As polémicas na Seara Nova

Nº 1719 - Primavera 2012
Publicado em 90 anos Seara Nova por: Herberto Goulart (autor)

"E por que não Polémicas?!", lembrou-se alguém quando no Conselho Redactorial se procurava um assunto adequado para integrar no dossier 90 Anos Seara Nova. E coube-me a mim fazer uma extenuante, mas interessante, viagem ao longo de 50 000 páginas de Seara Nova (a meta foi colocada em finais dos anos 70), por vezes tomando alguns atalhos para encurtar caminho, mas respeitando o percurso desenhado com a ajuda da Ana e do Hélio.

E porquê procurar e recordar polémicas na Seara Nova para constituir uma peça do dossier dos 90 Anos?

As polémicas na e da Seara Nova foram em boa medida um elemento marcante da revista desde o primeiro número, ou não fossem Raul Proença e António Sérgio dos mais destacados pensadores e periodistas que da polémica faziam quase uma prática diária.

Parece-me que a polémica constituía uma forma generalizada dos intelectuais contemporâneos dos primeiros anos da Seara Nova participarem na vida política e no debate de ideias. Por vezes atingia-se uma violência verbal impensável nos dias de hoje, que chegava a raiar a figura do insulto ou da ofensa da honra pessoal, pretexto a que agora recorrem certas primas dona para culminar o processo em tribunal, quase sempre por que lhes falta a argumentação ou lhes sobra a jactância.

Devem separar-se as polémicas da Seara Nova em dois tipos: as verificadas com figuras exteriores à revista, que em geral explanavam os seus pontos de vista ou replicavam noutros órgãos da imprensa; e as que ocorrem entre seareiros ou entre colaboradores da revista, normalmente mais "civilizadas" e até intelectualmente mais elevadas. Esta diferença terá a ver com o facto das polémicas exteriores serem, na maioria dos casos, com pessoas dos meios integralista, monárquico conservador, pró fascista ou mesmo fiéis servidores do Estado Novo.

A polémica e Raúl Proença

Raúl Proença

Raúl Proença

A primeira polémica que registo verificou-se entre Raul Proença (a primeira referida não podia ser de outro autor!) e Norberto de Araújo, em Abril de 1924. Tem início num artigo de Proença sobre A Ditadura, que Norberto de Araújo comentou em dois números do Diário de Lisboa, no primeiro dos quais escreve: "Não está certo. O sr. Raúl Proença, pessoa por quem tenho uma sincera admiração, e que é um espírito culto, não tem o direito de comprometer assim os seus próprios propósitos. Não está certo, nem pela falta de gramática, nem pela falta de elevação". Foi esta acusação de falta de gramática ou de elevação que originou toda a polémica, diga-se de passagem que desenvolvida com muita elevação e educação q.b..

Não a vou descrever, já que o leitor eventualmente interessado a encontrará no nº 34 da Seara Nova, de 9 de Abril de 1924, mas não resisto a citar Raul Proença no decurso da polémica: Que gosto dá, neste jardim à beira mar, escrever sobre assuntos que não sejam frioleiras, mundanices, chá das cinco, a menina dos olhos claros, as violetas que murcham nas jarras e umas banalidades profundas que fazem dos órgãos de imprensa, mais ou menos, jornais de modas e bordados, tão vazios de ideias e tão cheios de cosméticos como a cabecita loira de uma mulher morena!

A Polémica e António Sérgio, pois claro

António Sérgio

António Sérgio

A segunda polémica a referir tinha de ser com António Sérgio. Ainda em 1924 (nº 37 da revista), com Fidelino de Figueiredo. Este não gostou de uma crítica sobre um livro dele, que Sérgio publicara na revista Lusitânia e por isso abriu polémica. A Seara Nova não reproduziu o texto de F. Figueiredo, mas da réplica de A. Sérgio, em artigo intitulado "A que se Chama uma Questão Literária ... em Portugal" constam alguns períodos, dispersamente, pelos quais se verifica que Fidelino de Figueiredo se sentiu fortemente atingido e que replicou centrando-se sobre a figura do seareiro, mais do que sobre o conteúdo da crítica.

