Mesa Redonda: «O esforço que se faz em revistas como a Seara Nova é verdadeiramente heróico»

Nº 1717 - Outono 2011
Publicado em 90 anos Seara Nova por: Ana Goulart (autor), Herberto Goulart (autor)

António Reis
António Reis, historiador e professor universitário aposentado de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, e Fernando Correia, jornalista, professor universitário e director do Curso de Jornalismo da Universidade Lusófona, estiveram e participaram na renovação encetada na Seara Nova no início da década de 70. Ambos, com Sottomayor Cardia, integravam o secretariado do Conselho de Redacção da Seara e tiveram um papel determinante no sucesso alcançado pela revista naquele período. Para ajudar a recordar e perceber a vida da Seara Nova, aceitaram o convite para uma conversa animada sobre (quase) tudo.

Seara Nova - A Seara Nova foi actualizada e rejuvenescida, a partir da década de 60 do século passado. Em que consistiu e quais as características dessa designada “renovação”?

António Reis – Foi um período de renovação doutrinária com uma forte influência de intelectuais marxistas, com uma abertura às novas gerações da resistência antifascista e que veio fazer uma ruptura com o período anterior, iniciado em 1939 e concluído em 1958, que foi um período marcado sobretudo pela resistência cívica, pelo discurso reivindicativo das liberdades, na linha republicana tradicional, mas também por muitas dificuldades financeiras e por um certo enquistamento, um certo imobilismo. O director da Seara Nova da altura, Câmara Reys, reconheceu a necessidade de dar o salto em frente e convidou alguns intelectuais e resistentes ligados às novas gerações para levar a cabo esta renovação. Foi o caso do Manuel Sertório, que foi o director-adjunto do Câmara Reys nesse novo período, do Rui Cabeçadas, do Nikias Skapinakis, do Augusto Abelaira e também do António Lopes Cardoso. Penso que não me esqueço de ninguém. Estes constituíram o núcleo da revista que teve uma nova linha gráfica, tornou-a mais atractiva e, sobretudo, enriqueceu-a com novas colaborações, partindo do princípio anunciado no primeiro número dessa renovação de que era necessário e cito “desenvolver um amplo inquérito aos problemas actuais da gente portuguesa e proceder ao estudo e à articulação das soluções democráticas e socialistas ajustadas àqueles problemas”. Câmara Reys, entretanto, morre em 1961, praticamente dois anos depois do início desta renovação, e é substituído por um dos fundadores da Seara Nova, Augusto Casimiro que leva como director-adjunto Rogério Fernandes, que depois dirigirá a revista entre 1967 e 1969, ano em que é substituído por Augusto Abelaira. Este será director até 1973, dando lugar depois a Rodrigues Lapa que assegura a direcção até 1975. É neste período, com início nos anos 60, que a Seara dá um grande salto em termos de tiragem. Em 1957/58, a Seara não ia além dos mil exemplares de tiragem e tinha cerca de 700 assinantes efectivos; nos anos 60 passa rapidamente para os três, quatro mil exemplares de tiragem e o número de assinantes triplica, embora o grande período de crescimento venha a coincidir com o início do marcelismo, que marca um novo salto em termos de tiragem, de tal maneira que a revista em 1974, nas vésperas do 25 de Abril, já tirava cerca de 30 mil exemplares, dos quais 18 mil correspondiam a assinaturas. O que é inimaginável nos tempos que correm. Uma coisa absolutamente extraordinária que teve a ver com o recrudescimento da actividade oposicionista no período do marcelismo, em que ser assinante da Seara quase equivalia a ser militante do partido da oposição democrática. Outras revistas existentes na mesma área tinham uma tiragem muito inferior como era o caso da O Tempo e o Modo que não passava dos 500, 600 exemplares de tiragem. A Seara como que hegemonizava toda a oposição democrática, sobretudo no início dos anos 70, na sequência da grande campanha eleitoral da CDE em 1969. É também nesta altura que o Fernando Correia e eu nos juntamos ao [Sottomayor] Cardia, que já vinha da renovação anterior e constituímos o secretariado da redacção dessa época, onde existia um conjunto variado de pessoas, umas mais ligadas ao Partido Comunista, outras mais ligadas ao espaço do socialismo democrático que viria a dar o Partido Socialista, a partir de 1973, outras simplesmente socialistas ou independentes. É também neste período que a Seara mais investe na produção editorial, chegando a editar, nas vésperas do 25 de Abril, cerca de dois títulos por mês. O que também era absolutamente prodigioso naquela época.

