O assalto da PIDE à Seara Nova

Nº 1719 - Primavera 2012
Publicado em 90 anos Seara Nova por: Jose Tengarrinha (autor)

Durante o Estado Novo o aparelho repressivo policial raramente se fez sentir directa e violentamente sobre a Seara Nova. Os seus colaboradores eram notoriamente contra o regime, colaboravam activamente nas campanhas políticas antisalazaristas, por vezes eram mesmo candidatos nas listas oposicionistas, frequentemente eram presos e sofriam duras perseguições pessoais, mas o grupo, como tal, não era sistematicamente atingido.

Tal se devia ao facto de, desde a sua origem, a Seara Nova, como agrupamento, ter sido constituída por personalidades de alto nível intelectual e incontestada estatura moral e cívica, que deram contributos assinaláveis para a solução dos graves problemas que o País atravessou desde a década de 1920. A sua participação em governos da I República e as suas propostas sectoriais e globais sobre a realidade portuguesa eram reconhecidamente muito válidas, situando-se num plano superior ao dos duros confrontos partidários que tornavam dificilmente governável este país. É bem explícito o que, a esse respeito, declara no editorial do número 1, em 15 de Outubro de 1921: "A SEARA NOVA representa o esforço de alguns intelectuais, alheados dos partidos políticos, mas não da vida política, para que se erga, acima do miserável circo onde se debatem os interesses inconfessáveis das clientelas e das oligarquias plutocráticas, uma atmosfera mais pura em que se faça ouvir o protesto das mais altivas consciências e em que se formulem e imponham, por uma propaganda larga e profunda, as reformas necessárias à vida nacional". O grande grito de alarme dá-se no número 12, de 15 de Abril de 1922, com o editorial intitulado "Programa mínimo de salvação pública", um dos mais esclarecidos e enérgicos protestos que então se publicaram.

Com a instauração do Estado Novo começa uma nova fase. Agora, o aparelho repressivo incide especialmente sobre os conteúdos da revista. Era preciso evitar o lápis azul da censura. Um dos artifícios foi a publicação de uma secção, na última página, intitulada "Factos e documentos", onde eram inseridos excertos de textos publicados na imprensa ou em livros que contivessem alusões críticas, mais ou menos subreptícias, ao Estado ditatorial. Aí, os mais visados foram os discursos do então presidente da República almirante Américo Tomás e a obra de Camões, nomeadamente Os Lusíadas. Ao passo que não sofriam censura os textos de um tal Vladimir Ilitch (a que não era junto "Lenine") ou as considerações sobre a evolução do capitalismo de um não menos desconhecido Carlos Marques (Karl Marx, este sim conhecido dos censores). Mas os artifícios, por mais engenhosos, não impediam que, sobretudo desde a instituição do S.N.I. (Fevereiro de 1944) a censura redobrasse a sua atenção sobre os textos da Seara Nova e, já na década de 1950, fizesse cortes tão extensos que obrigavam os redactores a improvisar rapidamente textos para garantir a saída da revista. Recordo uma série de artigos meus com o título genérico de "Tradição e Revolução" baseados numa análise da obra de Mousinho da Silveira que foram de tal modo mutilados que ficou em grande parte adulterado o seu conteúdo. Outro expediente da censura, não menos lesivo, era demorar intencionalmente o exame censório para atrasar a venda directa ou por assinatura da revista.

Tudo se passava sobretudo, pois, nesta luta cerrada com a censura, como dissemos sem actos repressivos policiais directos. Mas tudo se modificou em meados da década de 1950, com o agravamento das tensões internacionais ("guerra fria") e o crescimento da contestação interna no mundo laboral e nos círculos intelectuais.

Foi um tempo em que eu e o Mário Sottomayor Cardia assegurávamos a elaboração permanente da revista, para o que nos encontrávamos regularmente (dois a três dias por semana) na redacção. Uma tarde fomos surpreendidos com pancadas violentas na porta e, quando a abrimos, deparámos com uma brigada da PIDE munida de autorização judicial para revistar as salas. Mas cedo compreendemos que a sua intenção não era procurar livros ou documentos "subversivos", mas intimidar e destruir. Começaram por deitar abaixo os livros que se encontravam nas estantes do corredor, abrir e despejar os papéis das secretárias, tudo acompanhado de insultos e ameaças de prisão, que recrudesciam com os nossos protestos e declarações de que iríamos apresentar queixa formal nas instâncias judiciais. Mantiveram-nos fechados na secretaria com ameaças de que no final da busca seríamos presos, o que não chegou a ser concretizado. Os livros e papéis espalhavam-se por todo o lado, num amonteado confuso, pontapeados pelos agentes que por vezes punham de parte alguns livros que foram apreendidos, mas, como verificámos, sem qualquer critério selectivo. Tudo isto constou de uma denúncia que apresentámos às autoridades judiciais e que, como prevíamos, não teve qualquer efeito.

Logo compreendemos que este acto de puro vandalismo se enquadrava no endurecimento da repressão do Estado Novo contra o mundo intelectual e a cultura em geral que se manifestou em diversos actos, entre os quais o assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores e a prisão dos seus dirigentes por terem atribuído o prémio literário à obra Luuanda de Luandino Vieira, então preso no Tarrafal.

Era o violento ataque à cultura por parte de um regime que, desde os princípios da década de 1850, viu fracassar o projecto de unir a opinião pública em torno da defesa do "Império Português", já então com visíveis sinais de decadência, e enfrentava a falta de solidariedade das potências aliadas a Portugal quando da ocupação pela União Indiana dos enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli. Era o obscurantismo mais profundo que se instalava, sentindo o regime a ameaça que significava a cultura, de que era preciso defender-se puxando a pistola, como ameaçara o dirigente nazi-fascista alemão.

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