A Seara Nova no itinerário pedagógico de Faria de Vasconcelos (conclusão)

Nº 1713 - Outono 2010
Publicado em Memória por: Manuel Ferreira Patricio (autor)

Grupo fundador da Seara Nova: Jaime Cortezão, Aquilino Machado, Raúl Brandão, sentados e Horácio Bio, Faria de Oliveira, Raúl Proença e Câmara Reys

Em Cuba e na Bolívia

A organização que J. Ferreira Marques encontrou para as Obras Completas de Faria de Vasconcelos obedeceu estritamente a um critério cronológico.

O volume II destas Obras compreende o período situado entre 1915 e 1920. Dentro dele ocorreu a 1ª Guerra Mundial. A guerra alterou profundamente a vida de Faria de Vasconcelos. Com a invasão da Bélgica pelo exército alemão, o pedagogo viu-se forçado a cessar a experiência da Escola de Bierges-Lez-Wawre, rumando a Genève, para junto dos seus amigos do Instituto Jean-Jacques Rousseau e da Maison des Petits. Algum tempo depois, e por diligência de Adolphe Ferrière, rumou primeiro a Cuba e depois à Bolívia, onde veio a realizar uma notável obra pedagógica. A sua acção, aliás, veio a estender a sua influência a toda a América Latina. Decerto que fruto dessa acção é o notável pedagogo cubano Aguayo e o vasto movimento brasileiro espelhado na linha editorial da Companhia Editora Nacional, de São Paulo, onde avultam as figuras de J. B. Damasco Penna, Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira, Afrânio Peixoto e Theobaldo Miranda Santos, entre outros. Os reflexos dessa acção de Faria de Vasconcelos vieram a ter repercussão em Portugal, onde esses livros chegaram. Ainda pude adquirir muitos deles em Lisboa, em alfarrabistas, a partir de 1959 e até à minha ida para o Liceu Nacional de Évora, em Fevereiro de 1967. Aguayo, com a sua Didactica de la Escuela Nueva, era lido e estudado nas Escolas do Magistério Primário. Era-o em Évora, onde dele tomei conhecimento em 1957-1959. Do mesmo modo, eram lidos entre nós os pedagogos brasileiros, e em geral os sul-americanos, na década de sessenta. Conheci mesmo uma original biblioteca pedagógica cooperativa, utilizada e gerida por um grupo de professores que para o efeito se associou. Tive acesso a essa biblioteca.

Este período de 1915-1920 foi, pois, de grande fecundidade pedagógica da parte de Faria de Vasconcelos. Como se reflecte essa fecundidade no volume II das Obras Completas? Pois vamos vê-lo.

A obra retumbante: Une École Nouvelle en Belgique

O primeiro grande texto que este volume inclui é o correspondente ao livro Une École Nouvelle em Belgique, publicado em Genève em 1915. Prefaciado por Adolphe Ferrière, é constituído por quatro capítulos, a saber: o primeiro, sobre o meio e a educação física; o segundo, sobre a educação intelectual; o terceiro, sobre alguns procedimentos de ensino (as ciências naturais, a matemática, as línguas, a geografia e a história); o quarto, sobre a educação moral, social e artística (o meio material e social, o self-government, o conjunto liberdade-autoridade-sanções-mestres, o gosto, a arte, a música, o canto, a educação sexual e a coeducação).

Este livro – que, até hoje, não foi objecto entre nós de uma versão em língua portuguesa, facto tristemente significativo… – corresponde ao período europeu inicial da vida e obra do pedagogo português. A École Nouvelle de que se trata é a de Bierges; o texto corresponde a um conjunto de conferências proferidas por Faria de Vasconcelos em Genève, no Instituto Jean-Jacques Rousseau, em 1915, no período que se seguiu à sua forçada retirada da Bélgica.