Fernando Correia – Podemos falar em duas renovações. A renovação que é feita a seguir à campanha de Humberto Delgado e da qual o António já falou e uma segunda renovação – isto sem criar compartimentos estanques – que se situa na passagem dos anos 60 para os 70 até ao 25 de Abril. Recuando na História pode dizer-se que no percurso da Seara houve um primeiro período que foi do nascimento até meados dos anos 40, muito marcado por figuras como António Sérgio, Raul Proença; se quiséssemos dar-lhe um nome poderíamos designá-lo por republicanismo anti-integralista, contra o integralismo monárquico. Depois, um segundo período que vai de meados dos anos 40 até à campanha do Delgado, que é precisamente o que a partir de certa altura foi hegemonizado pelo Câmara Reys e que mantém o perfil anti-salazarista, mas ainda com grande predomínio dos aspectos republicanos, aquilo a que na altura chamávamos os “velhos republicanos”; apesar da evolução, havia

Fernando Correia

Fernando Correia

sob o ponto de vista prático uma grande irregularidade na periodicidade da publicação e uma certa desorganização. A campanha do Delgado de algum modo marca o início de uma viragem, em si própria e nas consequências que teve. Quando falamos dos anos 60 é indispensável falar da renovação da Seara, mas também da renovação do País, motivada pelo recrudescimento da luta antifascista, com a luta anticolonial, as “crises”académicas de 1961- 62, 65, e 69, o aumento da luta popular e das greves muito ligadas a uma fase de crescimento, rejuvenescimento e dinamização da ação clandestina e “legal” do Partido Comunista, na sequência da fuga do Álvaro Cunhal de Peniche. Tudo isto assente numa base muito ampla. A partir do início dos anos 70 dá-se o que se pode chamar uma segunda renovação, a que o António já se referiu, e que se caracteriza por uma orientação genericamente marxista, com diversas tonalidades e configurações ou diversas interpretações. Houve uma maior atenção à qualidade. A revista ganhou também o reforço de uma secção que era aquela que era mais fácil de ler, mas que do ponto de vista político tinha muita importância que era a “Factos e Documentos” da qual todas as pessoas falavam. Houve a capacidade e o espírito de iniciativa para criar o tal secretariado da redação, em bases semi-profissionais, de que faziam parte o Cardia, o António Reis e eu, cuja simples existência, independentemente das pessoas, criou as condições para uma maior capacidade de resposta, maior agilidade, maior atenção à actualidade, maior facilidade nos contactos com os colaboradores. Este aspecto organizativo parece-me essencial porque até aí imperava um certo amadorismo, compreensível dado que cada um tinha a sua profissão. Nós também tínhamos outras coisas que fazer, mas quase todos os dias íamos à revista. Houve pois uma renovação no conteúdo, mas que foi facilitada e impulsionada pela existência de uma estrutura de apoio, como o António referiu.

António Reis – Tínhamos uma reunião semanal da redacção em que era feita a planificação do número seguinte e uma apreciação do número que tinha acabado de sair. Todos os membros da redacção davam o seu contributo para o número seguinte.

Seara Nova – Foram referidos alguns nomes mas há outros que, para além de vocês contribuíram para essa renovação. Querem recordá-los?

Fernando Correia – Para além de nós os três, havia, naturalmente, outros nomes pertencentes ao grupo da Seara e à redação, sendo que uns escreviam mais, outros menos. Por exemplo, José Garibaldi, Alberto Pedroso, Lopes Cardoso, Gilberto Lindim Ramos, António Melo, Augusto Abelaira, Vasco Martins, Carlos Prazeres Ferreira, Mário Ventura Henriques, Ulpiano do Nascimento, Manuel Sertório, Pedro da Silveira, que foi durante muitos anos o revisor das provas… São ainda de destacar colaboradores mais ou menos assíduos, que escreviam sobre temas específicos, mas cujos nomes marcaram a revista, como, no Cinema o Machado da Luz e o José Vaz Pereira; na Economia o Sérgio Ribeiro, o Blasco Hugo Fernandes,o Gilberto Lindim Ramos e o Carlos Carvalhas; na Crítica de Livros o Urbano Tavares Rodrigues e o José Saramago; na Crítica de Teatro o Artur Ramos, nas Artes Plásticas o Lima de Freitas...