António Sérgio sumariza assim os planos de ataques pessoais que lhe são destinados:

1º - que lhe seria fácil, a ele, destruir a "máquina de sofismas" que é a crítica que publiquei;

2º - que me move o despeito e o ódio político;

3º - que não é possível tirar desforço do que se diz na "Lusitânia" - em artigos assinados - porque dirige a revista uma Senhora;

4º - que traio amigos (o "amigo" é ele);

5º - que sou de asiática mentalidade, e não irmano com o sr. Figueiredo - nem na raça, nem na moral, nem na religião.

E depois contesta as opiniões de Fidelino em cada um destes planos, arrasando o opositor com extrema dureza e talvez excessiva sobranceria. Veja-se o estilo, no início da contestação ao primeiro plano: Poderia ele, sr. Figueiredo, destruir a minha crítica. Quem crê em tal? Nem ele, nem ninguém. Repito: ninguém. Ninguém refuta o que ali está. Desafio quem quer que seja, - nacional ou estrangeiro, - a tentar a refutação. Impossível! Ficou provado por a+b que para trabalhos de inteligência crítica, o sr. Figueiredo, até hoje, se tem revelado um incapaz.

António Sérgio tem de novo uma polémica interessante (números 45 e 46 da S.N., de 1925), desta vez com Carlos Malheiro Dias, que em certo escrito seu rotulara D. Sebastião do nosso herói da história mais admirado. Sérgio "desfaz" a figura do"herói patriota", ridicularizando as façanhas militares, a ausência de dimensão política, a religiosidade exacerbada, classificando-o como um fanfarrão mentecapto. Martinho Nobre de Melo veio também à liça sobre o assunto (nos números 49 e 50, ainda de 1927) e recebeu adequada resposta de António Sérgio.

E de novo Raúl Proença

Prosseguindo a viajem pelas páginas da Seara Nova, fui tropeçar (Janeiro de 1926) em dois artigos vigorosos de Raul Proença, com duras críticas a Cunha Leal que aceitara o cargo de Vice-Presidente do Banco Nacional Ultramarino, ao abrigo de um decreto que indignadamente combatera enquanto deputado e que o partido nacionalista, de que era líder, considerou nas suas moções parlamentares como um dos actos mais desprestigiosos da República. Proença abria assim uma polémica, que não se concretizou de facto, pois que o visado nunca lhe respondeu.

Uma interessante polémica entre Raul Proença e Pina Lopes, que fora ministro da República e propagandista das ideias republicanas teve lugar em Março/Abril de 1926 e foi iniciada por Proença em artigo na Seara Nova, tendo por título "PALAVRAS DUM REPUBLICANO - Que quis ser Fiel à sua Palavra".

Transcrevo partes deste delicioso artigo:

Por que o combato então e aos homens da sua estirpe?

É porque traíram as promessas de idealismo político que tínhamos dado à Nação. Ora eu posso perdoar tudo - que me desfeiteem, me aborreçam, me caluniem, invertam mesmo circunstâncias determinadas da minha vida. Tenho mais que fazer do que odiar os meus inimigos. Mas que estivéssemos a mentir a um povo inteiro durante dezenas de anos - é isto que eu julgo imperdoável.

E Proença prossegue mais à frente: Actualmente o sr. é o representante da Moagem junto de um dos grandes jornais de Lisboa ... ... o senhor prestou a sua colaboração a uma Business Press, a uma imprensa que não tem nenhuma espécie de convicção doutrinária, que não tem outro ideal que não seja o de aumentar a sua tiragem e a sua receita de anúncios, e em que à Política e à consideração do interesse geral se sobrepõem a Finança e os interesses dum Grupo Bancário

Quão actual tudo isto é! E como as frases seguintes, ajustados os sujeitos, se ajustam elas também aos dias de hoje! O que a maior parte dos Republicanos teem feito é a negação mesma da República que prometeram. Por decadência "fisiológica" e moral dos verdadeiros democratas, os bandidos e os monárquicos tomaram de assalto o leme do Estado. O senhor ajudou-os. E longe de ter aspirado a uma Imprensa de protesto, sustenta uma Imprensa de conformidade, onde a única nesga de horizonte que se vê entreluzir abre sobre as perspectivas da Reacção.