Debrucemo-nos um pouco sobre o prefácio que Adolphe Ferrière escreveu para emblemático livro Une École Nouvelle en Belgique.1É neste prefácio que Ferrière apresenta os trinta caracteres requeridos para a Escola Nova ideal. É claro que esses trinta caracteres não eram requeridos na sua totalidade para que fosse permitido a uma escola instituir-se como Escola Nova – diz Ferrière. A de Odenwald realizou os trinta; a de Bierges-Lez-Wawre realizou, segundo o prefaciador, vinte e oito e meio. Foi a segunda, muito próxima do programa máximo. O programa mínimo deveria obedecer aos seguintes princípios: a escola devia estar situada no campo, fazer o ensino a partir da experiência e enriquecido pelo trabalho manual, funcionar em regime de autonomia dos escolares. Quanto aos caracteres, deveria aplicar pelo menos metade dos traços característicos da Escola nova típica – ou seja, 15 caracteres.

Segundo as palavras de Ferrière, nesse prefácio, situavam-se ao tempo abaixo da Escola de Bierges, por ordem decrescente, as seguintes: a Escola de Bedales, em Inglaterra, com 25 pontos; a Escola de Abbotsholme, também em Inglaterra, com 22 ½ pontos; a Escola de Lietz, na Alemanha, com 22 pontos; a Escola des Roches, em França, com 17 ½ pontos. Faria de Vasconcelos é qualificado por Ferrière como “ce pionnier de l’education de l’avenir”2.

O prefácio é datado de Julho de 1915 e localizado em Les Pléiades sur Blonay, cantão de Vaud. No chalet que Ferrière aí tinha, informa J. Ferreira Marques que abriu Faria de Vasconcelos, “na Páscoa de 1915 uma escola, aplicando os princípios da escola de Bierges mas destinado a raparigas e rapazes”3, realizando deste modo o princípio da coeducação de sexos, que a legislação belga não lhe permitira aplicar em Bierges.

O «Syllabus» (Bolívia, 1919)

O segundo texto intitula-se «Syllabus» del Curso de Dirección y Organización de las Escuelas – Primera Parte. Trata-se de um livro publicado pela Escola Normal de Sucre (Bolívia), em 1919, sendo Faria de Vasconcelos Professor e Director da Escola nessa data. É um livro informativo e prático, característica própria dos escritos do pedagogista português, homem universalmente empenhado no fazer e no fazer bem e actual.

A Revista Pedagógica (Bolívia)

Segue-se um conjunto de artigos publicado na Bolívia, em Sucre, na Revista Pedagógica. São ao todo dez artigos, centrados na circunstância pedagógica e escolar boliviana.

Segue-se um conjunto de oito textos de conferências feitas e publicadas na América do Sul, sobre temas de educação, de moral, de política na circunstância boliviana e ainda de ordem cultural e espiritual.

A temática da moral ocupa o quarto agrupamento de textos, na perspectiva sociológica e psicológica que era a de Faria de Vasconcelos.

Destacarei ainda o pequeno texto, de clara actualidade no Portugal de hoje, “Lo que debe ser un profesor”, datado de 1920. Desse pequeno texto extraio dois períodos, apenas, como que para trazer Faria de Vasconcelos ao debate hodierno sobre a valia e dignidade do professor. Eis o primeiro, em português: “São [os educadores] os obreiros fecundos, generosos, infatigáveis que andam construindo o futuro.”4 Eis o segundo: “Só um educador pode dar-se conta da soma prodigiosa de esforços, de sacrifícios e de paciência que representa a obra educativa.”5

Intervenções políticas em defesa da causa boliviana

Na Bolívia, Faria de Vasconcelos envolveu-se em algumas intervenções políticas, em defesa da causa boliviana, focalizando principalmente a perda do acesso da Bolívia ao mar, consequência da apropriação pelo Chile de todo o litoral, no âmbito da chamada Guerra do Pacífico, em 1879. Perante a Sociedade das Nações, ele afirma: “No soy boliviano. Soy un português educado en Bélgica.”6 “Todo esto lo digo no para enumerar títulos que importan poco, sino para precisar que mi conferencia es la voz de un extranjero arrancada de la razón y no de las pasiones ardientes de un patriotismo vibrante.”7