António Reis – E o Rocha de Sousa.

Fernando Correia – O Correia da Fonseca acompanhava a Televisão. Na área do Internacional tínhamos Manuel Sertório, Alberto Villaverde Cabral, Garibaldi e Albano Lima. Havia uma pessoa que acompanhava muito os sindicatos que era o Marcelo Curto...

António Reis – Os sindicatos e o mundo laboral, o Francisco Marcelo Curto.

Fernando Correia – Na Música o Mário Vieira de Carvalho e passámos a ter um cartoonista que era o Sam. Recordo-me que o Sam, que não era uma pessoa muito politizada, ficava desolado quando via as suas coisas cortadas pela Censura

António Reis – Ele ocupava muitas vezes a contracapa e era de facto uma vítima impiedosa da Censura.

Fernando Correia – Depois do 25 de Abril abundaram os cartoonistas, mas antes era muito raro. Outro colaborador importante e que foi director da revista ainda nos anos 60 foi o Rogério Fernandes. Em relação a nomes são estes que recordo, de certeza faltarão outros.

Seara Nova – Neste período, a Seara Nova afirmou-se com características muito claras, como revista de pensamento progressista e acção coerente. Como definem o designado “espírito seareiro” na envolvência da Seara Nova?

António Reis – Posso defini-lo recorrendo a um parágrafo da minha entrada no Dicionário de História do Estado Novo, em que defino os seareiros e o espírito seareiro como designações não tanto de uma corrente política ou partidária formalmente estruturada, mas sim como designações de “sucessivas gerações de intelectuais animados de propósitos de doutrinação política e reflexão crítica sobre os grandes problemas nacionais, condição prévia para uma mais eficaz acção política e sem obediências dogmáticas ou sectarismos”. Isto parece ser o traço comum às sucessivas gerações de intelectuais ditos seareiros. Evidentemente que ao longo de cinquenta anos da revista, até ao 25 de Abril, assistiu-se a uma inevitável evolução das linhas de orien tações seguidas.

António Reis e Fernando Correia

António Reis e Fernando Correia

Umas determinadas pelas alterações ocorridas no contexto político envolvente, com a passagem à ditadura do Estado Novo primeiro e ao próprio processo revolucionário do 25 de Abril. Mas também outras orientações ditadas pela progressiva influência do pensamento marxista nos círculos intelectuais, sobretudo a partir da década de 50.

Fernando Correia – Não tenho muito a acrescentar. O espírito seareiro é, no fundo, uma plataforma antifascista traduzida na publicação de uma revista. Isto talvez para distinguir um pouco do espírito seareiro anterior, nomeadamente na primeira fase da República e mesmo posteriormente que tinha uma identidade política muito própria – não esqueçamos que em determinado momento o Grupo Seara Nova chegou a indicar pessoas para o Governo – no período anterior ao fascismo, claro.

“Se quisermos definir duma maneira exacta o que caracteriza o estado actual da sociedade portuguesa, não podemos fazê-lo melhor que por meio destas palavras: a obstinação no contrasenso. Com uma teimosia que tem o seu quê de infantilidade e desvario, perseveramos em tentar a cura dos males nacionais por meio de métodos terapêuticos de que a experiência demonstrou a ineficácia absoluta. E nada nos impede, nada, nem a lembrança dos mais negros crimes, nem a compreensão mais elementar das conveniências nacionais, de prosseguir no fazer e desfazer da mesma teia de Penélope, em cujas malhas de morte se enreda e compromete o país. (…) Nada há porventura mais difícil do que salvar Portugal da tremenda situação a que chegou. É um dos trabalhos de Hércules. Só uma consciência muito nítida dos problemas nacionais, uma grande competência, faculdades máximas de organização e de direcção, uma vontade capaz de todas as obstinações e de todos os heroismos, e uma larga corrente de opinião esclarecida, impondo e apoiando uma política de salvação nacional – só um conjunto tão precioso de recursos intelectuais e morais poderá fazer sair Portugal do abismo a que chegou”.

