Resistência - dever inadiável

Nº 1716 - Verão 2011
Publicado em Editorial por: Revista Seara Nova (autor)

A política de submissão ao poder económico, que ao longo dos últimos trinta anos o denominado “bloco central”, em alternância, impôs ao país, constitui uma réplica, das “receitas” do capitalismo mundializado

 


A expressão eleitoral desse descontentamento traduziu-se em acrescentar mais de meio milhão de votos às forças assumidamente de direita para prosseguirem, como anunciavam, a mesma política

 


Aos democratas responsáveis, aos progressistas, colocam-se assim grandes desafios e responsabilidades. Em primeiro lugar, a de não semear ilusões. Apoiar e estimular todas as lutas justas, mas deixando claro a dimensão possível e os resultados almejáveis

 

 


Alargar a unidade e a capacidade de diálogo é tarefa prioritária. Apoiar sem dirigismos castradores tudo o que seja luta ou protesto e procurar que neles viceje a força material das ideias

É inquestionável que os tempos em que vivemos são marcados por uma forte corrente de unificação do Mundo, que tem vindo a ser designada por “globalização.

O que haverá de novo nesta “segunda mundialização” é a interacção dos fenómenos económicos, ou seja a liberalização dos mercados num capitalismo planetário, com as inovações tecnológicas (ex., as novas tecnologias da informação e da comunicação) e com as convulsões e reviravoltas geopolíticas.

Importará assinalar que o processo de globalização é também um fenómeno cultural, desenhando um novo lugar e uma nova função para a cultura no mundo globalizado, numa espécie de híper-cultura transnacional, que encontra a sua justificação nos mecanismos do mercado capitalista e nos seus desígnios de rentabilidade, de marketing, de comercialização e do consumo.

A cultura então já não será apenas uma super estrutura de símbolos, mas instrumento material de produção, de comercialização e consumo de mercadorias. Por todo o lado proliferam, em idênticos contextos planetários, os objectos, as marcas, a moda, o turismo, a publicidade que, como rolo compressor, esmagam as especificidades de povos e nações e tendem a ocupar o lugar simbólico da cultura, como espaço de libertação e progresso.

Hoje em dia a humanidade, por efeito da instrumentação da cultura, face aos ditames do hipercapitalismo mundializado, encontra-se numa fase ou momento em que todos as componentes de vida estão em crise, desordenadas e privadas de coordenadas estruturantes que dêem sentido à vida quotidiana das existências individuais.

Tempos de crise, portanto. Por todo o lado, o efeito deletério do capitalismo globalizado e desenfreado, que tudo corrompe e corrói e do qual as sociedades humanas e, sobretudo, o elo mais fraco nas relações de produção, pagam amargo preço. Um “turbo-capitalismo” que atropela os Estados e reduz a democracia a um simulacro de liberdade e a cidadania a um arremedo de participação.

O insuspeito Jean-Claude Juncker, presidente do Eurogrupo, terá recentemente afirmado, tendo como pano de fundo a “crise da dívida soberana” dos Estados e a incapacidade das instituições europeias encontrarem resposta adequada, que “estamos a brincar com o fogo”, para concluir que “após uma crise financeira, seguida por uma crise da economia real, arriscamo-nos a ter uma crise social e, ao fim e ao cabo, uma crise do sistema”.

Nada que não se conheça. Mas vindas de quem vêm, estas palavras ganham redobrada expressividade e eloquência. Tanto mais que a União Europeia e o Banco Central Europeu, são, no contexto da globalização capitalista, dos que mais fomentam a subserviência em relação ao grande capital financeiro e sustentam as políticas mais liberais e anti-sociais.

Tem assim toda a pertinência recordar, como faz o professor Carlos Pimenta nas páginas da presente edição da Seara Nova, que a lógica de construção do Euro e as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento não têm fundamento económico. A concepção de que a convergência nominal entre os países conduziria a uma convergência real é um absurdo lógico, uma subestimação das leis objectivas do funcionamento da economia e uma sobrevalorização do domínio financeiro, em prejuízo do capital produtivo e do funcionamento da economia real.

No que diz respeito a Portugal, ainda ecoam as delícias do slogan “Europa connosco”, erguido como epopeia dos tempos modernos e o deslumbramento pacóvio do “bom aluno” da Europa, com que PSD e PS, apoiados pelo CDS, levaram o País ao caos económico, ao descontrole das finanças publicas, ao excessivo endividamento externo, ao desequilíbrio da balança de pagamentos, à perda de soberania e às presentes imposições da tróica estrangeira. E, sobretudo, ao alargamento das desigualdades sociais e a milhares de desempregados. E ainda a uma juventude sem futuro e sem esperança e a uma velhice de miséria…

A crise de valores, a corrupção, a subordinação ao poder económico, o holiganismo das camadas dirigentes, o vale tudo nas ambições de ascensão social, a pequenez dos dirigentes políticos do sistema, as limitações dos empresários, a mediocridade instalada, não estão inscritas na idiossincrasia do Povo português: fazem parte da matriz constitutiva do hipercapitalismo actual, que se exprime na sociedade como razão e fundamento do “triunfo do mercado”.

Neste contexto, era evidente o descontentamento e o consequente protesto com a política seguida pelo governo PS/Sócrates. Porém, a expressão eleitoral desse descontentamento traduziu-se em acrescentar mais de meio milhão de votos às forças assumidamente de direita para prosseguirem, como anunciavam, a mesma política, mas agravada agora na dureza das medidas anti-sociais e nas desastradas orientações económicas e financeiras, impostas pelo Acordo de submissão nacional, assinado com a tróica. É o que se deve ao PS de Sócrates, na sua incessante subordinação a um pensamento de direita e à descrença que foi fazendo nascer em vastas camadas.

E não deixa de ser significativo que o Governo que se apresta a tomar posse inclua no seu âmago os mais acrisolados neoliberais e fundamentalistas das “virtudes “ do mercado. É caso para dizer que os “nossos” Chicago Boys vêm com alguns anos de atraso.

Aos democratas responsáveis, aos progressistas, colocam-se assim grandes desafios e responsabilidades. Em primeiro lugar, a de não semear ilusões. Apoiar e estimular todas as lutas justas, mas deixando claro a dimensão possível e os resultados almejáveis. A resistência, no plano político, social e cultural, é dever inadiável.

Também por essa Europa fora, apesar da ausência imediata de uma classe revolucionária estruturada e de forças políticas e sociais organizadas no sentido da conquista do novo, a resistência vai crescendo e afirmando-se.

Um novo mundo é possível. E inevitável.

Aqui e agora, importa avaliar com espírito aberto as confluências possíveis. É fundamental compreender os movimentos espontâneos, de protesto e contestação, mesmo quando se revestem de alguma ingenuidade ou formas inconsequentes. Por ventura, mais do que fazer alianças políticas, importa estimular convergências. Não subestimando a radicalização anti-democrática que por aí já se descortina, nem a impreparação e o populismo dos novos detentores do poder.

Alargar a unidade e a capacidade de diálogo é tarefa prioritária. Apoiar sem dirigismos castradores tudo o que seja luta ou protesto e procurar que neles viceje a força material das ideias e assim ganhem expressão e sentido político, é uma urgência inquestionável.

O mundo novo não é o de Merkel, Sarkozzy ou Obama. De Cavaco Silva José Sócrates, Passos Coelho ou Paulo Portas. O mundo novo há-de ser desenhado e construído pelos trabalhadores e pelos povos. Do Mundo. Da Europa. De Portugal.

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