Rogério Fernandes

Nº 1719 - Primavera 2012
Publicado em 90 anos Seara Nova por: Revista Seara Nova (autor)

Se queremos assegurar a todos, numa justa prespectiva democrática, a igualdade de ponto de partida, é necessário que, através da escola (mas não apenas através dela, é evidente), se procure suprimir, ao máximo, aqueles factores que entravam o desenvolvimento harmonioso da personalidade infantil. Ao contrário do que os mal-intencionados afirmam, não se trata, evidentemente de nivelar por baixo, mas sim de nivelar por cima, corrigindo a desigualdade de condições iniciais. (…) Também no tocante ao ensino infantil e à atenção dedicada à criança, o actual panorama português está longe de ser animador. Vários pedagogos o têm proclamado, com vigorosa insistência, mas, valha a verdade, sem resultados apreciavelmente tangíveis. As escolas infantis entre nós existentes são, por via da regra, de carácter privado. O seu custo ao consumidor é suficientemente elevado para as tornar inacessíveis à grande maioria das crianças portuguesas, cujas famílias pertencem às classes trabalhadoras. Por outro lado, a rede dessas escolas está praticamente confinada aos centros populacionais de maiores proporções. (…) A criança portuguesa entra, regra geral, na escola primária sem ter recebido qualquer ensino infantil, o que, muitas vezes, é fonte de ulteriores atrasos e inadaptações. (…) Afigura-se-nos que, acima de tudo, se trata de resolver uma questão de importância nacional: dotar o país de uma rede de estabelecimentos de ensino infantil, ajustada às exigências do nosso tempo, e ao alcance das crianças portuguesas, independentemente da sua classe social, por forma a que o ensino pré-primário deixe de ser uma prerrogativa de privilegiados. Assim sendo, é preciso revogar o disposto no Decreto-Lei n.º 28 081, de 9 de Outubro de 1937, que suprimiu em Portugal as escolas infantis oficiais. Sustentar, como se tem feito, que o ensino infantil é de âmbito familiar, considerando a família competente para o realizar, parece desmentido pelas próprias realidades. Traçar um esquema legislativo não bastará, porém, para criar uma realidade correspondente. É igualmente preciso estudar, à luz das tendências mais modernas, o conteúdo desse ensino. (…) Indispensável, com a mesma premência, a preparação dos educadores (uns estágios apressados em Paris, e a leitura de uns livrinhos não chegam...); mais uma vez se depara com a exigência imperativa de um Instituto de Ciências Pedagógicas destinado à investigação educacional e à formação de agentes de ensino.”

Rogério Fernandes

Director da Seara Nova

entre 1961 e 1969

N.º 1443

Janeiro de 1966

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