Inéditos escritos na América Latina

O último grupo de textos deste volume é constituído por inéditos escritos na América Latina. O último corresponde a uma carta dirigida por Faria de Vasconcelos ao Reitor da Universidade, em 1920. É uma espécie de relatório sobre o andamento e as necessidades da Escola Normal Superior, de que era Director, satisfazendo um pedido do Reitor. Pretende Faria de Vasconcelos, como o próprio diz, “tocar com a amplitude necessária nos distintos pontos dignos de chamar a atenção benevolente dos poderes públicos”8. São os seguintes esses pontos: a reforma dos programas escolares; o aumento da escolaridade; o material e mobiliário escolares; a compra de uma quinta para o ensino experimental da agricultura e a organização de campos de jogo e desportos; a construção de um internato para as “señoritas”; a construção de um edifício escolar modelo para a Escola Normal; as obras e melhoramentos da Escola; as pensões dos alunos; a Secção de jardineiras de infância; a Escola de Aplicação da Escola Normal; criação de um quarto grau primário com tendências profissionais nas Escolas de Aplicação; Syllabus dos professores, Revista Pedagógica; excursões; biblioteca; vencimentos dos professores; plano de críticas metodológicas; governo próprio [é o self-government]; cursos públicos; intensificação da prática profissional dos alunos; escutismo; caixa de aforro dos professores da Escola Normal para subvencionar missões de estudo no estrangeiro; a Escola Normal ao serviço das demais Escolas; melhoramentos materiais; nivelação das bolsas; disciplina; professorado; manutenção das iniciativas dos anos anteriores; prática escolar. São, ao todo, 29 pontos. A sua leitura permite-nos ficar com uma visão dos vectores principais da vida da Escola Normal Superior de Sucre, da competência de Faria de Vasconcelos, da sua objectividade e hombridade, da sua visão futurante. Foi um grande semeador pedagógico português em terras da América Latina.

Na Seara Nova (Grupo e Revista) e na Universidade Popular Portuguesa (a partir de 1921)

Avancemos na vida e na obra do pedagogo e pedagogista Faria de Vasconcelos. O período que iremos agora passar em revista é o compreendido entre 1921 e 1925. São duas datas importantes na vida e na obra do pedagogo. A primeira assinala a sua integração no Grupo Seara Nova, de que foi co-fundador, e a colaboração que consequentemente publicou na revista Seara Nova; assinala ainda o seu envolvimento na Universidade Popular Portuguesa. A segunda data antecede imediatamente a criação do Instituto de Orientação Profissional. Faria de Vasconcelos reside e trabalha finalmente em Portugal, regressado da Europa e da América Latina. A sua actividade é intensa e significativa. A educação é central, como já foi assinalado, mas aparece sempre ligada a interesses e compromissos políticos, todavia numa perspectiva que nunca apresenta contornos partidários mas que se situa à esquerda. É o caso da sua colaboração na revista Educação Popular, órgão da Universidade Popular, e no jornal A Batalha, porta-voz da CGT (Confederação Geral do Trabalho). Na mesma linha política geral são publicados na Seara Nova, nos anos de 1921 e 1922, uma série de importantíssimos artigos sob o título geral de “Bases para a Solução dos Problemas da Educação Nacional”, os quais vão constituir a medula da proposta de Lei de Bases da Educação Nacional apresentada pelo Ministro João Camoesas ao Congresso da República em 1923. Lembremos que Camoesas foi elemento do Grupo Seara Nova e da Universidade Popular Portuguesa. É logo em 1921 que a Seara Nova publica o livro Problemas Escolares1ª Série, que é uma peça da nossa história pedagógica que ainda hoje vale muito a pena ler. É ainda a Seara Nova que publica Problemas Escolares – 2ª Série, em 1929, e uma segunda edição da 1ª Série.