Pina Lopes respondeu duas semanas depois, tendo embora confessado que inicialmente não pensava responder por não querer alimentar polémicas, mas afinal veio a dirigir-se a Raúl Proença num artigo da Seara Nova intitulado "PALAVRAS DUM REPUBLICANO - Incapaz de Faltar à sua Palavra", em termos elegantes e de defesa da sua honra, entremeado com alguns elogios a Proença. Este respondeu no próprio número, no seu habitual estilo truculento e contestando em especial as responsabilidades de Pina Lopes no Diário de Notícias: ... ninguém o obriga também a dar a sua adesão a um jornal que assim perverte a sua missão e está exercendo uma influência tão perniciosa sobre a sociedade portuguesa.

É curioso que nas vésperas do golpe militar do 28 de Maio, Raul Proença viesse a publicar na Seara (nº87, de 13 de Maio) um artigo intitulado "A Apologia do Fascismo", em resposta a artigo de Martinho Nobre de Melo, publicado na "Reconquista" sob o título de "O Anti-fascismo de Raul Proença". A denúncia da violência fascista institucionalizada é de uma grande clarividência; aliás desde o nascimento da Seara Nova, cinco anos antes, que Raul Proença não perdia oportunidade de denunciar as ideias fascistas. A polémica parece ter-se ficado pelos dois artigos citados.

Tomando um atalho, para encurtar caminho, vamos parar a Outubro/Dezembro de 1930, onde encontramos uma polémica de Castelo Branco Chaves com José Rodrigues Miguéis (números 222, 226 e 231), iniciada a propósito de um pequeno estudo deste "O Conceito de Revolução em Eça de Queirós", polémica esta que viria a originar a demissão de Miguéis do grupo seareiro por carta dirigida a Câmara Reys e publicada no último dos números citados. É interessante ler todo este processo (incluindo uma posterior carta de Migués, no nº 235, contestando opiniões de Bourbon e Menezes), que reflecte marcadas divergências políticas, já que J. R. Miguéis vinha a tomar posições como lutador pelo socialismo, com a configuração que já então este assumia na Rússia.

Prosseguindo viagem, vamos encontrar em finais de 1931 acesa polémica entre Rojão Nobre e Dr. João de Figueiredo, na qual também viria a participar Fernando Lopes Graça, sobre a qualidade musical (ou falta dela) da peça "Suite Africana", depois designada "Bailado Africano", do Maestro Rui Coelho e que prosseguiu em torno da restante obra deste, muito mal classificada por Nobre e por Graça (números 243 a 249 da revista).

E novamente António Sérgio

Mais à frente, já nos princípios de 1932 e numa extensão longa (vai até Agosto), vamos deparar com uma polémica em que intervêm António Sérgio, João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro. Tudo começou num artigo de António Sérgio (nº 286 da Seara Nova) que comentava o livro de João Gaspar Simões "O Mistério da Poesia" e que questionava este acerca das ideias do Padre Brémond sobre "poesia pura", com as quais João Gaspar Simões se identificaria. Gaspar Simões vem a replicar no nº 290 (de 17 de Março), considerando que Sérgio o acusara de copiar as ideias de Brémond, o que contesta, aliás documentadamente, desafiando Sérgio a responder onde, como, em quê copiei Brémond? Depois de documentar os casos em que citara Brémond, vem Gaspar Simões dizer: Não suponha o sr. António Sérgio que, com estas objecções, tenho a intenção de provocá-lo para uma polémica ... O ilustre autor dos Ensaios, com a sua clareza, a sua certeza, a sua cultura, a sua inflexibilidade racional, esmagar-me-ia ao primeiro movimento do seu intelecto. Esmagar, esmagar, talvez não; porém a tréplica de Sérgio (número 296, de 28 de Abril), virulenta como de costume, mas com elevação intelectual, é de sete páginas da Seara Nova e de tal intensidade que levou Adolfo Casais Monteiro a tomar posição, em apoio a Gaspar Simões, na revista Semana de 22 de Maio. António Sérgio não iria deixar de replicar-lhe, o que fez no nº304 de 23 de Junho, em artigo que começa assim: O pessoalismo, a paixão egocêntrica , nas discussões que deveriam ser de ideias, é das mais tenazes manifestações da mentalidade anti-crítica do português. Estava dado o tom! Que se azeda no último artigo de António Sérgio (S.N. nº 311, de 11 de Agosto), intelectualmente elevado, mas onde este afirma: O Sr. João Gaspar Simões publicou contra mim um artigo em estilo baixo e grosseirão, que é, na substância, uma trapalhada infinita, absolutamente inextricável, toda cheia de incríveis infantilidades, e de rotunda ignorância da mais elementar psicologia.

