Energia nuclear - uma ilusão demasiado perigosa e real

Nº 1716 - Verão 2011
Publicado em Dossier por: Heloisa Apolonia (autor)

Central de Fukushima, após o acidente

Foi, infelizmente, a própria realidade que desmantelou o argumento segundo o qual o nuclear é hoje uma indústria mais que segura. Não é! Fukushima demonstrou-o de uma forma “inabalável”!

Bastaria a memória mais cruel do ataque deliberado com bombas nucleares, pelos EUA ao Japão, em Hiroshima e Nagasaki (final da 2.ª guerra mundial, 1945), para demonstrar a força altamente destruidora e arrasadora do nuclear. Mas se nos cingirmos à produção de energia nuclear, Three Miles Island (Pensilvânia, EUA, 1979) e Chernobyl (Ucrânia, 1986) são dois acidentes que imediatamente nos vêm à memória, que marcaram devastação de vidas humanas e demonstraram o intenso poder destrutivo, ao longo dos anos, de níveis de radiações elevadíssimos. Poderão alguns alegar: mas foram dois casos isolados. Bastariam, então, para provar a ameaça do nuclear, mas a questão é que nem foram casos isolados, foram centenas os (in)acidentes com reactores nucleares, que conduziram a emissões radioactivas bastante perigosas e danosas, desde os anos 50 até à data.

A tecnologia avançou, diz, desde há muito, a indústria nuclear. É certo. Mas não avançou ao ponto de isentar de alto risco a produção de energia nuclear. A pergunta a fazer é só uma: vale a pena correr esse risco?

Fukushima deu a resposta ao mundo: não, não vale! Um abalo sísmico de uma magnitude de cerca de 9º na escala de Richter, no dia 11 de Março de 2011, seguido de um tsunami e de réplicas consideráveis, provocou uma forte devastação. A central nuclear de Fukushima não ficou incólume às consequências dramáticas destas forças naturais arrasadoras, que provam que procurar dominar a natureza ou domesticá-la à dimensão da ambição de uma parte da humanidade é uma absoluta utopia e um rotundo engano.

Afinal, o que alguns diziam ser quase improvável ou que juravam mesmo ser impossível nos dias que correm, aconteceu mesmo! No Japão, conhecido pela sua preparação para os impactos dos terramotos e pela sua tecnologia de ponta, deu-se o colapso, seguido de explosões, de três dos reactores da central nuclear de Fukushima, situada a pouco mais de 230 km de Tóquio. 140.000 residentes, num raio de 20 a 30 km da central nuclear, foram evacuados, e milhares de pessoas continuam, ainda hoje, afastadas dos níveis de radiação.

“Apocalipse” foi a caracterização que o Comissário Europeu da Energia fez do que aconteceu em Fukushima. Mas se as palavras se coadunaram com a realidade, as lições e medidas, retiradas de imediato no mundo, mostravam-se leves de mais. A Comissão Europeia veio anunciar rapidamente a necessidade de testes de stress às centrais nucleares dos Estados-Membro, mas com uma fragilidade absoluta, porque voluntários para as empresas e restringindo os testes praticamente à reacção face a desastres naturais, retirando a avaliação dos riscos inerentes ao funcionamento técnico dos próprios reactores, aos riscos de ataques terroristas ou aos próprios riscos de falhas humanas! Merkel, que revogara o plano de encerramento faseado das quase duas centenas de centrais nucleares alemãs, prolongando mais o seu tempo de vida, anunciou, logo após Fukushima, o encerramento de três reactores, mas provisório! O governo espanhol anunciou a necessidade premente de abertura de um debate em Espanha sobre o nuclear, mas sobre a melhoria da segurança das centrais, não pondo em causa a sua continuidade! Muitas palavras, mas uma acção pouco consistente face à dimensão do problema e parecendo mais moldada pela força das circunstâncias que o mundo conheceu, do que pela convicção de fazer frente ao poder do lobby económico nuclearista.

Rejeição popular

Mas quando os governantes não despertam de modo próprio, a força de um povo unido é determinante para ditar caminhos a prosseguir. 95% dos italianos que expressaram a sua posição em referendo, no passado dia 13 de junho, disseram taxativamente, e quase unanimemente, “Não ao nuclear”. E para aqueles que antes do referendo diziam que não havia alternativa ao nuclear, no dia a seguir à decisão massiva, inequívoca e vinculativa do povo italiano, reconheceram que a aposta vai para a alternativa das energias renováveis... porque afinal há alternativa! Na Alemanha, as eleições regionais fortemente influenciadas pelo debate do nuclear e pelo que aconteceu no Japão, determinaram perdas eleitorais do partido de Angela Merkel, por exemplo no Estado de Baden Wurttemberg e em Bremen, locais onde a expressão dos Verdes cresceu significativamente. Estas eleições foram mais decisivas do que Fukushima para o Governo alemão voltar atrás nas suas intenções e assumir o encerramento das centrais nucleares alemãs até ao ano de 2022. Também na Suíça as manifestações de milhares de pessoas foram significativas para o Governo propor o abandono da energia nuclear até ao ano de 2034, num país que produz 40% da energia eléctrica que consome pelo modelo nuclear.