Raúl Proença
Seara Nova, n.º 9
1 de Março de 1922

Director de 1921 a 1941

“Os Estados Unidos da América do Norte, não tendo sancionado a obra de Wilson [presidente dos EUA] em Versalhes, convocaram uma conferência para Washington, onde se discutam os problemas dos armamentos e dos interesses mundiais no Pacífico. Tendo o tratado de Versalhes incluído, entre as suas cláusulas, a criação da Liga das Nações, tanto o convite da América do Norte como a sua aceitação por parte das grandes potências constituem mais um desprestígio para esse parlamento internacional do pacifismo, em que a boa vontade de Bourgeois [primeiro presidente da Sociedade das Nações] e mais algumas figuras valiosas não consegue dominar a quase completa esterilidade da acção, avultando principalmente, ao espírito de todos, as enormes despesas dessa vistosa Liga. Toda a política europeia, depois da grande guerra, continou a ressentir-se dos vícios antigos da velha diplomacia. Não tiveram o culto da verdade, os diplomatas das grandes potências. Espalharam aos quatro ventos da falsidade e do dolo, fingidas promessas de Justiça e de Direito; verberando o chanceler alemão por considerar os tratados como «farrapos de papel» e afirmando que sustentavam a guerra com fins desinteressados de liberdade e independência, mentiam, desrespeitando a memória de tantos heróis e mártires. Não queriam um palmo de terra conquistado e inventaram os mandatos hipócritas nas colónias. Prometiam a emancipação dos proletários e a plutocracia ainda mais se acentuou”.

Câmara Reys
Seara Nova, n.º3
20 de Novembro de 1921

Director de 1941 a 1961

António Reis – É a fase do Grupo Seara Nova, em que a revista é mesmo um órgão do Grupo Seara Nova.

Fernando Correia – Exacto. O espírito seareiro surge mais ligado a uma plataforma antifascista que tinha gente desde os católicos progressistas até ao espectro de que o António referiu: comunistas, socialistas, independentes, ex-golpistas, ou seja, gente que não era propriamente radicalista no sentido do esquerdismo que nos anos 70 existia e com grande dinamismo, mas que não tinha expressão na Seara. Era de facto uma unidade antifascista que do ponto de vista político se traduzia na CDE e, em determinada altura, na CDE e na CEUD. Havia duas traduções políticas mas ambas, em termos de Seara, estavam integradas. Por isso é que falo de unidade antifascista, que é um termo suficientemente abrangente para se perceber que havia pessoas com sensibilidades diferentes, mesmo no próprio secretariado da redacção.

António Reis – Um antifascismo de tendência declaradamente socialista. Não era apenas o velho republicanismo, embora com cambiantes e interpretações diversas do socialismo.

Fernando Correia – O espírito seareiro é evolutivo. Não há um espírito seareiro que se possa definir ao longo de 90 anos de vida. Em cada fase histórica da vida económica, política e cultural do País, o espírito seareiro não se foi adaptando, mas foi interpretando o seu papel antifascista de diversas maneiras de acordo com a evolução das lutas sociais, políticas.

Seara Nova – Em 1971, a Seara Nova comemorou o seu cinquentenário. Há a destacar nas comemorações a participação de vultos das várias correntes de pensamento e com relevância nas artes plásticas. Como explicam esta situação numa revista assumidamente de esquerda e que, desde a sua fundação, se reclama defensora de ideais socialistas?

António Reis – Curiosamente a expressão socialismo surge pela primeira vez em 1923 quando António Sérgio se reúne ao grupo fundador. É ele que impõe ou que traz essa orientação de carácter socialista. O socialismo à Sérgio. Mas é aí que a revista se define como de orientação socialista. Republicana e socialista.

Fernando Correia – O socialismo da Seara, tal como o próprio socialismo propriamente dito, enquanto concepção e enquanto prática teve uma evolução que no tempo do Sérgio e do Proença seria uma coisa e que mais tarde seria outra. Mas respondendo à pergunta é indispensável ligar todas as iniciativas do 50.º aniversário ao momento que se vivia e que teria uma expressão renovada no pós-25 de Abril. A acção nas cooperativas, os debates, os colóquios, etc, o canto livre, os baladeiros como Zeca Afonso, Adriano [Correia de Oliveira], o padre [Francisco] Fanhais e outros, o papel da imprensa clandestina, a do Partido Comunista mas não só, e uma questão que ganha uma expressão geracional importante que são as lutas académicas – os estudantes entretanto formaram-se e tornaram-se trabalhadores intelectuais (aliás, se virmos os colaboradores desse período é gente que vinha das lutas académicas e outras dos anos 50 e 60) – tudo contribuiu para esse movimento de dinamização cultural. Qual o papel da Seara? Poder-se-ia diz