Separadamente, Lopes Graça e Agostinho da Silva

Agostinho da Silva

Agostinho da Silva

De passagem pode-se referir uma polémica entre Fernando Lopes Graça, por um lado e Sebastião Cardoso e Ivo Cruz, por outro, a qual teve origem em artigo de Graça, na série de colaborações que mantinha com a Seara Nova sob o título comum "Panorama Musical Português". Em tal artigo Graça levantava objecções a um ponto de vista comum aos outros dois (nos jornais e Voz) segundo o qual se teria verificado uma influência do compositor português João de Sousa Carvalho sobre Mozart; desmontando os raciocínios daqueles, a certa altura Graça diz: A que extremos delirantes de imaginação pode conduzir a megalomania nacionaleira!! Sebastião Cardoso, no nº 309 e Ivo Cruz, no nº 312 (ano de 1932) procuraram, cada um por si, invalidar as objecções de Graça, o qual no nº 313 redige uma réplica, bem fundamentada, elegante e de assinalável boa educação, com que se encerrou esta polémica.

Outra curiosa polémica trava-se entre Agostinho da Silva e o Dr. Alfredo Pimenta. Desenvolve-se em Março e Abril de 1933, a partir de artigo do último no Diário de Notícias de 25 de Março de 1933, no qual acusa Agostinho da Silva, então em Paris, de plagiar o professor Lafaye na sua obra sobre Catulo (poeta romano nascido por volta de 80 a.c.). Agostinho defende-se, com fino humor e verdadeira erudição, em três cartas publicadas nos números 336, 338 e 342, nesta última debruçando-se sobre uma réplica de Alfredo Pimenta no Diário de Notícias de 27 de Abril. Diz Agostinho da Silva "... conhecia extremamente mal os seus trabalhos ... achei-os sempre demasiado elevados para mim ... Só agora pude apreciar plenamente o seu talento ; e, Exmo. Senhor, não tenho dúvida alguma em declarar que o achei engraçadíssimo, direi mesmo, hilariante". É curioso notar que o seareiro teve disposição para redigir estas cartas numa altura em que publicava na Seara, repartido por três números desta, valioso e extenso estudo sobre Stendhal.

Fernando Lopes-Graça

Fernando Lopes-Graça

Numa apertada curva do percurso, ainda reparei numa interessante polémica entre Castelo Branco Chaves e Adolfo Casais Monteiro, que tem origem numa crítica deste ao livro Estudos Críticos que o primeiro publicara algum tempo antes. É uma polémica em torno da intuição em poesia, do ser ou não sinónimo de percepção sensível; da poesia de António Nobre diz, a certo passo, C.B. Chaves, continuo a dizer que na obra poética de Nobre nada há que emocione ou encante senão superficialmente. Nesta polémica António Sérgio também veio a "meter colherada", pois fora polemicamente citado num dos textos de Casal Monteiro. Consta dos nºs. 373 e 381, de 1933,.

Desagradável polémica de Sérgio com Abel Salazar

Abel Salazar

Abel Salazar

Não resisto a fazer uma paragem na polémica que opôs António Sérgio a Abel Salazar. Este publicou no nº 505, de 15/Abril/1937, um artigo intitulado "Pensamento lógico, pré-lógico, pseudo-lógico e psicológico. Pensamento emotivo, pensamento lógico e empiro-lógico", o qual foi precedido das seguintes palavras de António Sérgio: O aparecimento desta primeira colaboração do Dr. Abel Salazar na SEARA NOVA (colaboração que por muitos motivos nós lhe pedimos) segue de perto uma carta do mesmo autor, publicada na "Sol Nascente", pela qual viemos ao conhecimento da bárbara guerra que lhe têm movido: e tal facto nos leva a preceder o seu artigo destas breves palavras introdutórias, para protestarmos contra a selvajaria de tais agressões. ... No fundamental, por consequência, vemos no Dr. Abel Salazar um amado camarada de uma mesma trincheira. Nem isso seria aliás necessário para ele ser recebido na SEARA NOVA com a estima e a admiração que lhe são devidas, - dado o seu valor intelectual e moral.