O volume III das Obras Completas é crucial para situar Faria de Vasconcelos no Grupo e na revista Seara Nova. Nele aparece reunida, em capítulo próprio, toda a colaboração de Faria de Vasconcelos na Seara Nova entre 1921 e 19249. Não é exactamente toda a colaboração de Faria de Vasconcelos, mas é quase toda, com excepção, evidentemente, dos livros Problemas Escolares – 1ª Série e Problemas Escolares – 2ª Série. Nos textos publicados Faria de Vasconcelos assume-se sempre como membro do Grupo Seara Nova, falando em seu nome.

Outros escritos do período 1921 – 1925

Neste III volume encontramos interessantes textos sobre Educação, em geral, e sobre Educação popular, em particular. Estes evidenciam a preocupação nuclear, de natureza pedagógico-política, de Faria de Vasconcelos. Típico desta preocupação é o artigo que fez publicar na revista Educação Popular, “O que deve ser a Universidade Popular Portuguesa”10. A mesma intencionalidade demopédica (ou demopaidêutica) encontramos no texto “Bases para a organização de Institutos de Educação Superior para Adultos”, correspondente à intervenção do pedagogo e pedagogista no Congresso Nacional de Educação Popular promovido pela Universidade Livre em 1921. Este texto é um projecto de criação e organização dos referidos institutos, para começar nos centros urbanos, mas para estender nas condições e prazos possíveis, às populações rurais11.

Faria de Vasconcelos multiplicou-se em iniciativas deste género, a diversos níveis, no seio da Universidade Popular. Exemplos: a organização de Cursos Pedagógicos para as Famílias, pela Universidade Popular; o programa concreto, muito sumário, de um desses Cursos; o programa, igualmente muito sumário, de um Curso de enfermeiras escolares.12 Outro exemplo é dado pelo texto “Bases para uma Escola Primária Tipo Municipal” elaborado a pedido de Alexandre Ferreira, vereador do pelouro da instrução da Câmara Municipal de Lisboa.13 Outro: de novo a pedido de Alexandre Ferreira, a elaboração de umas bases para a organização de um campo de jogos, em terreno municipal, de um jardim de infância (tipo municipal) e de uma escola primária (tipo municipal)14.

A mesma preocupação demopédica percorre o notável artigo publicado nos Anais das Bibliotecas e Arquivos sobre “A biblioteca, Nicolau Roubakine e a sua obra”15. Faria de Vasconcelos conhecera pessoalmente o Dr. Nicolau Roubakine na Suíça, o qual lhe foi apresentado por um amigo comum, Adolphe Ferrière. A mãe de Roubakine, russa tal como o seu marido, fundou em 1875, em S. Petersburgo, uma biblioteca popular. Roubakine acompanhou a mãe no trabalho da biblioteca, destinada à gente do povo, desde os 13 anos. Veio a conceber uma ideia de biblioteca que Faria de Vasconcelos considera um prodígio de simplicidade e de luz. A ideia foi esta: assim como há tipos de livros, há tipos de leitores. Ou seja: é preciso dar a cada leitor o livro que corresponda ao seu tipo, o livro de que ele precisa. Seguir o desenvolvimento prático desta ideia é algo de fascinante. Faria de Vasconcelos considera a obra gigantesca de Roubakine uma “verdadeira «Universidade Popular por correspondência»”16.

Professor de Psicologia Geral na Faculdade de Letras de Lisboa

Faria de Vasconcelos lutou toda a vida pelo assentamento da organização social e da organização da educação na atitude e na prática científicas. Professor na Faculdade de Letras de Lisboa, que lhe confiou a regência do curso de Psicologia Geral, publicou em 1924 o livro Lições de Psicologia Geral17, que correspondia a uma parte do curso professado. A série das experiências com indicações relativas ao material necessário para as realizar, à técnica da sua execução e à apreciação dos seus resultados ficava para publicação ulterior em volume separado. A obra aparece dedicada a Luís da Câmara Reis, companheiro e amigo, como ele pertencente ao Grupo Seara Nova. As lições incidem sobre os seguintes temas principais: a atenção; o hábito; a memória; a associação; a consciência e o inconsciente. É um curso escolar, bem estruturado e bem exposto, assente no que era a ciência psicológica da época, numa leitura feita a partir do mundo científico francófono (Suíça, Bélgica, França).

