Centenário da República: O cinema e a implantação da república

Nº 1713 - Outono 2010
Publicado em Dossier por: Dulce Rebelo (autor)

Irmãos Lumiére
O cinema é uma poderosa expressão artística, capaz de nos fazer vibrar com as emoções vividas nas narrativas fílmicas. Mas, ao longo do tempo, foi-se revelando também uma poderosa indústria, sobretudo nos Estados Unidos da América.

Existe alguma polémica quanto à invenção do cinema, que uns atribuem ao norte-americano Thomas Edison e outros irmãos aos Lumiére de Dijon.

Em 1891 T. Edison inventou o «cinetoscópio», um engenho que possibilitava a uma só pessoa visionar fotografias animadas.

Em Dezembro de 1895 os Irmãos Lumiére apresentaram em Paris, no Grand Café do Boulevard des Capucines o «cinematógrafo». Os inventores franceses tinham conseguido juntar numa só máquina três funções: a gravação de imagens, a revelação da película e a projecção de imagens.

Foi um grande avanço técnico em relação ao invento de Edison, pois as imagens podiam ser vistas pelos espectadores de toda uma sala.

Segundo os historiadores, os melhores realizadores os criadores mais inspirados na produção de filmes foram os europeus, mas condições históricas específicas permitiram que na América se desenvolvesse grande progresso no aperfeiçoamento técnico, não parando de crescer a indústria cinematográfica. Na realidade, as pesquisas sobre o cinema; inclusivamente quanto à procura de som para juntar às imagens, com tentativas positivas como as de Gaumont em Paris, em 1910, pararam abruptamente com a eclosão da Primeira Grande Guerra em 1914. O velho continente levará tempo a refazer-se da destruição e das mortes causadas pelo conflito bélico.

O Cinema Português

No virar do século XIX para o século XX, Portugal era ainda um reino, rural, pobre, com uma elevada taxa de analfabetismo. Em 5,5 milhões de habitantes 60% dos portugueses vivia no campo, em aldeias recônditas, donde nunca chegava a sair, amanhando a terra num trabalho penoso e mal ganhando para o sustento diário.

Nas cidades havia grandes contrastes. A par duma classe endinheirada de ascendência nobre, que vivia de rendas de latifúndios obtidas por herança, e se permitia todos os luxos, labutava de sol a sol uma população que sofria de fome permanente e habitava bairros insalubres. Mas simultaneamente, nos grandes centros urbanos começava a emergir uma classe burguesa constituída por lojistas ligados ao comércio, funcionários públicos e burocratas.

Em Lisboa, a zona nobre da cidade era o Chiado com confeitarias, ourivesarias, casas da moda e cafés, onde se reunia a intelectualidade do burgo. Subiam e desciam o Chiado os políticos, os escritores, os jornalistas, as elegantes, cruzando com as costureiras e os empregados de balcão. No desenvolvimento do comércio da Baixa tiveram papel preponderante homens empreendedores e determinados como Nunes Santos, fundador dos "Armazéns do Chiado", e Francisco Grandela, republicano e maçon que inaugurou em 3 de Janeiro de 1891 os "Armazéns Grandela". Desejoso de atrair nova clientela entre a classe burguesa ascendente, vai adquirir mais tarde os edifícios contíguos à Rua do Ouro e após obras de vulto construiu novos pisos que fizeram a ligação à Rua do Carmo. À inauguração destes "Armazéns Grandela" renovados, realizada em Abril de 1907, assistiram personalidades importantes do movimento republicano.

Num país marcado por condições tão diversas, os portugueses não estão alheios à modernidade tecnológica. Em 1877 os comboios puxados pelas máquinas a vapor aproximaram as cidades. Em 1880 inauguram-se em Lisboa os primeiros candeeiros públicos a electricidade, e em 1882 os telefones já funcionavam, tirando cada vez mais a primazia ao telégrafo. Em 1895 entravam em Lisboa os primeiros automóveis, muito embora durante anos fossem raros, pois eram usados praticamente só por membros da família real. Poucos mais tinham possibilidades económicas para terem carro próprio. Paulatinamente, porém, os automóveis de serviço público irão figurar ao lado das carruagens puxadas a mulas.

