Breve apontamento para a história política da Seara Nova nas décadas de 50 e 60

Nº 1719 - Primavera 2012
Publicado em 90 anos Seara Nova por: Mario Ruivo (autor), Henrique Ruivo (autor)

Não tendo sido possível nesta altura elaborar uma contribuição mais aprofundada sobre a acção da Seara Nova na luta anti-fascista nas décadas de 1950 e 1960, como modesta contribuição para o 90.º aniversário da Seara Nova, pareceu-nos que seria oportuno um breve apontamento com base na memória e no nosso envolvimento sobre uma dimensão menos conhecida.

No âmbito da conferência comemorativa do aniversário da Seara Nova, foram feitas referências ao período de renovação da Revista sob a direcção de Câmara Reys. Este, atentoà evolução da sociedade portuguesa após a campanha de Humberto Delgado e ao contexto mundial, convidou para a redacção e direcção da Seara uma geração mais jovem e politicamente activa: Manuel Sertório para director-adjunto e, para o conselho editorial, Rui Cabeçadas, António Lopes Cardoso, Vasco Martins, Mário Ruivo e Nikias Skapinakis. Para além da participação de seareiros que colaboravam anteriormente na Revista, este núcleo beneficiou do alargamento a elementos provindos de vários sectores anti-fascistas, como Humberto d'Ávila, Carlos Duarte, Rogério Fernandes, Alberto Ferreira, José Hipólito e Henrique Ruivo, entre outros.

Mário Ruivo saudando Câmara Reys no seu 70.º aniversário, em nome do Conselho Directivo e da Redacção da Seara Nova estando na mesa à direita Câmara Reys, Vasco Martins e Henrique Ruivo.

Mário Ruivo saudando Câmara Reys no seu 70.º aniversário, em nome do Conselho Directivo e da Redacção da Seara Nova estando na mesa à direita Câmara Reys, Vasco Martins e Henrique Ruivo.

Como acentuou António Reis na sessão comemorativa, a Seara Nova retomou então "o ideário da sua fundação adaptado aos novos tempos e muito sensível à ideologia marxista". Embora a Revista tivesse por objectivo principal a difusão cultural e, tanto quanto a censura o permitia, a análise e discussão da situação política, económica e social em Portugal e da situação internacional, a Seara Nova constituía também uma plataforma que aglutinava intelectuais de diversos sectores ideológicos empenhados na denúncia do regime e no reforço da luta anti-fascista. A Seara Nova era assim uma espécie de "caldeira" em que várias ideias e concepções da sociedade e do futuro se encontravam, convergindo em iniciativas unitárias e formas de intervenção cívica e política em prol da democracia e da liberdade. Ora se aproveitavam as limitadas oportunidades no plano legal, ora se participava em acções clandestinas como foi o envolvimento de numerosos seareiros nas Juntas de Acção Patriótica. Importa, a nosso ver, aprofundar o estudo da contribuição da Seara Nova, nesta fase, para o derrube da ditadura.

Nesta perspectiva, haverá que ter em conta, por um lado, o papel do Conselho Editorial e dos seareiros que a ele estavam associados, na modernização da Revista e, por outro lado, a acção discreta do grupo político da Seara Nova, mais restrito, orientado para formas de intervenção na esfera política e na mobilização convergente das forças de oposição ao regime. Esta dinâmica foi fruto da própria heterogeneidade das posições dos participantes. Há que ter igualmente em conta a conjuntura mundial da época, em que se fez sentir a originalidade e impacto da revolução cubana sob a égide de Fidel Castro e Che Guevara, assim como das resoluções das Nações Unidas sobre a questão colonial e o direito dos povos à auto-determinação e à independência.

Em consequência do clima de repressão que se vinha acentuando em Portugal, sobretudo o desencadear da guerra colonial e após a tentativa de assalto ao Quartel de Beja, verificou-se o êxodo de muitos seareiros que procuraram refúgio no Brasil ou em países democráticos da Europa ou no Magrebe (Argélia e Marrocos), reforçando-se a estratégia de desmascaramento do regime salazarista e de mobilização de apoios externos à luta do povo português.

A nossa presença e de outros anti-fascistas portugueses em Itália a partir de 1961 e o acolhimento fraterno e a solidariedade do povo italiano para com os povos sujeitos à opressão colonial e as lutas pela liberdade e democracia na Península Ibérica e na Grécia, abriram novas possibilidades de apoio às forças que em Portugal se opunham ao regime de Salazar. Como seareiros, e em estreita ligação com o interior- e por vezes com dificuldade em descodificar as mensagens que nos chegavam do interior - foi possível mobilizar em Itália as estruturas e organizações políticas, sindicais e associações de antigos "partigiani".

Neste quadro geral, estabeleceram-se contactos com personalidades, revistas, jornais e outros agentes culturais, criando em torno da causa do povo português um forte movimento que conduziu à formação do "Comitato Italiano di Solidarietà con il Popolo Portoghese".

Cartaz do CISPP, desenhado por Henrique Ruivo, e amplamente difundido na Itália e noutros países em actos de solidariedade para com p povo português.

Cartaz do CISPP, desenhado por Henrique Ruivo, e amplamente difundido na Itália e noutros países em actos de solidariedade para com p povo português.

São de referir as iniciativas da revista L'Europa Letteraria e do Comitato Europeo delli Scritore, que promoveram a participação de escritores portugueses em seminários e debates na Itália e noutros países, contribuindo deste modo para que a censura e outras formas de repressão fossem publicamente expostas, quebrando o isolamento dominante. Queremos prestar homenagem em especial ao jornalista Arrigo Repetto e ao director de L'Europa Letteraria, Gian Carlo Vigorelli, particularmente activos na denúncia dos abusos do regime, como no caso do assalto e encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores pela PIDE e pela Legião Portuguesa em 1965. Apesar da vigilância da PIDE nas fronteiras, foi possível organizar visitas a Itália de autores portugueses, sendo de referir a participação de um representante da Seara Nova na mesa-redonda das revistas literárias europeias em Belgrado, que ali declarou: " ... a Seara Nova poderá talvez e bem o esperamos estabelecer a ligação entre a vossa cultura e a nossa procurando tornar menor a distância que, dadas as nossas condições específicas, ainda nos separa da grande aventura comum em que estamos todos empenhados".

No contexto de fraterna solidariedade do povo italiano e das forças democráticas, laicas e católicas, e das associações de ex-combatentes da resistência e sindicatos, foi possível a organização da conferência constitutiva da Frente Patriótica de Libertação Nacional nos arredores de Roma em 1962. Desafiando a máquina repressiva do regime, a conferência reuniu um amplo leque de representantes de movimentos e forças políticas do interior e personalidades relevantes da oposição, incluindo seareiros, e de núcleos de anti-fascistas no exterior. Ulteriormente, a FPLN viria a instalar a sua sede na Argélia, assim como a rádio Voz da Liberdade, processo a que estivemos associados e no qual participaram militantes do grupo político da Seara Nova.

Não cabe aqui aprofundar a história deste período ainda mal conhecido do envolvimento da Seara Nova na luta clandestina contra o regime fascista, merecedor ser objecto de investigação histórica adequada.

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