Luís de Azevedo

Nº 1716 - Verão 2011
Publicado em Memória por: Redaccao Seara Nova (autor)

A Seara Nova perdeu um dos seus grandes amigos. O Dr. Luís Nuno Pinheiro de Azevedo, cidadão exemplar que, por diversas vezes, enriqueceu as páginas da nossa revista com colaborações onde expunha com clareza as suas opiniões, nomeadamente sobre os problemas relacionados com a Justiça.

Personalidade muito considerada no foro português chegou a ser escolhido por respeitados e progressistas causídicos para concorrer ao cargo de Bastonário da Ordem dos Advogados. Instituição esta que ainda recentemente o homenageou, numa solene e concorrida cerimónia, entregando-lhe a Medalha de Ouro em reconhecimento pelo alto contributo de Luís de Azevedo para a dignificação do exercício da Justiça e da advocacia em Portugal.

Acompanhava desde sempre a actividade da Seara Nova. E quando a revista, na década de oitenta do século passado, foi confrontada com sérias dificuldades que puseram em perigo a sua sobrevivência, o Dr. Luís de Azevedo teve um papel determinante na constituição de uma cooperativa de amigos seareiros, de que recordamos Fernando Piteira Santos, Ulpiano Nascimento, nosso director, Rui Grácio, Jacinto Baptista, Aquilino Ribeiro Machado, Luís Francisco Rebelo, Salgado Zenha, além do próprio Luís de Azevedo.

De profundas convicções democráticas, participou e acompanhou sempre acções de diversa índole contra a ditadura fascista e, como Homem de grande dimensão humana, defendeu nos tribunais plenários cidadãos cujo o único crime era o de lutarem pela liberdade, contra a censura, pela democracia, por melhores condições de vida e pelo bem-estar social do Povo, enfim, contra a violência fascista que se abateu sobre o País, durante quase meio século.

O escritório de advocacia, que partilhava com outros dois democratas e deputados constituintes, drs. Levy Baptista e José Lopes de Almeida, era ponto de encontro de antifascistas. Ali funcionou a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos que desenvolveu, apesar das dificuldades criadas pela PIDE, corajosa e intensa actividade de apoio aos prisioneiros e aos seus familiares, vítimas das arbitrariedades da polícia política do regime fascista.

Também foi naquele local que se constituíram a URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses – e a Associação Portuguesa dos Juristas Democratas de que Luís de Azevedo era o principal impulsionador.

Depois do 25 de Abril desempenhou um papel muito importante no processo da Reforma Agrária e, nos tribunais, defendeu as Unidades Colectivas de Produção contra as ofensivas dos latifundiários e da legislação aprovada para favorecer o retorno à situação anterior.

Também defendeu militares do Movimento das Forças Armadas saneados no 25 de Novembro. Foi, ainda, patrono do Marechal Costa Gomes no processo que lhe foi movido pelo eng.º Jorge Jardim que pretendia ver condenados, através de Costa Gomes, os militares de Abril que possibilitaram uma das mais exaltantes conquistas da Revolução, a descolonização. Não o conseguiu porque perdeu a causa.

Homem de esquerda, unitário, nunca hesitou na firmeza com que seguia os princípios éticos, morais e políticos que sempre o nortearam. Foi dirigente do MDP/CDE. E quando coerentemente abandonou aquela organização continuou a sua actividade cívica na Associação Intervenção Democrática-ID – actual proprietária da Seara Nova – de que, há 24 anos, foi um dos fundadores e, desde o primeiro dia, seu presidente da Assembleia Geral.

Transparente como era, insurgia-se contra a mentira, contra truques ou habilidades desonestas de gente sem moral que afastava do seu convívio.

Na reuniões políticas em que participava, no seio da ID ou publicamente, não receava expor os seus pontos de vista mesmo que controversos. Mas sabia aceitar os que apresentavam outros argumentos contrários aos seus e que considerava justos.

Nos últimos tempos encarava com extrema apreensão a situação política, económica, social e cultural criada à generalidade do Povo português por sucessivos governos que, ao longo de mais de três dezenas e meia de anos, adoptaram políticas submissas aos interesses dos grupos económicos e financeiros, nacionais e internacionais em detrimento dos verdadeiros e patrióticos interesses do País.

Expressava, então, a necessidade de toda a esquerda, dos trabalhadores, dos jovens, prosseguirem na luta contra as políticas de direita, contra o neoliberalismo, contra a corrupção, contra as prepotências do patronato sem escrúpulos. E revoltava-se pelo facto dos destinos do nosso País estarem a ser determinados por instituições capitalistas internacionais numa intolerável ingerência a que, como afirmava, é preciso pôr rapidamente termo.

Como pessoa que não aceitava quaisquer religiosidades ou misticismos, foi fundador e administrador da Fundação Internacional Racionalista-FIR – uma ideia do Eng.º Luís Barreiros Marques que também foi um bom amigo da nossa Revista – que patrocina, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Cátedra A Razão, cujo primeiro presidente do seu Conselho Científico foi o Prof. Doutor Eduardo Chitas, cuja morte inesperada tanto o entristeceu.

A Seara Nova ao relembrar Luís de Azevedo presta homenagem a um Homem de Paz, defensor da Paz que criticava com dureza e com razão as guerras e invasões promovidas pelos EUA e pela NATO e as ingerências estrangeiras, cada vez mais numerosas, nos destinos de países livres e independentes e dos seus povos sujeitos às maiores atrocidades.

A Seara Nova apresenta à família deste Homem de grande carácter a sua solidariedade neste momento tão triste e difícil que atravessa.

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