No nº 508, de 6 de Maio seguinte, Abel Salazar prosseguiu no desenvolvimento do seu pensamento em artigo intitulado "Pensamento Psicológico e Biotipos", que tem um estranho P.S., de que transcrevo partes: Para evitar mal entendidos fazemos notar o seguinte. Neste artigo não se afirma que não haja Moral, Estética, Política, etc., de espíritos positivos, e tratados com métodos positivos. ... o que se pretendeu por em foco é as ciências morais clássicas, e uma grande parte do que hoje existe a este respeito tem um caracter metafísico e é estruturado em proposições psicológicas. ... Notemos, com Frank, Carnap e outros, que a ciência é unitária; mas a realização científica não é possível com igual rigor nas ciências morais e naturais; de aí o facto de o pensamento psicológico tender a dominá-las abusivamente. ..."

No nº 510 de 20 de Maio, António Sérgio inseriu o artigo "Pequeninos pontos que o acaso vai trazendo, e que submeto à meditação de jovens amigos que planeiam uma obra de vulgarização", no qual desvaloriza o "Círculo de Viena" (encontros regulares de filósofos em Viena), origem da escola do Positivismo Lógico, de que Abel Salazar era um "apóstolo" em Lisboa e ridiculariza o "zelo apostólico de vulgarização filosófica", obviamente pretendendo atingir este último. Abel Salazar respondeu a António Sérgio especialmente quanto às questões da vulgarização (embora prometesse um artigo posterior para abordar mais extensamente esta questão) no nº 515, de 26 de Junho, mantendo a discussão em nível elevado e em tom educado, mas numa nota de rodapé foi bastante agressivo quanto a Sérgio. Nesse mesmo número a Seara Nova inseriu nos Factos & Documentos (F&D) um comentário de um tal Rodrigo de Gusmão pouco simpático para com Abel Salazar, a que Sérgio acrescentou umas desagradáveis palavras para com este. Estava o "caldo entornado"! Tanto mais que neste mesmo número Sérgio publicou "Notazinha ao artigo de Abel Salazar", na qual, continuando com elogios a Abel Salazar, vai-lhe zurzindo forte e feio.

Nos F&D de 24 de Julho (nº 519), A. Sérgio diz que não vai prosseguir a polémica com Abel Salazar, que também teria declarado em carta a Pulido Valente, Ferreira de Macedo e Bento de Jesus Caraça ter decidido não prosseguir na discussão. Porém em 11 de Dezembro, numa "Explicação aos leitores da Seara Nova" Sérgio ataca com violência um artigo publicado na revista Sol Nascente, que, citando, tudo leva a crer que tal artigo é da autoria do Sr. Abel Salazar" e finalmente a 8 de Janeiro de 1938, nº 543, publica "Em Torno de um Complicado Caso de Consciência", em que ora elogia Abel, ora o maltrata. Quão longe ficou a nota de introdução ao primeiro artigo de Abel Salazar na Seara Nova e foi apenas nove meses atrás!

Entre José Régio e Álvaro Cunhal

José Régio

José Régio

A anterior paragem foi excessivamente longa, pelo que passando pouco depois por uma muito interessante polémica entre Gago Coutinho e Ruy Luiz Gomes sobre a teoria da relatividade, vou limitar-me a dizer que se encontra no essencial nos números 593, de 24 de Dezembro de 1938 e 599, de 3 de Fevereiro de 1939 (Gago Coutinho já abordara a matéria no nº 534).

Prosseguindo ainda pela estrada principal, vamos esbarrar com a conhecida polémica entre José Régio e Álvaro Cunhal. O primeiro já vinha publicando a algum tempo as suas "Cartas do nosso Tempo", designação que alterou para "Cartas Intemporais do nosso Tempo", por ter aparecido n'O Diabo a anterior designação, com autoria diferente. Estas três primeiras cartas intemporais têm o subtítulo comum "A um Moço Camarada, sobre Qualquer Possível Influência do Romance Brasileiro na Literatura Portuguesa", sendo dirigidas, não explicitamente, ao jovem Álvaro Cunhal, então com 25 anos (Régio teria 37; a expressão "moço camarada" não deve entender-se talvez no sentido político, mas como relativa a praticantes de um mesmo ofício de escrever). Seria tão interessante transcrever partes destas cartas, bem como da réplica de Cunhal, mas há pouco espaço no meio de transporte, pelo que me vou limitar à sua localização: nºs. 608, 609 e 611, todas de Abril de 1939, as três cartas de José Régio;"Numa encruzilhada dos homens", primeira réplica de Cunhal, seguida de uma talvez desnecessária nota de Câmara Reys, no nº 615, de 27 de Maio; depois a tréplica de José Régio, no nº 619 e nova posição de Álvaro Cunhal, publicada apenas no nº 619, com uma nota da redacção afirmando que a sua inserção fora retardada devido à acumulação de outros originais.

