Cinema: A pele onde eu vivo e Habemus Papam

Nº 1719 - Primavera 2012
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

No Panorama cinematográfico da temporada, onde sobressaem alguns bons filmes, vamos escolher dois da autoria dos realizadores latinos Pedro Almodóvar e Nanni Moretti.

Apesar de divergentes nos temas, na filosofia de vida e no uso da técnica, ambos têm sofrido a incompreensão de certo público e o pouco reconhecimento nos festivais de cinema.

Pedro Almodóvar, admirador confesso de grandes cineastas como Rainer Warner Fassbinder, Luis Buñuel, Frederico Fellini ou Hitchecock, foi fazendo o seu caminho com temas obsessivos, histórias complexas de vida, libertando-se progressivamente de certo amadorismo para se tornar num realizador experiente, que sabe o que quer e como fazê-lo.

Só em 1988 o seu filme MULHERES À BEIRA DUM ATAQUE DE NERVOS recebeu a nomeação para o Óscar do melhor filme estrangeiro, mas não foi galardoado.

Em 1999 o Festival de Cannes colocou em competição o seu filme TUDO SOBRE A MINHA MÃE, que recebeu o prémio do melhor realizador. Nos filmes, muitas vezes inspirados nas memórias dum passado, com vários traumas, as mulheres são protagonistas.

Aliás a relação que mantém com algumas actrizes da sua preferência leva-o a trabalhar sempre com elas. É o caso de Carmen Maura, Penélope Cruz ou Mariza Paredes. Assim, em VOLTAR (2006), inspirado na sua infância em La Mancha, junta as suas duas "musas", Carmen Maura e Penélope Cruz.

Há porem uma história em que a mulher está ausente - MÁ EDUCAÇÂO (2004), que evoca a experiência duma criança de 10 anos, vivida num colégio religioso, onde descobre a sexualidade nas suas formas mais perversas. Vítima e testemunha do terror mudo e impotente causado por abusos sexuais, em adulto só pretende vingar-se. Também a vingança é o tema do seu mais recente filme, que levou 10 anos a elaborar.

 

 

A PELE ONDE EU VIVO (La Piel que Habito)

Realização: Pedro Almodóvar

Interpretação: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Peredes, Jan Cornet, Roberto Álamo. ( Espanha, 2011)

 

No inicio o realizador pensou em rodar o filme a preto e branco «no estilo dos filmes mudos de Fritz Lang ou Murnan», mas desistiu por questões económicas.

Trata-se da adaptação do livro policial «My-gale» do escritor francês Thierry Jonquet. Almodóvar conta-nos a história do cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas), homem elegante, de gestos suaves, insinuante, afável, que é recebido frequentemente em convívios e festas.

Este exterior atraente esconde na verdade um médico psicopata que, após a violação da filha, resolve vingar-se.

Na sua bela vivenda El Cigarral em Toledo dedica-se a experiências alucinantes, misturando genes humanos e de porco para criar um tipo de pele que se adapte à construção de todos os rostos.

Traumatizado com a morte da mulher, cujo rosto queimado não conseguiu regenerar, o cirurgião procura reproduzir o seu rosto em outras mulheres.

Na casa, rodeada de jardins perfumados mantém enclausurada a jovem Vera (Élena Anaya), a sua cobaia-modelo em quem vai operando transformações consecutivas.

Na sua ausência, a prisioneira é vigiada e controlada pela fiel guardiã-governanta. (Mariza Paredes)

Todas as personagens guardam segredos sombrios só mais tarde revelados.

António Banderas interpreta com brio uma personagem completamente diferente das suas actuações anteriores. Sóbrio, secreto, de gestos contidos, ele é o médico monstro que se sente imbuído dum poder absoluto sobre a vida dos outros.

Elena Anaya, no papel de Vera, é uma jovem aprisionada num mundo de terror, que esconde o mais possível o seu desejo de liberdade. Tal como um animal acossado, está à espreita do momento breve para fugir do inferno, o que só consegue com uma tragédia.

O filme sugere algumas reflexões:

  1. Numa época em que se pretende atingir rapidamente a fama pela aparência, há o perigo de as múltiplas operações plásticas conduzirem à uniformização dos corpos de pessoas diferentes, perdendo-se a identidade.

