Legislativas 2011 - Direita recolhe 50 por cento dos votos

Nº 1716 - Verão 2011
Publicado em Nacional por: Redaccao Seara Nova (autor)

As eleições legislativas do passado dia 5 de Junho ditaram a vitória da direita: PSD e CDS, juntos, alcançaram 50,37 por cento dos votos. Com a pior votação dos últimos 20 anos, o Partido Socialista viu recusada nas urnas a política que desenvolveu durante seis anos. A CDU saiu reforçada na sua presença no parlamento ao eleger mais um deputado, enquanto que o Bloco de Esquerda viu a sua votação diminuir quase para metade do que havia alcançado em 2009.

O PS perdeu 17 por cento do seu eleitorado, entre 2005 e 2009, o que corresponde a mais de um milhão de votos (1.015.938). Este resultado vem na continuidade de descida dos socialistas já verificado em 2009 e é elucidadtivo da derrota sofrida. Embora tendo registado uma subida, em termos percentuais, de cerca de 10 pontos, o PSD não absorveu a totalidade do eleitorado que havia votado PS; muitos foram os que preferiram não ir às urnas. Também o CDS sobe mais de um ponto percentual na comparação dos resultados obtudos em 2009 e 2011, conseguindo agora mais de 650 mil votos.

À esquerda do PSD a CDU foi a única força que conseguiu melhorar os resultados; embora tenha perdido cerca de seis mil votos, a coligação de comunistas e ecologista registou uma subida percentual e conquistou mais um deputado, eleito pelo Círculo Eleitoral de Faro.

Quanto ao Bloco de Esquerda é de assinalar a forte perda de eleitorado: menos 268.973 votos do que em 2009 e uma redução no número de deputados de 16 para oito. (ver quadro)

Os resultados alcançados pelos partidos de direita derivam em grande medida de uma campanha eleitoral marcada pela ideia dominante na comunicação social, e assumida pelos analistas e comentadores enfeudados aos grandes interesses económicos e financeiros, da inevitabilidade de pôr em prática o acordo estabelecido com a troika FMI/UE/BCE, como única possibilidade de Portugal superar a grave situação de recessão económica em que se encontra. Nunca uma campanha eleitoral foi tão manipulada pela comunicação social que, num comportamento indigno de quem tem o dever de informar, se mobilizou para fazer da política uma chicana, enaltecendo o fait divers e escamoteando as propostas, nomeadamente as que se apresentavam como alternativa às políticas seguidas nos últimos 35 anos.

Os resultados eleitorais são também o repúdio por essas mesmas políticas perseguidas igualmente pelo PS como o demonstraram os governos de José Sócrates. No entanto, ao pretender castigar pelo voto o comportamento do PS enquanto governo, o eleitorado acabou por perpetuar essas mesmas políticas, o que em grande parte deriva da mistificação e da mentira que pautaram a campanha dos partidos de direita, mas também do facto das medidas acordadas com a troika não se fazerem ainda sentir, uma vez que serão implementadas pelo novo governo. Essas e outras, dado que Pedro Passos Coelho já fez saber que está disposto a ir mais longe que o estipulado no memorando FMI/UE/BCE.

O descontentamento e desencanto com estas mesma políticas reflectiu-se ainda nos níveis de abstenção - mais de 40 por cento - e no aumento dos votos brancos e nulos, o que também terá beneficiado os partidos da direita.

As legislativas do passado mês de Junho deram a possibilidade à direita de atingir o objectivo há muito perseguido, ou seja, uma maioria parlamentar, um governo e um Presidente da República. Um cenário que tornará ainda mais difícil a vida dos portugueses e que terá de contar com a sua forte determinação para os combates que se afiguram como necessários para defender os valores de Abril, desde logo, combater os retrocessos sociais e culturais que, analistas e comentadores de serviço consideram imprescindíveis e, nesse sentido, já vêm a terreno defender a revisão constitucional como forma de os consagrar.

No País mais desigual da Europa, a direita continuará a favorecer os grandes interesses económicos e financeiros em detrimento dos direitos de quem trabalha e trabalhou. Isso mesmo ficou claro quando Passos Coelho e Portas reafirmaram a disponibilidade para cumprir o acordo estabelecido com a troika, no que foram secundados pelo PS, com o líder da bancada parlamentar socialista a afirmar no próprio dia 5 de Junho que o seu partido iria satisfazer as imposições estrangeiras. Um cenário que poderá efectivamente conduzir à descaracterização da actual Constituição da República se o PS se submeter ao PSD e ao CDS com vista à sua revisão.

Os tempos que se avizinham não serão fáceis para o povo português. Sustentados por um Presidente da República, que numa manifesta falta de ética democrática reuniu com Passos Coelho antes de ter ouvido os partidos com assento parlamentar, PSD e CDS vão impor novos e mais gravosos sacrifícios ao povo português, governando sob os ditames da troika estrangeira, aprofundando as políticas neoliberais e atacando os direitos económicos, sociais, culturais e ambientais.

A vontade de privatizar manifestada por diversas vezes pelo líder do PSD colocará em causa pilares essenciais do Estado social, como o direito à saúde, ao ensino e à solidariedade social. A anunciada redução da Taxa Social Única evidencia claramente que o novo governo é um instrumento submisso aos interesses do capital.Os portugueses e as portuguesas ver-se-ão confrontados com a perda de rendimentos, seja pela redução de salários, reformas e pensões, seja pelo aumento de impostos, seja ainda pelo aumento geral do custo de vida. Não é difícil prever o aumento do desemprego, da pobreza, da exclusão social e das desigualdades.

O último acto eleitoral não cumpre a esperança de muitos dos que votaram no sentido da mudança. Bem pelo contrário. Não será pela continuidade e aprofundamento das políticas neoliberais que Portugal conseguirá recuperar da grave recessão económica para que foi lançado e que o Povo verá cumprida a justa e legítima aspiração de uma vida melhor.

Ver todos os textos de REDACCAO SEARA NOVA