Álvaro Cunhal

Álvaro Cunhal

Tudo começa com uma objecção ao excessivo interesse pela literatura brasileira denunciado por Régio nas "Cartas do nosso Tempo" (não é dito expressamente, mas entende-se, que tem a ver com o cunho social especialmente do romance brasileiro de então) e vai desembocar nas características da intervenção do literato, entrando e optando na encruzilhada de caminhos em que a humanidade se encontrava ou preferindo manter-se como homem solitário. As peças acima citadas são de grande nível intelectual, numa perspectiva de são espírito de polémica e de respeito mútuo, exemplificando bem o que em minha opinião deve ser uma polémica profunda e educada.

Iludindo a Censura

Vamos tomar um atalho que nos vai levar directamente a 1942. Adolfo Casais Monteiro tem interessantes polémicas com Avelino Lima e com Luís de Montalvar, respectivamente sobre a Tuna e o Orfeão Académico de Coimbra, a que faz referências pouco abonatórias; e sobre o facto do último ter mandado apreender um opúsculo com uma pequena antologia de Fernando Pessoa - que só continha um inédito -, pois ele seria o editor legal das obras completas do Poeta.

Gago Coutinho, já em 1944, volta a polemizar, agora com Costa Brochado, sobre se os navegadores portugueses, em vida do Infante D. Henrique, conseguiriam viajar sem ser com terra à vista. Em 1947 César Nogueira e Piteira Santos envolvem-se em polémica sobre a história do movimento operário em Portugal.

E porque há que chegar ao fim da estrada, saltemos para 1966 apenas para registar bem interessante polémica entre Blasco Hugo Fernandes e Alfredo Videira sobre o papel da agricultura no desenvolvimento económico e depois para 1968 para assinalar uma polémica entre Magalhães Colaço e Lima de Freitas, que tem início no artigo deste "Estruturalismo, Genética e Arte", no nº 1470 de Abril.

E finalmente, já "sobre a meta", vamos deter-nos um pouco na polémica que opôs Mário Sottomayor Cardia a Pedro Ramos de Almeida. Este estava então na clandestinidade, como funcionário do PCP, partido a que na altura pertencia Cardia, pelo que usou os nomes supostos que se irão referir.

Na secção "Noticiários das Ideias" do nº 1505 (Março de 1971) foi inserida uma pequena notícia, intitulada "As Duas Filosofias de Ulianov", assinada por A.L. (suponho ser Albano Lima), em que era feita referência a duas obras filosóficas de Ulianov - "Materialismo e Empiriocriticismo" e "Cadernos Filosóficos". Pedro R. Almeida (como Manuel J.A. Teixeira) insurgiu-se contra o teor daquela notícia em artigo "Duas Filosofias e uma só Ambiguidade", publicado no nº 1508, de Junho de 1971, artigo este que Mário Sottomayor Cardia contestou no mesmo número da S.N., em artigo intitulado "Sobre Unidade do Ser e da Consciência e Teoria do Reflexo".

Ramos de Almeida (agora com o nome de Vasco Q. Fernandes) veio replicar com o artigo "Acerca do Materialismo de Ulianov e do Idealismo Seareiro" no nº 1513, de Novembro de 1971, que Cardia contestou com uma pequena nota "Desfazendo um Denso mas Frágil Nevoeiro".

Foi uma polémica viva e interessante, mas o leitor provavelmente perguntar-se-á: quem é esse tal Ulianov e o seu ulianovismo? Claro: referia-se a Lenin e ao leninismo ... e assim se iludia a censura fascista.

Cheguei ao fim desta extenuante viajem. Cansativa também para o leitor, mesmo que só tenha viajado em pequenos troços. Mas aqui fica um despretensioso registo, neste recordar os 90 anos da Seara Nova, das muitas polémicas que a Revista albergou nas suas páginas, representando ou a tolerância para com a diversidade de opiniões entre os colaboradores ou o incansável trabalho político contra o pensamento reacionário.

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