No mundo existem cerca de 440 reactores nucleares. Só nos EUA funcionam 104 e nos países da União Europeia 143 (a França com 58 em funcionamento, sustentando 76% da sua energia eléctrica consumida; Reino Unido com 19; Alemanha com 17; Suécia com 10; Espanha com 8; Bélgica com 7; República Checa com 6; Finlândia, Hungria e Eslováquia com 4 cada; Bulgária e Roménia com 2 cada; Holanda e Eslovénia com 1 cada). Dos 65 novos reactores em construção, ao nível mundial (para já não falar dos que estão ainda em processo de intenção), em países da União Europeia projectam-se mais 12 e na China (actualmente com 13) mais 27 (pese embora, após Fukushima, a China tenha declarado a suspensão desta caminhada).

É este o mundo que se construiu e hoje, que tanto se proclamam orientações políticas em nome da segurança das populações (proclamação que muito nos daria para vastas reflexões e constatações, que não são, contudo, objecto deste artigo específico) importa perceber que ao nível energético criou-se uma potencial bomba delapidadora do planeta, descentralizada por vários pontos do globo, gerando um paradigma de insegurança que importa que retroceda a bem da humanidade e do planeta que generosamente nos acolhe.

Em Portugal poder-se-á pensar, da forma umbilical que muitas vezes caracteriza alguns pensamentos, que não tendo centrais nucleares nem produção de energia nuclear, o problema não é connosco. Será sempre connosco, nem que seja pela simples razão de que os efeitos de um acidente nuclear não encontram fronteiras.

No final dos anos 70, Portugal disse definitivamente não ao nuclear. A central nuclear prevista para o país, cujo projecto ameaçou sair do papel para os campos do Moinho Velho, em Ferrel, concelho de Peniche, levou a população a movimentar-se, designadamente em 15 de Março de 1976, e a organizar-se de modo a bloquear um processo que, a ser levado à prática, ameaçaria para sempre a sua vida, a das gerações futuras e toda a região. A esta gente devemos também o nosso quinhão de maior segurança por não termos centrais nucleares em Portugal.

Desde então, de vez em quando, lá surgem as vozes interessadas na indústria nuclear em Portugal. Calam-se sempre que um acidente nuclear de maior dimensão se torna conhecido (e outras vezes minimizam-no de uma forma desumana e totalmente insensível) e, jogando depois com o arrefecimento das memórias desses desastres, tornam às suas intenções, vestindo-as de argumentos tantas vezes rodeados de uma falsidade que lhes sustenta a falta de razão.

Em jeito de aparte, a primeira pergunta que sempre me ocorre é saber quem não se importaria de viver ao redor de uma central nuclear. Os defensores de uma central nuclear, talvez?!

Ilusões e enganos

Analisemos, então, questões relevantes do ponto de vista energético e ambiental. Dizer-se que a produção de energia nuclear é o milagre para a redução de CO2 e para o sucesso no combate às alterações climáticas é uma ilusão. De resto, países como Espanha, que tem nuclear, tem tido uma enorme dificuldade no cumprimento dos objectivos de Quioto.

A nossa elevada dependência do petróleo, que nos gera elevados níveis de emissões de CO2 e que nos estrangula financeiramente, designadamente quando assistimos à escalada do preço do barril de Brent, não se prende com a produção de energia eléctrica (que representa pouco mais de 20% do nosso consumo energético), mas sim fundamentalmente com o sector dos transportes que é altamente dependente de combustíveis fósseis. Ora, a energia nuclear só gera energia eléctrica, o que significa que não resolveria o problema dessa dependência. O sector dos transportes continuaria a escalar no aumento das emissões de CO2, porque o nuclear não resolveria nada nesse campo!

As emissões de CO2 e o nosso cumprimento de Quioto e do que se lhe seguir (que é coisa ainda não determinada e que esperamos para ver se na próxima conferência das partes na África do Sul, os chefes de Estado e de Governo terão vontade de resolver, invertendo o fracasso das cimeiras de Copenhaga e de Cancun) só será sustentavelmente atingido caso trabalhemos seriamente para atingir níveis adequados de eficiência e poupança energética: há dados que revelam que 20% na redução dos consumos poderia representar metade da redução necessária de gases com efeito de estufa. E o sector dos transportes tem aqui um papel absolutamente fundamental, quer no que respeita ao fomento de redes de transporte menos poluentes, seja para passageiros, seja para mercadorias, como é o caso do sector ferroviário, quer no que respeita à aposta numa rede integrada, de qualidade e aliciante de transportes colectivos, que representaria um passo de gigante para essa redução de consumos, na medida em que reduziria a utilização massiva do transporte individual nos movimentos pendulares diários dos cidadãos. Para além disso, a aposta na micro-geração e na eficiência dos serviços e edificações são passos que, juntos, formam uma escala muito significativa para o objectivo de eficácia e eficiência energética.

