundo.
Os EUA foram os pioneiros e são o exemplo-tipo deste modelo de crédito e de especulação, gerador de "capital fictício" sem precedentes que esteve à beira de implodir o sistema financeiro.
Com a Banca à beira do precipício, assistimos então à nacionalização dos prejuízos com vista à privatização dos lucros. Os Estados (os contribuintes) foram em socorro da Banca, tal como os bancos centrais. De que maneira? Através de garantias, recapitalizações, empréstimos, e pelas facilidades de crédito dadas pelos Bancos Centrais a taxas muito próximas do zero e da criação de moeda.
Os Estados endividaram-se para salvar o sistema financeiro e em consequência da crise gerada por este.
A partir daí deixou-se de falar da dívida privada para se falar apenas na dívida pública. Mas como refere um  estudo do Citigroup do analista Matt King, "Uma crise do desendividamento global do sector privado", a "actual focalização sobre as dívidas públicas, com o sinistro corolário dos planos de austeridade que se sucedem a um ritmo acelerado à medida que a estagnação degrada as receitas dos Estados, leva ao impasse sobre um aspecto fundamental desta crise maior: o nível insustentável atingido pela dívida do sector privado dos países ditos desenvolvidos durante o último decénio".
Durante estes anos diz-nos o estudo, a maior parte destes países conheceram um crescimento fantasioso (trompe d'oeil) financiado pela "bolha" de crédito, hoje incobrável que contamina os balanços obesos do sistema bancário mundial.


Terminamos estas notas sobre a crise relembrando que "para se conseguir mais-valia é preciso primeiro "realizar", vender as mercadorias. E as condições de produção e de realização como Marx mostrou além de não coincidirem no tempo e no lugar distinguem-se pela sua essência. Os principais compradores de bens de consumo pessoal sob o capitalismo são as massas trabalhadoras. A diminuição de parte do capital variável no rendimento nacional, significa a diminuição da capacidade de compra das massas, significa que a procura solvente dos trabalhadores se atrasa em relação ao alargamento da produção. E quando a produção se divorcia do consumo, altera-se toda a reprodução capitalista.
Por outro lado, confirma-se que "cada vez se manifesta com maior relevo, como uma das tendências do imperialismo, a formação de "Estadosrentiers", de Estados usurários, cuja burguesia vive cada vez mais à custa da exportação de capitais e do "corte de cupões".5
Por isso a luta pela melhoria na distribuição do rendimento nacional a favor dos "rendimentos do trabalho" é uma exigência não só de justiça social, mas também um pressuposto para o desenvolvimento, tal como a luta pela independência e a soberania nacional.

Notas:

1 A intervenção do FMI deu-se no seguimento da crise em consequência, no fundamental, do processo de restauração capitalista e latifundista. A dinâmica capitalista que triunfou levou o país, a partir das transformações profundas verificadas nas estruturas económicas, a uma grave depressão. Ver Álvaro Cunhal “A Revolução Portuguesa”, pág. 277 e seguintes. Ver livro do XI Congresso, pág.29 e 30.

2 A operação do B.C.E. de Fevereiro, realizou-se através dos Bancos Centrais nacionais e puderam usar como garantias títulos públicos e até créditos concedidos a particulares (habitação, consumo).Jornal Público de 14/02/2012 .

3 A Grécia tem sido vítima dos «castigos», dos interesses eleitoralistas da Sra. Merkel, e dos juros usurários da agiotagem internacional. A reestruturação da dívida grega já se realizou por duas vezes (tal como o plano de ajuda) e de cada vez seguida de juras de que seria a única e a última vez e não extensível a mais nenhum outro país. Já depois de aprovado o segundo o presidente do Eurogrupo afirmou não excluir um terceiro “plano de ajuda”! A questão da Grécia pode não aguentar até ao fim do ano e esta situação terá efeitos em cadeia na zona euro e muito directamente em Portugal. Na Alemanha (Ministro do Interior) advoga-se a saída da Grécia do euro! As contradições (Grécia/euro e a contradição, países defensores do euro forte – bloco alemão - e países da periferia) vão agravar-se.

4 A Argentina, num quadro diferente é certo, saiu de uma crise de dívida tão ou mais profunda que a Grécia em tempo recorde.

5 Imperialismo Fase Superior do Capitalismo, V.I. Lénine., Obras Escolhidas, p. 668, Edições Avante.+Jacques Généreux “ Nous on peuut “

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