Deus e o Diabo moram nos pormenores
Nº 1712 - Verão 2010
Publicado em Tribuna Pública por: Manuel Veiga (autor)
Fantásticas as imagens, à saída do edifício da Câmara Municipal do Porto em direcção ao aeroporto. Vindas do céu, as câmaras de televisão davam a profundidade do séquito, em movimento sobre o negro do alcatrão, onde a alvura imaculada (como as vestes do Papa) das enormes setas inscritas no solo apontava a direcção de trânsito, exactamente no sentido inverso ao percorrido pela comitiva.
Certamente que expeditas razões de segurança assim o determinaram. Mas, como bem se sabe, todas as coisas falam, quer dizer, qualquer facto, imagem ou acontecimento social é susceptível de significar para além do respectivo "valor facial"... No caso, as imagens explodem em sentido e o seu impacto submerge as meras contingências ou as eventuais razões de segurança.
Por outras palavras, o "contra mão" do Papa ganha expressividade plena de significado... E, como todos os símbolos, é susceptível de várias leituras, conforme o lugar ideológico donde se parte. Certamente que para alguns católicos, para quem, ao Papa, todas as deferências são devidas, será natural este atropelo das regras instituídas. E estas palavras serão, provavelmente, uma mesquinhez mal intencionada, quando não uma afronta...
Mas para quem, respeitando a figura do Papa e a fé dos católicos, se coloca em posição exterior à ideologia da Igreja, ao efeito das suas interpelações e de suas práticas, não pode deixar de reconhecer, nesta (pequena) transgressão das regras de direito, um gesto (discreto que seja) do poder imperial do Papa, a que o Estado Português se rendeu e foi sujeito empenhado no decurso da visita papal...
"Vejam como o Papa é grande e a sua Igreja intemporal, pois que não há regras terrenas que não se submetam à sua gloriosa majestade..." - assim "falam" as enormes setas brancas, implantadas no solo negro, subvertidas pelo majestoso séquito papal, na ordem que apontam e no sentido (de trânsito) que indicam...
E, deste distanciamento sacral perante os homens comuns para quem as normas - incluindo as de trânsito, helás!... - são criadas, se revestem todas as "dignidades" e se constroem os mitos. Todos os mitos... Que luzem na cabeça das pessoas, por força da ideologia em que estão impregnados, bem acima e para além da condição humana e das contingências históricas.
Dir-me-ão, mas a imensa multidão que bordejou as cerimónias, nos diversos espaços, não será justificação bastante para que o Estado português se tenha rendido ao fascínio da ideologia católica, bem sabendo nós que a ideologia nunca se reconhece como "ideológica"...
Entendamo-nos. O Papa Bento XVI merece todas as honrarias dignas do Chefe de Estado do Vaticano. O que aqui está em causa é a submissão do Estado português, que se pretende republicano e laico, isto é, indiferente à interpelação da ideologia religiosa, deslumbrado (quero acreditar que não rendido) com os "efeitos especulares" (e espectaculares) do catolicismo romano. (Confesso que cheguei a recear o veto presidencial da nova lei de casamento civil, após a visita papal).
E sobre a bordadura dos fiéis, no itinerário do Papa, muito se poderia dizer. Ocorre-me porém salientar que, "a ideologia é uma representação imaginária dos indivíduos com as suas condições de existência", quer dizer, a ideologia reflecte, numa relação inversa, as condições materiais de existência. Quanto maior a submissão, maior o desejo de liberdade... Quanto maiores as privações, maior a pulsão do consumo... Quanto mais cinzento o quotidiano, mais colorido o sonho de uma vida "outra"...
Quanto mais intenso o desespero, tanto mais risonho o caminho da esperança... E nisto, a Igreja é mestra. Tanto nas suas promessas de "redenção", como nas suas práticas litúrgicas, que dizer, nas suas práticas ideológicas. Até mesmo no vermelho vivo dos paramentos, com que o Papa e o clero se revestiram na última cerimónia religiosa...
Ora, sem pôr em causa a genuína fé de muita gente, numa altura de crise, de desemprego e de pobreza, cada vez mais amplos, perante a embotada consciência social de largas camadas da população portuguesa e as persistentes dificuldades da vida, compreende-se que a visita papal tivesse sido um poderoso fenómeno de movimentação de massas humanas. Perante a inóspita vida terrena, busca-se a salvação no céu...
Uma última nota sobre este tema, recolhida de notícias da imprensa. Na despedida do Papa, os pescadores da Afurada engalanaram os barcos do rio Douro na esperança, que se revelou vã, de merecerem uma paragem, um gesto, talvez uma oração de Sua Santidade, no seu apressado percurso.
Mas o sucessor de Pedro - o pescador - sobre cujos ombros se construíram os alicerces da Igreja de Cristo, não se dignou...
Também este "não gesto" papal está prenhe de sentido. Resulta claro que, para Sua Santidade, o "mundo do trabalho" não entra nas suas doutas preocupações teológicas...
O que permite dizer que, para além do contra mão no trânsito do Porto, o Papa Bento XVI caminha em sentido contrário ao percurso da História...
20 de Maio de 2010