Um país também deve ser aferido no seu grau de desenvolvimento (onde as componentes económica, social e ambiental se devem obrigatoriamente cruzar) pelos seus padrões de consumo energético, associado à qualidade de vida das suas populações. Mas nunca numa lógica desactualizada de que quanto mais consome, mais desenvolvido é. A questão é perceber, para a produção de uma unidade de riqueza, quanta energia se consome. Quanto menor for esse consumo, por unidade, melhor será a sua eficiência. O problema português é que, neste aspecto particular, é de uma ineficiência absoluta!

Dizer-se que o nuclear também nos retiraria o receio da escassez da matéria prima base é outra ilusão. O urânio, matéria base para a produção de energia nuclear, também é esgotável. O que não é objecto de esgotamento são as energias renováveis (obtidas pela força de elementos naturais e não pelos elementos naturais em si, como o vento, o sol, a água) – e, mesmo nestas, importa aferir dos seus impactos sobre os recursos utilizados e sobre os efeitos que podem comportar noutros elementos naturais, pois só com essa aferição é possível determinar da sua eficácia e localização adequada.

Chamar-se também ao nuclear uma forma de energia limpa é de uma falsidade incompreensível. Se o que resulta dessa indústria são resíduos radioactivos, como é possível designar-se de limpa uma produção energética que nos gera lixo altamente poluente e intratável? Estamos a falar de resíduos que não têm qualquer forma de tratamento possível, que se mantêm radioactivos por muitas gerações e que constituem um perigo eminente.

Sérios riscos

Aduzi aqui apenas algumas questões de ordem ambiental e de segurança para a humanidade, decorrentes da produção de energia nuclear, mas talvez faltasse dizer que nos vendem o produto “nuclear” sempre como algo tão barato, que vale a pena! Valeria a pena, mesmo perante os riscos que comporta? E por que razão nessas “tabelas de preços” e aferições de competitividade, nunca se assume o facto da energia nuclear ter de ser sempre subsidiada pelos poderes públicos? E por que razão nunca se inclui no preço a factura do desmantelamento das centrais nucleares que têm custos assustadores? Talvez só porque não seja conveniente aferir dos custos reais da construção de uma central nuclear e perceber quem a pagaria na totalidade e quem encheria os bolsos de lucros com ela!

Portugal, não tendo centrais nucleares, coabita de perto, todavia, com os riscos do nuclear, devido à nossa vizinha Espanha, designadamente em relação à proximidade da central de Almaraz, em Cáceres, a escassos 100 km da nossa fronteira. O risco é tanto maior quanto são já conhecidos relatórios que retratam as profundas deficiências técnicas da central nuclear de Almaraz, para além dos seus reactores já terem atingido o tempo normal de vida de infra-estruturas desta natureza (dado que o primeiro reactor começou a funcionar em 1981 e o segundo em 1983). Não obstante estas revelações e evidências, o governo espanhol deliberou, em meados do ano passado, manter esta central nuclear por mais 10 anos, renovando a sua licença de funcionamento que terminara, justamente, em 2010. Para além disto, Espanha já abriu um processo de identificação de local, também em Cáceres, a 80 km da nossa fronteira, para armazenamento temporário centralizado de resíduos radioactivos.

Esta ameaça, que constitui Almaraz, deve mover-nos para a exigência do seu encerramento. Esta central nuclear “bebe” a água do Tejo e constitui uma ameaça também ao nosso território. Um acidente nos reactores de Almaraz teria consequências muito sérias para o nosso País. Portugal, que optou, e muito bem, pelo Não ao nuclear, que rejeitou sujeitar-se a riscos tamanhos, deve mover-se pelo alargamento da segurança e pela isenção de riscos que escolhemos não ter, impelindo igualmente outros a inverter o seu caminho nuclearista. E, também por isso, torna-se relevante uma contestação à importação, por Portugal, de energia nuclear (advenha ela de Espanha, de França ou de outro lado qualquer).

Agir por um mundo melhor é um imperativo para cada um de nós. Dito isto, é tempo de afirmar hoje, com muita actualidade, com a mesma convicção, mas provavelmente de forma mais compreensível para muitos: NUCLEAR, NÃO OBRIGADO!

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