Fernando Correia e António Reis

Fernando Correia e António Reis

er que era a ala teórica, o alimento teórico, a bengala teórica, deste movimento de dinâmica de esquerda e antifascista que havia na sociedade. Não podemos esquecer o papel da Vértice que inclusivamente nesta altura também atravessou uma fase muito dinâmica com jovens como o José Carlos Vasconcelos, o Assis Pacheco, o Vital Moreira e outros, que acrescentaram à tradicional vocação literária da revista uma componente mais interventiva e introduziram um caderno de actualidades. Mas a Vértice, dada a sua natureza, não tinha o papel político e ideológico que a Seara tinha.

António Reis – Parece-me importante sublinhar que em todo este processo de 1968 a 1974, a Seara contribuiu fortemente para que a oposição democrática ultrapassase o discurso tradicional das reivindicações pelas liberdades cívicas e passasse a defender um modelo alternativo de sociedade centrado no socialismo, interpretado e configurado de diversas maneiras. Há um salto qualitativo no discurso da oposição democrática nos anos 60 e princípio dos anos 70 que se deve à influência teórica da Seara Nova, neste período.

Fernando Correia – É nesse sentido que falo de ala teórica.

António Reis – É muito bem escolhida a expressão.

Fernando Correia – Nessa altura inclusive o movimento de oposição democrática era mais amplo que anteriormente.

António Reis – O que se vai traduzir nas teses aos congressos da oposição democrática, nomeadamente no de 1973, em que o salto qualitativo em relação aos congressos anteriores é enorme.

Seara Nova – Desde finais dos anos 60 que a Seara Nova assistiu (e participou) a grandes acções de luta democrática em Portugal: II Congresso de Aveiro, acções pelo recenseamento eleitoral, campanha eleitoral de 1969 e criação das CDE’s, III Congresso de Aveiro, incidentes da Capela do Rato, campanha eleitoral de 1973 … e, finalmente, o 25 de Abril. Como avaliam a expressão destas acções nas páginas da revista e o que significaram para o seu desenvolvimento e a sua afirmação?

Fernando Correia – O que dissemos de algum modo responde a essa questão.

António Reis – Talvez seja bom precisar alguma coisa. A redacção da Seara Nova como tal não agia à semelhança de um partido político. Ou seja, não organizava acções, intervenções, ou indicava quem devia integrar a CDE ou a CEUD. Cada um individualmente participava, agia, tomava iniciativas e quando estávamos na Seara trocávamos impressões, acompanhávamos e escrevíamos sobre essa actualidade e o que se passava no País e sobre as acções da oposição.

Seara Nova - Não foi muitas vezes necessária bastante habilidade e enorme paciência para fintar as malhas da censura ou do exame prévio? Querem evidenciar casos curiosos?

António Reis – O Fernando tinha mais prática nisso porque era ele que normalmente lidava com os censores.

Fernando Correia – O Cardia também. Os censores não eram intelectuais, mas por vezes recorriam a conselhos e opiniões de gente do regime com outros conhecimentos. Os artigos da Seara eram artigos mais teóricos, tirando os Factos e Documentos e isto permitia que pudéssemos contar, por um lado, com a ignorância deles, e por outro, utilizar alguns pequenos truques que eram óbvios para quem lia, mas que passavam na Censura. Por exemplo, a adaptação dos nomes. Não se escrevia Karl Marx, mas citava-se muitas vezes o Carlos Marques.

António Reis – O Lenine era o Ulianov.

Fernando Correia – Nome que surgiu numa polémica entre o Cardia e o Pedro Ramos de Almeida e que começou a ser utilizado. Ao Peter Weiss, um célebre dramaturgo alemão, antifascista, chamávamos Pedro Branco. Estes nomes para os censores eram perfeitamente inofensivos, para os leitores da Seara eram perfeitamente compreensíveis. Havia também a utilização de alguns sinónimos. A dialéctica era um termo muitas vezes cortado, portanto os autores passaram a usar a palavra diamática.

António Reis – Exactamente. Era o materialismo dialéctico.

Fernando Correia – Eram pequenos truques que serviam para, apesar de tudo, fazer passar mais alguma coisa pela Censura.