Os leitores de jornais e revistas franceses estavam a par das descobertas que ocorriam além fronteiras e acompanhavam com interesse as inovações científicas.

A primeira notícia que surge relacionada com o cinema refere-se à apresentação em Lisboa, em Março de 1895, do «cinetoscópio» de Edison. O visionamento individual de algumas imagens animadas, espreitando-se para dentro duma espécie de "caixote", não seduziu os assistentes e por isso a exibição não foi repetida em qualquer outra cidade.

Precisamente um ano depois, o técnico húngaro Edwin Rousby, acompanhado com o operador de máquina inglês Henry W. Short, vem a Lisboa para apresentar o invento dos Lumière. O acontecimento ocorreu na Sala do Real Coliseu da Rua da Palma em 18 de Junho de 1896 (exactamente na mesma data em que o "cinematógrafo" fora apresentado em Nova Iorque). A reacção do público foi muito positiva, pois ficou deslumbrado com as imagens «por serem a reprodução da vida», tal como sublinhava o "Diário de Notícias" na altura.

A assistência pôde visionar curtas metragens (chamadas "quadros") que mostravam um comboio em andamento, operários a sair duma fábrica e algumas imagens de Portugal captadas no sul do país por H.W. Short.

As sessões, sempre muito aplaudidas, duraram um mês. Dado o êxito da exibição, a equipa técnica viajou até ao Porto um mês depois para repetir a experiência. Aproveitando o tempo de veraneio deslocou-se ainda a Espinho e Figueira da Foz.

Na capital do Norte, apesar da admiração e espanto que a novidade despertou na audiência, o entusiasmo não se igualou ao do público alfacinha. No entanto, o evento ia dar os seus frutos.

Entre os espectadores portuenses encontrava-se o jovem empresário republicano, Aurélio Paz dos Reis, fotógrafo amador, e muito ligado aos movimentos associativos da cidade.

Fascinado com o espectáculo a que assistira, Paz dos Reis, acompanhado dum amigo, viajou até França para encontrar os irmãos Lumière, instalados em Dijon. O seu objectivo era comprar-lhes uma daquelas máquinas, o que lhe foi recusado com o argumento de que a invenção teria algum interesse temporariamente como curiosidade científica, mas nunca teria qualquer valor comercial. O tempo veio demonstrar que esta percepção pessimista não se concretizou e os próprios Lumière puderam assistir à expansão da sua descoberta. De qualquer modo, o empresário português não desistiu e em Paris encontrou os irmãos Werner, concorrentes dos Lumière, a quem comprou um exemplar do «Cronofotográfico», um engenho muito semelhante ao primeiro invento. De regresso a Portugal, Paz dos Reis adoptou o aparelho às suas necessidades e começou a captar imagens do Porto.

Em 12 de Novembro de 1896 estreou-se com "A saída do Pessoal da Fábrica Confiança". Esta primeira curta metragem era quase uma imitação do documentário que vira em França, «La sortie de l'Usine Lumière à Lyon».

Mas o que importa registar é a capacidade dum português, com meios tão reduzidos, ter conseguido filmar um documentário sobre a vida quotidiana da sua cidade.

A apresentação do «Cinematógrafo Português», assim designado pelo realizador, fez-se no Teatro do Príncipe Real (hoje Teatro Sá da Bandeira) no Porto. A sessão foi muito aplaudida.

Assim nasceu o cinema em Portugal.

Aurélio da Paz dos Reis

Aurélio da Paz dos Reis

Paz dos Reis, o nosso primeiro cineasta, continuou a filmar pelo País: feiras, festas populares e outros eventos. Pena é que destas primeiras fitas só restem fragmentos que foram recuperados, com dificuldade, das películas de celulóide.

Encorajado com o sucesso obtido após as suas projecções, o empresário resolveu ir apresentar no Brasil o "cinematógrafo português".

