Homenagem: José Afonso (Zeca Afonso) 1929-1987

Nº 1719 - Primavera 2012
Publicado em Cultura por: Redaccao Seara Nova (autor)

Menino do Bairro Negro

 

Olha o sol que vai nascendo

Anda ver o mar

Os meninos vão correndo

Ver o sol chegar

 

Menino sem condição

Irmão de todos os nus

Tira os olhos do chão

Vem ver a luz

 

Menino do mal trajar

Um novo dia virá

Só quem souber cantar

Virá também

 

Negro bairro negro

Bairro negro

Onde não há pão

Não há sossego

 

Menino pobre o teu lar

Queira ou não queira o papão

Há-de um dia cantar

Esta canção

 

Olha o sol que vai nascendo

Anda ver o mar

Os meninos vão correndo

Ver o sol chegar

 

Se até dá gosto cantar

Se toda a gente sorri

Quem te não há-de amar

Menino a ti

Se não é fúria a razão

Se toda a gente quiser

Um dia hás-de aprender

Haja o que houver

 

Negro bairro negro

Bairro negro

Onde não há pão

Não há sossego

 

Menino pobre o teu lar

Queira ou não queira o papão

Há-de um dia cantar

Esta canção

 

 

Vampiros

 

No céu cinzento

Sob o astro mudo

Batendo as asas

Pela noite calada

Vêm em bandos

Com pés de veludo

Chupar o sangue

Fresco da manada

 

Se alguém se engana

Com seu ar sisudo

E lhes franqueia

As portas à chegada

Eles comem tudo

Eles comem tudo

Eles comem tudo

E não deixam nada

 

A toda a parte

Chegam os vampiros

Poisam nos prédios

Poisam nas calçadas

Trazem no ventre

Despojos antigos

Mas nada os prende

Às vidas acabadas

 

São os mordomos

Do universo todo

Senhores à força

Mandadores sem lei

Enchem as tulhas

Bebem vinho novo

Dançam a ronda

No pinhal do rei

 

Eles comem tudo

Eles comem tudo

Eles comem tudo

E não deixam nada

 

No chão do medo

Tombam os vencidos

Ouvem-se os gritos

Na noite abafada

Jazem nos fossos

Vítimas de um credo

E não se esgota

O sangue da manada

 

Se alguém se engana

Com seu ar sisudo

E lhes franqueia

As portas à chegada

Eles comem tudo

Eles comem tudo

Eles comem tudo

E não deixam nada

 

Eles comem tudo

Eles comem tudo

Eles comem tudo

E não deixam nada

 

Ver todos os textos de REDACCAO SEARA NOVA