  1. Há que impedir o abuso da aplicação de descobertas cientificas aos seres humanos, sem ter uma ética como limite.

  1. Pode-se modificar o rosto, o corpo, o sexo, mas não a essência do ser.

Nanni Moretti é o grande mestre do cinema italiano que assegura a transição da tradição clássica para a modernidade com enorme talento.

Moretti é um intelectual com uma visão filosófica da vida e, de acordo com ela, denuncia e combate as injustiças, intervém para modificar as situações e cultiva as relações pessoais com grande humanismo.

Realizador, argumentista, intérprete e produtor trabalha os seus filmes com grande equilíbrio e muita organização, atingindo uma especial harmonia.

Lembremos as suas especulações filosóficas enquanto joga polo aquático em PALOM-BELLA ROSSA, ou os seus comentários mordazes quando percorre as ruas de Roma montado numa lambreta, em CARO DIARIO.

No filme CAIMÃO, como cidadão atento à realidade italiana, denuncia e ataca o uso e abuso do poder politico de Berlusconi.

Agora traz-nos um filme diferente, uma história que é uma subtil análise do comportamento humano em contexto específico.

 

HABEMUS PAPAM

Realização: Nanni Moretti

Interpretação: Nanni Moretti, Michel Miccoli, Jerzy Stuhr, Renato Scarp.

 

De acordo com o estilo documentário-ficção, usado algumas vezes pelo cineasta, a história inicia-se com as imagens das exéquias de João Paulo II. A partir daqui começa a ficção.

Um longo cortejo de cardiais de vestes purpúreas, em passo solene e cadenciado atravessa os corredores do Vaticano, passa pelos guardas suíços, engalanados de cores, percorre salas douradas e sobe escadas intermináveis, a caminho do conclave que irá eleger o novo Papa.

No exterior, na vasta praça de S. Pedro, a multidão aguarda pacientemente a subida do fumo branco que anunciará o novo chefe da Igreja.

Reunidos os cardeais, entre dúvidas, hesitações, consultas, procede-se à votação e um nome sobressai entre todos, o do cardeal Melville (Michel Piccoli). Os cardeais sentem-se aliviados pela missão cumprida, mas o eleito permanece com o rosto inexpressivo, sem reagir. No entanto, quando todo o séquito se dirige para a varanda, a fim do novo Papa saudar os fieis, este lança um grito de pânico e cai desamparado numa cadeira.

Na verdade não quer ser chefe de ninguém.

Em caso tão grave é chamado ao Vaticano um psiquiatra famoso (Nanni Moretti) para resolver a situação. O médico como é natural, pretende falar a sós com o seu paciente, mas os cardeais não largam os dois.

Moretti não evita o debate entre a Razão e a Fé, mas o diálogo é conduzido com tanta inteligência, elegância e generosidade que ninguém poderá sentir-se beliscado.

Esgueirando-se pelos corredores o Papa consegue fugir e percorre as ruas de Roma surpreso e admirado com a realidade lá fora. Cruza-se com pessoas interessantes, conversa nos cafés e encanta-se com os jovens duma trupe de teatro, que lhe lembra sonhos antigos.

O psiquiatra será impedido de sair e de usar o telemóvel até se resolver o problema do regresso do fugitivo.

Neste recinto dourado revela-se o imenso vazio da vida dos cardiais.

Ingenuamente enganados com o adejar das cortinas e a projeção de sombras nas janelas dos aposentos papais, para fazer crer que o sumo pontífice está recolhido em meditação, saltam de alegria e de energia quando o médico lhes ensina um jogo de bola que os faz vibrar.

Com ironia subtil surgem breves comentários dos privilégios do Vaticano: a farmácia onde existem remédios que falham nas farmácias de Roma, as lojas privadas com artigos fabricados exclusivamente para uso dentro do Vaticano, não aparecendo expostos nas montras da cidade.

O filme revela a grande distância que separa a Igreja da realidade de todos os dias. Revela também a natureza humana dos cardeais que, não recebendo chama divina, podem cometer erros nas suas escolhas.

Michel Piccoli, grande actor experiente, encarna na perfeição um cardeal, homem entre os outros homens, que não tem apetência pelo poder nem sente vocação para chefiar quem quer que seja.

Filme profundo, humano, divertido, com momentos únicos, tem em todo o elenco um grande nível de representação, o que contribui também para o sucesso desta nova produção do cineasta italiano.

É um filme para se ver e meditar, sem preconceitos nem objecções prévias, pois trata-se duma história admirável, realisticamente contada, humana e acessível.

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