Pela Cultura e a Democracia

Nº 1717 - Outono 2011
Publicado em Editorial por: Revista Seara Nova (autor)

«Queremos agrilhoar ao pelourinho da infâmia, os «potentados do dinheiro» que dele se servem apenas para fazer a miséria de um povo”, assim afirmavam os fundadores»

 

 

«Pela “primavera” marcelista, a Seara Nova é, podemos dizê-lo sem tibiezas, o baluarte teórico da luta pelas liberdades e mesmo pela mudança de regime»

 

 

«Nos anos 80 do século passado reforçou-se a imperiosa necessidade deste espaço de reflexão e crítica, agora em nome da defesa dos valores e conquistas de Abril»

 

 

 

 

 

 

«A Seara Nova do século XXI reafirma a luta por uma sociedade mais justa, mais igual, mais fraterna e solidária»

 

 

«A Seara Nova tem um papel a desempenhar: ser revista onde se encontra um ideário coerente e consequente de todos os que não se resignam»

A Seara Nova celebra 90 anos! Foi em Outubro de 1921 que a revista iniciou a sua caminhada afirmando-se na altura que “a Seara Nova representa o esforço de alguns intelectuais, alheados dos partidos políticos mas não da vida pública, para que se erga, acima do miserável circo onde se debatem os interesses inconfessáveis das clientelas e das oligarquias plutocráticas, uma atmosfera mais pura em que se faça ouvir o protesto das mais altivas consciências, e em que se formulem e imponham, por uma propaganda larga e profunda, as reformas necessárias à vida nacional”.
Ao longo do seu percurso, nem sempre regular é certo, a Seara Nova tem procurado manter-se fiel ao espírito que presidiu à sua fundação.
“Queremos constituir na Seara Nova um núcleo de homens de boa consciência e vontade enérgica dispostos a assumir perante a espoliação, a rapina, o egoismo e a mentira nacionais uma violenta e sistemática atitude de protesto. Queremos apontar o dedo ao desprezo público os inimigos do bem comum, os que deitaram abaixo as estátuas de todos os altares, para prestar apenas culto ao Bezerro de Ouro. Queremos agrilhoar ao pelourinho da infâmia, os «potentados do dinheiro» que dele se servem apenas para fazer a miséria de um povo”, assim afirmavam os fundadores – Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Faria de Vasconcelos, Ferreira de Macedo, Francisco António Correia, Jaime Cortesão, José de Azeredo Perdigão, Câmara Reys, Raul Brandão e Raul Proença.
Assim o afirmamos hoje, imbuídos do sempre renovado espírito seareiro.
Nestes 90 anos de História, a revista viveu vários períodos. Desde logo, cinco anos após a sua fundação, o golpe de Estado que instituiu a longa noite fascista. Nas páginas da Seara Nova os opsitores da ditadura encontraram muitas vezes o ânimo para o combate necessário às atrocidades e ignomínia do regime.
Pela “primavera” marcelista, a Seara Nova é, podemos dizê-lo sem tibiezas, um importante ponto de reflexão dos demovratas e um baluarte teórico da luta pelas liberdades e mesmo pela mudança de regime. A revista volta a assumir de forma aberta a defesa do socialismo.
Com o 25 de Abril de 1974 e o novo cenário político, económico, social e cultural saído da Revolução, mas também as vicissitudes próprias do processo revolucionário, a Seara Nova entrou numa fase em que sobreviver se afigurou difícil. Porém, nos anos 80 do século passado reforçou-se a imperiosa necessidade deste espaço de reflexão e crítica, agora em nome da defesa dos valores e conquistas de Abril.
“A Seara Nova não pode proceder ainda como se a sociedade actual fosse a realização suprema da justiça; como se uma maior justiça social não fosse possível nem desejável; como se o socialismo não representasse uma promessa de realização dessa justiça. Todas as simaptias vão, pois, para os que lutam (…) pelo triunfo do socialismo”. Assim se preconizava no primeiro editorial de 1921.
Espaço aberto ao diálogo, ao debate de ideias, à pluralidade progressista e de esquerda, a Seara Nova do século XXI reafirma a luta por uma sociedade mais justa, mais igual, mais fraterna e solidária.
Ao comemorar 90 anos, anima-nos a convicção de que permanecemos como um projecto ímpar de comunicação social. Orgulhamo-nos e honramo-nos de, na última década, cerca de 300 homens e mulheres empenhados nos ideais progressistas, terem contribuído para estas páginas com colaborações sobre as mais variadas áreas do saber e do conhecimento.
Não tem sido uma caminhada fácil, mas é nossa convicção que a Seara Nova tem um papel a desempenhar: ser revista onde se encontra um ideário coerente e consequente de todos os que não se resignam perante as desigualdades, as injustiças, a incompetência, a mentira, a corrupção, a mediocridade que minam as democracias em que impera o capitalismo mais selvagem e opressor.
Com o actual número da Seara Nova iniciam-se as comemroações do 90.º aniversário. Até Setembro do próximo ano, diversas iniciativas serão realizadas como uma exposição, colóquios e debates, enfim, um conjunto de acções que visam, sobretudo, mostrar que a Seara Nova continua viva e actuante. De entre estas, destaque para o novo sítio da internet da revista que, desde já, pode ser consultado em www.seraranova.pt.
Este número é pois especial, embora não lhe tenhamos dado esse carácter, ou seja, mais uma vez um número da Seara Nova se torna especial pela qualidade das colaborações que encerra. Da capa ao Momento de Poesia, este número que marca o arranque das comemorações do 90.º aniversário está repleto de colaborações que, mais uma vez, muito nos honram.
São certeza que nos mantemos no caminho certo. Hoje, como há 90 anos.
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