António Reis – De qualquer maneira, questões como a Guerra Colonial eram perfeitos tabus. A única maneira que tínhamos de a abordar era através de excertos de discursos de entidades oficiais, nomeadamente do ministro da defesa, nos Factos e Documentos. Eram excertos que podiam fazer passar uma mensagem crítica. Na parte ideológica havia “alguma benevolência” da Censura. Tínhamos uma secção, que foi uma das melhores da revista dessa altura, chamada “Movimento das Ideias”, onde houve polémicas ideológicas em torno das próprias interpretações do marxismo, como foram os casos do Cardia com o Pedro Ramos de Almeida, que era funcionário clandestino do Partido Comunista e escrevia sob o pseudónimo de Manuel A. J. Teixeira, e de uma polémica que tive com o Vital Moreira, entre Março e Abril de 1974, sobre o Marcuse em que defendia a perspectiva marxista do Marcuse, a qual o Vital Moreira contestava, numa concepção mais ortodoxa do marxismo. Os censores ainda riscaram algumas coisas, mas o grosso da discussão passou. Penso, no entanto, que até se deviam regozijar com as divergências entre marxistas.

Fernando Correia – Mesmo que não percebessem, apenas suspeitassem, preferiam cortar. Nós às vezes recorríamos das decisões, quase sempre em vão, ou passado um tempo mandávamos novamente os textos censurados, o que de vez em quando dava resultado, porque o censor que via já não era o mesmo que antes havia cortado… Referir só algumas notas sobre os Factos e Documentos que, no meu entender, foi uma secção que marcou a Seara. Por boas e más razões. Quando digo boas porque tinham audiência, quando digo más porque era a secção mais fácil de ler. Havia três tipos de textos, recortados da imprensa, uns claramente, ostensivamente, ridiculamente apologéticos do regime e que principalmente eram retirados da imprensa regional, mas muitas vezes escritos por deputados, ou seja, figuras do regime. Aí guiávamo-nos pelo ridículo. Havia as noticias ou reportagens que apareciam na imprensa e deixavam transparecer a miséria do povo e a degradação do regime. E um terceiro grupo que eram os discursos oficiais. Os Factos e Documentos não eram uma forma de combater, nem de denunciar a situação política, diria que eram mais quase uma forma de divertimento que mostrava algumas coisas e que expunha as fragilidades, as incoerências e até a estupidez do regime. Em determinado período havia duas pessoas que eram fundamentais para os Factos e Documentos: o Presidente da República Américo Tomás e o Governador Civil de Lisboa, Afonso Marchueta que diziam coisas perfeitamente incríveis.

Seara Nova – A Seara não chegou a ser proibida de publicar excertos dos discursos do Américo Tomás?

Fernando Correia – Proibida não, pelo menos que me lembre, mas muitas vezes cortavam. Quando falo de discursos oficiais lembro-me de um caso que foi a encíclica Populorum Progressio, do Paulo VI, em 1967, em que a Seara encheu a contracapa com citações do Papa, sem nenhum comentário, porque aquilo que ele dizia dava uma perfeita noção da incompatibilidade entre o capitalismo e o bem-estar das pessoas. Sobre os Factos e Documentos dizer ainda que explorávamos algo que a Censura nunca percebeu muito bem. Não enviávamos os Factos e Documentos todos juntos para a Censura, isto é, mandávamos hoje dois ou três recortes, uns dias depois outros, e assim sucessivamente. Como os censores tinham turnos apreciavam-nos isoladamente, mas quando eram publicados na Seara, apareciam em conjunto. Claro que isto também valeu que não pudéssemos publicar os Factos e Documentos porque, às vezes, eram todos cortados, mas de uma maneira geral eram publicados em todos os números.

Seara Nova – A vossa opinião, sem tibiezas, sobre a actual Seara Nova, isto é, em que medida a qualidade e amplitude das colaborações, o espírito de abertura, o empenho na luta pela cultura, pelo progresso e pela justiça social vão na senda do espírito seareiro?

