Notas de Leitura: No percurso de guerras coloniais

Nº 1718 - Inverno 2011
Publicado em Cultura por: J. C. (autor)

A guerra movida contra os povos de África, que legitimamente aspiravam e lutavam pela sua soberania e independência, obrigou muitas centenas de milhares de jovens portugueses a pegar em armas e entrar num longo conflito - iniciado em 1961 para terminar, apenas, em 25 de Abril de 1974 - que a generalidade do nosso Povo repudiava, facto este que os Movimentos de Libertação sempre reconheceram.

A violência do colonialismo de Salazar e Caetano, apoiado por exploradores grupos económicos e financeiros que detinham fortes interesses naqueles territórios, deixou profundas marcas na nossa sociedade e, como é evidente, na sociedade africana, nomeadamente no seio dos militares que de uma forma profundamente injusta foram forçados a combater.

Porém, foram muitos os portugueses que se recusaram a enfrentar e a matar guerrilheiros. Uns, ainda no nosso País, decidiram emigrar principalmente para a Europa. Outros, já em África, conseguiram desertar apesar dos imensos perigos que corriam.

Entre esses conscientes e corajosos jovens democratas, antifascistas e anticolonialistas, contava-se o Dr. Mário Moutinho Pádua, médico, o primeiro oficial português a desertar em Angola, em Outubro de 1961, acompanhado pelo cabo Alberto Pinto. Refugiaram-se os dois no Congo, então Leopoldoville, hoje República Democrática do Congo. Nesse País onde, como diz o escritor Pepetela, parecia inconcebível que soldados portugueses se recusassem a combater contra os angolanos. Sofreram, por isso, as suspeitas de serem infiltrados e a violência brutal do tratamento nas prisões. Depois do Congo, conseguiu partir para a Checoslováquia. Mais tarde, seguiu para Argélia onde acompanhou com entusiasmo a construção de um novo País independente. Finalmente esteve na Guiné-Bissau apoiando, como médico, o PAIGC.

Mário Pádua que, em 1963, publicou um livro intitulado Guerra em Angola lançou recentemente uma nova obra, No Percurso de Guerras Coloniais - 1961/1969, das edições Avante, com prefácio de Pepetela - que vivamente recomendamos aos leitores. Embora já haja alguns livros que historiam com mais rigor e isenção a problemática da injusta guerra colonial portuguesa, há aspectos que ainda não foram devidamente analisados. Mário Pádua relata-nos, em páginas que em muitos momentos nos emocionam, situações sobre as quais importa reflectir. Trata-se, sem dúvida, de um livro sério que enriquece a bibliografia existente no que diz respeito à guerra colonial desencadeada contra Angola.

A propósito, o autor assinala: Na Comunicação Social dominante em Portugal fervilham comentadores que se dizem objectivos. Porém, animados e protegidos pela vendetta, fogem à reconstituição do ambiente colonial. Em lugar de estudarem as raízes do movimento de independência, impõem aos leitores uma visão militar, tecnicista, dramática pelos grandes sacrifícios infligidos pela guerra a africanos e portugueses, mas desumanizada, porque ignora a brutalidade do colonialismo ao longo de vários séculos.

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