O Instituto de Orientação Profissional e outras iniciativas (1925 – 1933)

Passemos ao período compreendido entre 1925 e 1933. Este é o período em que Faria de Vasconcelos se dedica por inteiro ao arranque e desenvolvimento do Instituto de Orientação Profissional em Lisboa. A sua vida e publicações exprimem fielmente essa realidade. A ideia e o projecto vinham de trás. Puderam agora concretizar-se, graças ao legado que para o efeito doou D. Francisca Barbosa de Andrade, o qual permitiu materialmente a criação do Instituto de Orientação Profissional Maria Luísa Barbosa de Carvalho. Pode afirmar-se que mais de 4/5 das 480 páginas de texto útil do IV volume das Obras Completas são dedicadas ao Instituto de Orientação Profissional.

Há, ainda assim, textos que incidem sobre outros assuntos. Um deles intitula-se “Monographie de L’Institut de Rééducation Mentale et Pédagogique”, datado de 1931. É um tema que mantém toda a actualidade. Consta apenas de 3 páginas. Como sempre, Faria de Vasconcelos vai directo ao essencial. Organiza o pensamento em três tópicos: 1 – a finalidade do Instituto; 2 – a organização do Instituto; 3 – o funcionamento do Instituto.

O Instituto foi criado em Maio de 1930, tendo começado a funcionar 5 meses depois, ou seja, em Outubro. A sua finalidade consiste na reeducação mental e pedagógica das crianças que não atingem o desenvolvimento “de que são capazes”. Ou “susceptíveis”18.

Quanto à organização, limitar-me-ei a referir as secções que o Instituto compreendia: 1 – Secção para crianças com insuficiências (défautes) graves nas suas capacidades mentais; 2 – Secção para crianças atrasadas quer no seu desenvolvimento mental quer nos seus estudos; 3 – Secção para crianças normais mas com necessidade de um regime especial de vida e de trabalho; 4 – Secção para crianças cujo desenvolvimento reclama cuidados especiais.19

Em relação ao funcionamento do Instituto limitar-me-ei às suas duas funcionalidades estruturais: funciona, em primeiro lugar, como um organismo de consulta – é uma clínica psicopedagógica –; funciona, depois, como um organismo de tratamento – é uma escola.20

Faria de Vasconcelos escrevia menos de um ano após o início da existência do Instituto, mas afirmava estar ali “une institution pleine d’avenir”, constituindo, com o Instituto de Orientação Profissional, “une des manifestations les plus intéressantes du Portugal moderne”21. J. Ferreira Marques informa que “o Instituto de Reeducação Mental e Pedagógica teve uma vida curta”; “foi efémero e sobre ele não há elementos”.22

É sempre a perspectiva social aquela que move a dinâmica reformadora do pedagogo e pedagogista. No mesmo ano de 1931, e em articulação com o Instituto de Reeducação Mental e Pedagógica, vemo-lo envolvido na organização do Instituto “Dr. Navarro de Paiva”, destinado “a menores do sexo masculino anormais delinquentes dos 9 aos 16 anos […] susceptíveis de educação e capazes de fornecer um rendimento social pela prática dum ofício adequado às suas capacidades”.23