Infelizmente a sessão correu mal devido a problemas técnicos insuperáveis e à falta de apoios. Foi uma grande desilusão para o nosso cineasta. De regresso ao País, segundo uns desistiu do cinema, segundo outros o fracasso sofrido no Brasil não o afastou das filmagens que continuou a realizar até ao ano da sua morte, em 1931. Mas não voltou a exibir em público as suas produções.

A Evolução do Cinema em Portugal

A descoberta da «última maravilha do séc. XIX» levou empresários portugueses curiosos, visionários a investirem na indústria do cinema, ainda incipiente no país.

Surgiram empreendimentos de relevo. Em Lisboa trabalharam com regularidade vários produtores nos estúdios da quinta das Conchas, no Lumiar, onde nasceram posteriormente os estúdios da Tobis, que ainda estão no mesmo local.

Em 1904 o fotógrafo João Freire Correia, personalidade muito admirada no seu tempo, abriu em Lisboa o «Salão Ideal», no Loreto, a primeira sala de cinema da capital, e em 1907 criou a produtora «Portugália Film».

No Porto, conforme refere Félix Ribeiro, fundador da Cinemateca Portuguesa, num interessante artigo, existia a «Invicta Filmes» com os seus estúdios modelares que se podiam comparar com os melhores da Europa. Permaneceram em actividade mais de dez anos e as suas instalações, que poderiam transformar-se em Museu do Cinema, duraram cem anos, pois recentemente foram demolidas.

As produtoras eram muito activas. Recorriam a realizadores e técnicos franceses que produziam numerosos filmes. Além de serem exibidos no nosso país também eram distribuídos por outros países.

Freire Correia

Freire Correia

Mais tarde este projecto tornou-se inviável por as despesas de produção superarem as receitas, e alguns estúdios tiveram de fechar.

No dealbar do séc. XX as primeiras imagens captadas eram sobre a família real. Mas vimos também que outros documentários sobre a vida das populações iam tomando relevo. Para além disso, homens apaixonados pelo cinema pensavam em criações originais que evidenciassem as características portuguesas. Assim, em 1907, João Freire Correia, um fotógrafo de renome na época, realiza a primeira obra de ficção nacional com o filme "o Rapto duma Actriz", que é muito bem acolhido pelo público.

No entanto, a instabilidade política e social permanente e as grandes dificuldades financeiras que o País atravessa, com uma elevada dívida externa, vão ser um entrave à actividade mais acelerada de pioneiros verdadeiramente inspirados pela arte do cinema.

O cinema e a Iª República

Após a proclamação da República, Portugal não se tornou num País diferente dum momento para o outro. A situação económica mantém-se idêntica à que existia anteriormente e a industrialização vai demorar o seu tempo.

Os camponeses emigram para os centros urbanos, a fim de fugirem à vida difícil das suas terras, e entram nas fábricas, mas, mesmo assim, nem todos são absorvidos pela produção industrial. Em 1911 a população activa a trabalhar na indústria oscila entre 1,8% no distrito de Beja e 20,5% no do Porto. (1)

A produtividade relacionada com o nível de instrução era quase metade da conseguida pela Grã-Bretanha e os salários dos operários eram muito baixos, metade dos auferidos naquele país, agravando-se continuamente as condições de vida e de trabalho.

Apesar desta realidade, o produto industrial vai crescendo, pois é nesta altura que se desenvolvem as primeiras grandes unidades fabris tais como a CUF, no Barreiro, os cimentos em Leiria, as conservas no Algarve, a metalomecânica pesada, a fábrica das cervejas e outras. (2)

Há empresários que estão genuinamente empenhados na modernização do país e organizam viagens de estudo ao estrangeiro, visitam exposições internacionais para conhecerem as descobertas mais recentes e, se possível, adquirirem novas máquinas que lhes permitam produzir mais e melhor.

O desenvolvimento do cinema processa-se ao ritmo do desenvolvimento económico do País, mas mesmo em condições adversas surgem numerosas iniciativas que levam à produção de pequenos filmes, com o apuramento técnico possível.

