Luta de Classes
Nº 1714 - Inverno 2010
Publicado em Tribuna Pública por: Gilberto Lindim Ramos (autor)
Nos fins dos anos 80 assistiu-se à derrota da experiência socialista na Europa. Perante os resultados obtidos o neo-liberalismo exultou, chegando mesmo a declarar que a sua vitória seria para sempre e que a história tinha terminado.
A partir de então começou a sua grande tarefa de liquidação dos direitos que os trabalhadores tinham conquistado após a 1ª Grande Guerra e, principalmente após a guerra mundial terminada em 1945. O grande objectivo do neo-liberalismo era o de voltar, no essencial, à situação existente no princípio do século XX no mundo do trabalho.
A necessidade concreta de aumentar constantemente os lucros leva a que as classes dominantes utilizem todas as possibilidades de o conseguir, recorrendo, com especial relevo e cada vez mais, às práticas especulativas. Criaram-se assim volumes de massa monetária verdadeiramente impressionantes, mas que não tinham a sustentá-la riqueza efectiva apenas havendo papéis bolsistas que, efectivamente, nada representavam em relação à riqueza real. Chegou-se assim a uma situação insustentável que rapidamente pôs em perigo de colapso toda a estrutura financeira dos vários países, a começar pelos mais poderosos, ou sejam, os Estados Unidos da América, o Japão, a Alemanha, a França e a Inglaterra. Perante esta situação, os governos desses Estados puseram - sem quaisquer problemas, apesar das verbas inacreditáveis que foi preciso mobilizar, e de que se falava o menos possível - à disposição dos grandes bancos e entidades financeiras, todo o dinheiro necessário. E isto sem que entetanto se tomassem quaisquer medidas punitivas contra os responsáveis pela situação, mesmo quando se tratava de actividades fraudulentas. Apenas nos Estados Unidos alguns, poucos, responsáveis foram levados perante a justiça e condenados.
Ultrapassada a fase mais crítica da crise e aproveitando o facto de os vários governos terem aumentado substancialmente o valor do deficit público dados os valores que gastaram na ajuda às entidades financeiras e também à quebra de receitas que sofreram em resultado da redução da actividade económica, voltaram as entidades que dirigem a União Económica Europeia a impor a necessidade de cumprir o limite máximo dos 3% para o deficit das contas públicas. Para isso os Governos foram obrigados a apresentar um PEC cujas medidas de austeridade, embora diferenciadas na sua concretização, recaem sobre os trabalhadores, os desempregados - cujo número subira, entretanto, de forma explosiva e que eram de forma mais ou menos clara acusados de estarem desempregados porque não queriam trabalhar - e todos os grupos economicamente mais débeis. Para tornar menos escandaloso este conjunto de medidas foram apresentadas algumas propostas dirigidas às classes dominantes que, nos casos em que foram levados à prática, não afectaram de modo significativo os seus interesses. Assim, verifica-se que os aumentos de receita resultam, fundamentalmente, dos valores subtraídos aos trabalhadores, aos reformados e às camadas mais baixas da classe média, enquanto as quebras na despesas se ficam a dever aos cortes de carácter social que prejudicam os mais carenciados.
A luta de classes, que sempre existiu, está, por isso actualmente numa fase de grande intensidade. As classes dominantes sentem que estão numa altura extremamente favorável, apesar das crises cada vez mais profundas do sistema capitalista, dado que perante elas está uma classe trabalhadora muito enfraquecida que ainda se não recompôs da derrota do campo socialista na Europa e, assim, com o pretexto da crise, tentam retirar-lhes o máximo dos direitos anteriormente conquistados.
Neste momento é impossível dizer a curto ou médio prazo qual o resultado da luta dos trabalhadores contra a ofensiva queo capitalismo está a desenvolver a nível mundial.
Estamos numa fase em que, na generalidade dos países, a luta dos trabalhadores se circunscreve à defesa dos direitos e regalias conquistados. sem que ponha em causa o próprio regime capitalista. É importante perceber que esta luta é fundamental pois a não resistência significa a perda cada vez maior dos seus direitos e o caminhar para situações de miséria que se julgavam banidas para sempre. Mas é igualmente extremamente importante perceber que o aumento da luta, da resistência e da união dos trabalhadores ao dificultar e mesmo impedir o avanço do neoliberalismo cria condições que tornam possível perspectivar a substituição do regime capitalista por outro de carácter socialista . Esta revolução que substituirá o regime capitalista por outro de carácter socialista será a única forma de defender os direitos dos trabalhadores, garantindo a sua permanência e, mais do que isso, permitindo que a sociedade passe a ser dirigida de acordo com os interesses dos trabalhadores.
Nota final
Os trabalhadores têm resistido com maior ou menor capacidade, sendo de assinalar a atitude combativa dos trabalhadores gregos, que mesmo sem terem a seu lado as centrais sindicais, conseguiram formar uma entidade que coordena e dirige a luta, juntamente com o Partido Comunista Grego, assim como a luta dos romenos e a dos portugueses, esta dirigida pela sua central sindical.
No que se respeita a Portugal é de referir o facto de nas últimas eleições a esquerda ter reforçado as suas posições e o papel destacado que, pela grande influência que tem junto dos trabalhadores, o Partido Comunista Português tem tido na direcção da sua luta.
É impossível predizer o resultado desta luta a curto e médio prazo, porque, a longo prazo, é certa a derrota do capitalismo. Mas é também verdade que quanto maior for a capacidade de resistência dos trabalhadores menores serão os ganhos dos capitalistas e quanto mais esclarecidos estiverem os trabalhadores da sua força e quanto mais se ligarem àqueles que defendem os seus interesses, mais rapidamente poderão inverter a luta no sentido de derrotar os dirigentes económicos e financeiros do mundo actual.
