Matilde Rosa Araújo

Nº 1713 - Outono 2010
Publicado em Memória por: Redaccao Seara Nova (autor)

A escritora solidária, a professora dedicada aos seus alunos, a defensora incansável dos direitos da criança, a cidadã atenta, a autora da prosa poética partiu em 6 de Julho de 2010. Ficou a enorme mágoa de perdermos uma personalidade íntegra, generosa, criativa, fraterna.

Matilde Rosa Araújo nasceu em 21 de Junho de 1921 na casa de seus avós, uma quinta na estrada de Benfica, onde contactou o meio rural e observou o trabalho de adultos e crianças que lidavam com animais.

Estudou em casa, com mestres escolhidos, o que a levava a dizer com expressão sonhadora, sem amargura, «A minha infância foi muito solitária».

Nos anos quarenta, já jovem adulta, muda-se para Lisboa com os pais, que se instalam na Rua Rodrigo da Fonseca, nº 72-2º, onde Matilde permaneceu sempre.

Fez o curso de Filologia Românica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde granjeou grandes amizades para toda a vida.

Em 1943, incitada pelos colegas, a quem não passava despercebido o seu amor pela escrita, participou no concurso organizado pel‘ O Século e o Rádio Clube Português, intitulado "Procura-se um novelista".

Matilde ganhou o prémio com a novela "A Garrana", com grande júbilo dos seus amigos (Sebastião da Gama, Luís de Sousa Rebelo, Urbano Tavares Rodrigues e tantos outros).

Para tema da sua tese de licenciatura escolheu o jornalismo, na altura uma novidade absoluta.

No início da sua carreira de professora, Matilde Rosa Araújo ensinou Português, Francês, Geografia em escolas técnico- profissionais.

Ao longo do tempo exerceu a docência em numerosas escolas do secundário percorrendo o país de Norte a Sul, o que lhe permitiu conhecer a realidade de muitos lugares, base da sua grande experiência e inspiração para poemas e contos. Também leccionou no Jardim Escola João de Deus e na Escola do Magistério Primário.

Em convívio com as educadoras, num curso de formação, ou na sequência duma sua conferência, sublinhava a importância de se estar atenta à sensibilidade poética infantil, que se devia desenvolver com o canto, as lengalengas, os textos rimados. Como pedagoga, Matilde Rosa Araújo cativava as crianças escutando-lhes as falas e os anseios e chegava a elas pela via da literatura. Os alunos ficavam presos da sua voz doce e sábia, que lhes abria horizontes e os impelia a pensarem e a agirem com responsabilidade.

Exigente no ensinar e no aprender, incitava-os a descobrirem a criatividade pessoal.

Além de alguns poemas e contos publicados, Matilde inicia a sua vida literária em 1957, com o "Livro da Tila", um conjunto de poemas para crianças. Mais tarde Fernando Lopes Graça musicou todo o livro, que considerava "o melhor cancioneiro infantil na história da música portuguesa".

Preocupada com a situação social da infância escreve "Praia Nova" (1962), "O Palhaço Verde" (1962), conto inspirado num menino real encontrado num circo pobre da província, mas onde não falta a ternura infantil. Este livro teve o Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro da Associação Paulista de Crítica de Arte de São Paulo, Brasil. Foi ainda traduzido para romeno por Despina Niculescu e quando do seu lançamento na cidade de Bucareste, em 1993, Matilde esteve presente. A sua simplicidade, fino humor, delicadeza cativou colegas e alunos. Escreveu muitas histórias e novelas para a infância: "História dum Papa", "O Sol e o menino dos Pés Frios", que tiveram várias edições, "O Reino das Sete Pontas", Os Direitos da Criança", para nomear apenas algumas. Também divulgou outros autores de literatura infanto-juvenil e de literatura para adultos, coligindo os seus textos em obras como "O Sol Livro (leituras para a 2º fase, 2º ano do Ensino Primário)» ou "As Crianças Todas as Crianças" (1979).

Escreveu ainda artigos e crónicas em jornais e colaborou com a sua prosa clara e rigorosa em diferentes revistas: "Távola Redonda", "Graal", "Vértice" ou "Seara Nova".

Matilde Rosa Araújo sempre defendeu e apoiou causas justas actuando na Unicef ou no Instituto de Apoio à Criança, ou ainda manifestando-se contra a violência e as injustiças.

Amante da paz, do entendimento entre os povos, ansiando viver em plena democracia, num convívio fraterno, Matilde Rosa Araújo era de grande fidelidade na amizade. Sempre admirou os seus amigos com exaltação, não querendo nunca nada para ela, como se não merecesse.

Mas recebeu prémios, homenagens e louvores pela sua obra, pela sua vida, e pelas palavras que faziam sonhar as crianças, e os adolescentes, que a escolhiam para confidente, pelo o amor que lhe retribuíam os leitores e os alunos das escolas que a Matilde continuava a visitar com enorme alegria, sempre teve um grande significado na existência da escritora.

Matilde Rosa Araújo recebeu o Grande Prémio Carreira de Literatura para Crianças da Fundação Calouste Gulbenkian e o Prémio Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.

As homenagens foram várias, mas recordamos a que lhe foi prestada em 2008 na Sociedade Portuguesa de Autores onde tantos escritores, admiradores, amigos, leitores enalteceram o valor da escritora, da colega, da amiga, da educadora.

Recebeu muitas mensagens também de crianças e uma delas, que fazemos nossa, dizia: "Querida Matilde nunca te vamos esquecer".

Ver todos os textos de REDACCAO SEARA NOVA