Em 1911 surgiu o primeiro filme de sucesso deste período realizado por João Tavares, "Os Crimes de Diogo Alves". A obra evidenciou-se pela história e pela pirueta técnica. O tema interessava vivamente ao público, pois referia-se à vida dum conhecido ladrão com muitas aventuras e peripécias. A novidade técnica consistia em se ouvirem as falas dos intérpretes, conseguidas com as vozes de pessoas escondidas atrás do ecrã. Uma antevisão, embora precária, do cinema sonoro que chegaria bem mais tarde.

O episódio do filme português demonstra que o esforço aplicado na técnica com o objectivo de fazer filmes que, além de serem vistos também sejam ouvidos, era uma aspiração comum aos cineastas de qualquer País.

Portugal aderira com entusiasmo ao cinema. Era uma indústria incipiente mas que ia progredindo com muita determinação. O número de espectadores que frequentavam as salas de cinema foi aumentando, atraídos pelas histórias que os fazia viver emoções fortes, de alegria ou tristeza, tal como acontecia no seu quotidiano. A produção nacional que ia avançando pouco a pouco vais ser afectada, tal como em outros países, pela Primeira Grande Guerra de 1914-1918.

As consequências psicológicas e físicas da guerra vão deixar marcas na população portuguesa durante muito tempo. Mas isso não é impeditivo de se tomarem decisões que contribuam para melhorar o nível do país. Assim regista-se um crescendo de investimento na indústria. Em 1914 existiam apenas 285 sociedades industriais. Em 1924 o seu número subira já para 1359, o que é um dado positivo (3).

Para além das convulsões históricas, o cinema em Portugal continuou progredindo. Surgiram documentários sobre o conflito sangrento europeu, tornando-se as imagens um meio de informação importante a juntar-se à imprensa escrita, de enorme expansão na altura.

O cinema adquirirá também uma outra dimensão ao considerar-se que pode ser um valioso auxiliar de formação educativa. É o que se pode inferir da atitude de António Sérgio ao pretender utilizar o cinema para esses fins (4). Durante o ano em que foi Ministro da Instrução Pública (1923-1924), António Sérgio empenhou-se na organização num serviço dedicado a «sessões cinematográficas instrutivas» que deviam ser introduzidas nas escolas. Só foi possível concretizar o projecto, porque um particular ofereceu uma máquina Pathé-Baby ao Museu Pedagógico da Junta de Orientação de Estudos. A primeira sessão de «fitas instrutivas» realizou-se em Fevereiro de 1924, na escola oficial nº 28 do ensino primário geral. Segundo o Ministro esta inovação pedagógico-didáctica deveria funcionar também nas universidades populares.

Estava-se ainda longe de saber avaliar as potencialidades que o cinema podia oferecer e como explorá-las, mas o caminho ficou aberto. No que respeita à inovação do cinema e seus progressos, Portugal não perdeu a viagem. Manteve-se a par do que ia sucedendo fora do País com acrescido interesse, o que lhe permitiu certamente acompanhar a chegada do sonoro.

Em 6 de Outubro de 1927 estreou-se no «Warner's Theatre» em Nova Iorque, o primeiro filme sonoro realizado por Alan Crosband, «O Cantor de Jazz», interpretado por Al Johson. Apesar das características do filme - uma mistura de sonoro (as canções de Al Johson) - com muitos momentos silenciosos - passou a ser considerado o protótipo da conquista cinematográfica do som. Depois de muitas tentativas artísticas e numerosas experimentações técnicas, chegara-se ao resultado desejado, mas era apenas um novo começo.

Portugal não se distanciou da novidade, continuando a fazer o seu próprio trabalho e pouco tempo depois apresentou a primeira ficção nacional sonora, «A Severa» da autoria de Leitão de Barros, em 1931. Neste ano, porém, o curso da História já era outro.

 

  1. Ver Martins, A.Viana, Da I República ao Estado Novo,

Iniciativas Editoriais, 1976

  1. Ver Oliveira, César, O Operariado e a República Democrática 1910-1914

Porto, Afrontamento, 1972

  1. Ver Oliveira, César, idem.

  2. Ver Fernandes, Rogério. António Sérgio Ministro da Instrução Pública,

Revista História das Ideias, V.5, Faculdade Letras, Coimbra, 1983


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