António Reis – A Seara actual mantém o essencial do espírito seareiro, sem dúvida. Há um leque de colaboradores de diferentes tendências políticas e ideológicas que mantêm vivos estes ideais da luta pela cultura, pelo progresso, pela justiça social. Isso não está em causa. O que mudou sobretudo foram os tempos. O que faz pensar no sentido de uma revista desta natureza nos tempos actuais. Na I República havia uma conjuntura especial que ditou a fundação e a existência de uma revista com estas características e de um grupo político como era o da Seara Nova. No Estado Novo impôs-se a luta contra a ditadura e pelas liberdades e a partir de certa altura também por um modelo político e económico alternativo que era o socialismo e que durou até ao 25 de Abril. A seguir a este houve um período turbulento em que a revista tinha de se situar de uma maneira diferente e, a meu ver perdeu, um pouco o espírito seareiro, tornou-se sectária. Com a renovação a partir dos anos 80, a Seara tem procurado readquirir esse espírito seareiro, alargando-se a várias correntes, mas a democracia se tem grandes vantagens também cria alguns efeitos perversos; torna um pouco mais difícil encontrar um espaço útil e atractivo para este tipo de revista. Não é apenas o caso da Seara Nova, é o caso de outras tentativas que existem neste espaço de reflexão política e ideológica. O caso da Vértice, da Finisterra que nasceu de uma fundação ligada ao Partido Socialista e enfrenta também dificuldades semelhantes a esta nova Seara Nova. Há um público cada vez mais reduzido para este tipo de revistas. É esse o grande problema que enfrentam. O esforço que se está a fazer em revistas como a actual Seara Nova, como a Finisterra

, como a Vértice, é um esforço verdadeiramente heróico e que não é suficientemente reconhecido. Infelizmente é assim, mas é preciso manter a chama e evitar o completo vazio ideológico, o completo vazio de ideias que ocorreria se revistas como estas não continuassem a existir.

Fernando Correia – Há duas Searas, como aliás, há duas Vértices. Antes do 25 de Abril, não sendo a Seara Nova um grupo organizado do ponto de vista ideológico, como aconteceu na I República. Mas apesar de tudo era a tal plataforma antifascista, onde era possível, útil e necessário uma unidade dentro dos moldes de que já falámos. A última expressão desta fase do espírito seareiro dá-se quando a Seara Nova participou no 1.º de Maio de 1974 com um pano e publicou inclusivamente um número especial no próprio Maio de 1974 e feito em cima do 25 de Abril com depoimentos, nomeadamente (haverá mais um ou outro de que me não lembro) do director Rodrigues Lapa, do Lopes Cardoso, do Sottomayor Cardia, do António Reis, do Ulpiano Nascimento e meu. Este número especial e a participação com um pano na manifestação de algum modo marcou o fim de uma fase do espírito seareiro, ao qual se seguiu uma outra fase do espírito seareiro que é perfeitamente compreensível e justificada. Porque na antiga Seara tínhamos Censura, tínhamos proibição de partidos políticos, não havia liberdades em todos os sentidos. O 25 de Abril trouxe a criação de partidos políticos, a criação de jornais sem censura, isto é, trouxe a possibilidade de participação na vida política activa. As componentes que estavam juntas e dentro do espírito seareiro passaram então a ter expressão própria, sob o ponto de vista político-partidário, sob o ponto de vista da escrita em órgãos com identificações claras. Por outro lado, também apareceu uma coisa importante para um público maioritariamente composto por trabalhadores intelectuais como o da Seara, que foi a possibilidade de trabalho académico, de investigação, de ocupar lugares que até então não era possível, incluindo no próprio aparelho de Estado. Criaram-se assim condições que, inevitavelmente, tiraram, roubaram, impediram que o espírito seareiro e publicações como a Seara, e como a Vértice, conseguissem manter a vitalidade, a dinâmica, a capacidade e o espírito de intervenção que tinham antes. Com uma divisão entre, por um lado, uma esquerda no sentido amplo e, por outro, uma direita bem definida, começarão a surgir condições para revistas como a Seara, não digo voltarem ao que eram porque as situações são diferentes, mas voltarem a ter uma viabilidade diferente. Continuando a haver diferenças entre os grandes partidos da esquerda, o Partido Comunista e o Partido Socialista, isto criou um espaço mais favorável a uma certa recapacitação de revistas como a Seara Nova a terem um espaço. Um espaço que é cada vez mais importante. Quanto mais as forças que sejam consequentemente de esquerda virem necessidade de se juntar e de se unir, mais condições haverá para revistas como esta. Quando digo isto não falo só do hoje nem do amanhã, mas de um projecto que já tem uns anos, bem interpretado por vós.

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