O Projecto de organização psicopedagógica do “Instituto é, mais uma vez, um documento directo, enxuto, sem adiposidades, estruturado em 15 pontos: 1 – define a finalidade; 2 – define os condicionamentos médico-psicológicos de admissão; 3 – estabelece os limites tipológicos de admissão; 4 – apresenta as bases da organização educativa; 5 – indica as áreas da educação física compreendidas; 6 – faz o mesmo em relação à educação manual; 7 – faz o mesmo em relação à educação intelectual; 8 – identifica os ofícios em cuja aquisição aposta a educação profissional; 9 – prevê o encaminhamento externo do menor quando o Instituto não ensina o ofício para que ele revela aptidões; 10 – desenha a orientação geral a seguir no tocante à educação moral e social; 11 - estabelece a composição do pessoal docente; 12 – determina os critérios a seguir na distribuição dos menores em grupos; 13 – determina os limites de extensão desses grupos; 14 – indica os serviços a prestar pelo Instituto: exames para o diagnóstico e tratamento psico-pedagógico a seguir; assistência técnica no estudo dos casos particulares que se apresentem; orientação e inspecção psico-pedagógica dos menores; 15 – determina o funcionamento, anexo ao Instituto “Dr. Navarro de Paiva”, de um Patronato destinado à colocação, vigilância, amparo e auxílio material e moral dos menores que terminarem a sua educação24. J. Ferreira Marques informa ter encontrado no espólio da Secretaria-geral do Ministério da Educação um texto dactilografado em papel timbrado do Instituto de Reeducação Mental e Pedagógica que, na sua opinião, “parece representar de forma sistemática e em termos gerais a organização que se pretendia para o próprio Instituto de Reeducação Mental e Pedagógica”25.

Faria de Vasconcelos morreu novo, em 1939, com 59 anos de idade. Em 1933, a seis da morte e passados oito sobre a criação do Instituto de Orientação Profissional, apresentou o ilustre mestre, sem o saber mas sabendo nós hoje que algo como um testamento, um balanço da obra até então realizada pelo Instituto. Intitula-se esse texto, de 16 páginas: “A obra do Instituto de Orientação Profissional de Lisboa”26. Que diria hoje, se até nós viesse?...

Conclusão

A publicação das Obras Completas de Faria de Vasconcelos pela Fundação Calouste Gulbenkian é um serviço de inestimável valor para a cultura portuguesa e em particular para a educação portuguesa.

Fica deste logo a Fundação credora do reconhecimento do País. Não pode esquecer-se que o Dr. Azeredo Perdigão fez parte, com Faria de Vasconcelos, do Grupo Seara Nova.

Mas o agradecimento deve estender-se ao Professor José Ferreira Marques, que tem realizado um trabalho extraordinário na direcção, organização e concretização científica da publicação das Obras. Graças ao seu trabalho, é hoje possível estudar mais perto da integralidade e com maior rigor a obra de Faria de Vasconcelos.

Neste breve ensaio percorreu-se o caminho da sua vida e obra, quer no plano do pedagogista – que pensa e teoriza a educação –, quer no plano do pedagogo – que a realiza. Foi um voo largo, com intenção ela mesma pedagógica. A minha pretensão, o meu desejo, é que Faria de Vasconcelos volte a ser para nós uma figura viva. Ele merece-o e nós precisamos.

 

1 Id., Une École Nouvelle en Belgique, Genève, Delachaux et Niestlé, 1915.

2 Id., Obras Completas, Vol. II, ed. cit., p. 11.

3 Id., ib., p. X.

4 Id., Obras Completas, Vol. II, ed. cit., 2000, p. 595.

5 Id., ib., p. 595.

6 Id., ib., p. 601.

7 Id., ib., p. 601.

8 Id., ib., p. 681.

9 Id., ib., Vol. III, ed. cit. pp. 67-150.

10 Id., ib., pp. 3-10.

11 Id., ib., pp. 35-48.

12 Id., ib., pp. 47-48.

13 Id., ib., pp. 477-487.

14 Id., ib., pp. 505-514.

15 Id., ib., pp. 51-57.

16 Id., ib., p. 57.

17 Id., Lições de Psicologia Geral, Lisboa, 1924. In Obras Completas, Vol. III, ed. cit., pp. 519-822.

18 Id., “Monographie de l’Institut de Rééducation Mentale et Pédagogique” in Obras Completas, Vol. IV, ed. cit., 2009, p. 437.

19 Id., ib., pp. 437-438.

20 Id., ib., p. 438.

21 Id., ib., p. 439.

22 Id., ib., p. XXII.

23 Id., ib., p. 443.

24 Id., ib., pp. 443-446.

25 Id., ib., pp. XXII – XXIII.

26 Id., ib., pp. 463-478.

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