Jose Saramago

Nº 1712 - Verão 2010
Publicado em Memória por: Redaccao Seara Nova (autor)

Esta edição encontrava-se na tipografia para ser impressa quando fomos surpreendidos com a notícia do falecimento de José Saramago o que deixou consternado o Conselho Redactorial e todos quantos labutam para tornarem realidade a publicação desta prestigiada Revista que vai completar noventa anos de existência.

A Seara Nova perdeu um amigo seareiro que honrou as suas páginas com valiosas colaborações incluindo uma continuada coluna de notável crítica literária. Nessas colaborações deixou expresso o seu firme empenhamento na luta pela Democracia, pela implantação das liberdades cívicas em Portugal, contra o fascismo e o obscurantismo, sempre na defesa de verdadeiros ideais progressistas e democráticos.

Com José Saramago desaparece um dos Homens mais notáveis e relevante personalidade da cultura portuguesa que se impôs no nosso País e em todo o Mundo como se comprova pelo facto de a sua obra ter sido traduzida em quarenta e três idiomas e editada em mais de meia centena de países com uma tiragem total de milhões de exemplares. Era lido e estudado e, estamos certos, continuará a sê-lo por muitos anos em todos os Continentes. Os prémios recebidos por este extraordinário autor foram doze em Portugal, três em Espanha, seis em Itália e dois em Inglaterra. E ganhou o Prémio Nobel da Literatura o que foi considerado por conceituados críticos e professores universitários estrangeiros como o mais justo alguma vez atribuído a um génio literário.

Quando lhe foi atribuído o Prémio Luís de Camões, em 1995, declarou que não aceitaria mais nenhum em Portugal para, como referiu, dar lugar a outros mais novos que também merecem prémios.

José Saramago era um verdadeiro patriota e personalidade cimeira da cultura portuguesa. Mas não só. Tratava-se de um cidadão sempre activo e solidário com todos aqueles que, não importava em que País ou Continente, sofriam com as arbitrariedades dos senhores do Poder e do dinheiro. Estava sempre atento aos Povos submetidos ao colonialismo - ainda presente em vários países - e às guerras desencadeadas sobre populações indefesas. Os marginalizados e excluídos contavam sempre com Saramago, com as suas públicas opiniões de repulsa contra actos que subordinam seres humanos à escravidão e exploração capitalista.

Saramago não se ficava apenas em autorizar que o seu nome constasse em abaixo-assinados de protesto ou a expor as suas posições em debates, conferências, colóquios ou em comícios realizados em múltiplos países onde a sua palavra era extremamente ouvida e respeitada. Não, Saramago ia mais longe. Não hesitava, com a sua indomável coragem, em deslocar-se a regiões onde Povos lutavam contra as agruras provocadas por regimes corruptos, ditatoriais, de cariz fascista. Saramago acompanhava pessoalmente e animava todos quantos pugnavam pela sua autonomia e independência, por melhores condições de vida, contra a fome, a miséria, a doença.

Assim, é com grande respeito que recordamos as suas deslocações, por exemplo, ao Médio Oriente para apoiar o Povo palestino tendo chegado a considerar como idêntico ao dos nazis o comportamento das autoridades e dos militaristas israelitas que continuam a invadir, a ocupar e a cercar território da Palestina, perseguindo e matando, ao longo dos anos, milhares de palestinos incluindo mulheres, crianças e idosos. A sua presença fez-se notar, também, junto do Movimento Zapatista, em Chiapas, no México, cujo Povo vivia em péssimas condições e que se rebelou contra a prepotência militarista do governo mexicano permanentemente auxiliado como acontece com Israel, pelos Estados Unidos. O Povo Sarawi também viu a seu lado José Saramago no justo combate que trava há tantos anos pela libertação do Sahara Ocidental colonizado ilegalmente por Marrocos. Outros exemplos se poderiam apontar nomeadamente as suas constantes críticas contra o bombardeamento sobre o Sudão por forças norte-americanas e contra as guerras movidas na Jugoslávia, no Iraque e no Afeganistão ordenadas e perpetradas pelas grandes potências capitalistas principalmente pelos Estados Unidos e pela NATO. Era presidente da Assembleia Geral da Associação Portugal-Cuba e, em Havana, e noutros fora internacionais, expressou a sua rejeição contra o bloqueio movido pelos EUA àquele País livre e independente numa clara violação da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional aplicável.

Não obstante o seu iberismo, o seu amor à Pátria era reconhecido apesar de figuras mesquinhas o ofenderem por ter optado, há dezassete anos, em viver na ilha de Lanzarote, nas Canárias, na companhia de sua mulher, Pilar Del Rio. Esta decisão de estabelecer residência em terras de Espanha - mantendo contudo a sua casa em Lisboa onde permanecia durante vários períodos por ano - surgiu na sequência do lamentável episódio provocado por um dos governos de Cavaco Silva que proibiu a indicação do romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo para o Prémio Europa por aqueles governantes da direita considerarem que punha em causa o catolicismo! Não deixa de ser curioso que Cavaco Silva, com quem Saramago cortara publicamente todas as relações, ter enviado um telegrama à família do escritor onde declara que este foi justamente galardoado com o Prémio Nobel de Literatura e que a sua obra deve ser lida e conhecida pelas gerações futuras.

O seu desaparecimento foi, aliás, pretexto para a generalidade da Imprensa Internacional o recoradar em termos francamente elogiosos, excepção feita ao órgão oficial do Vaticano, L'Osservatore Romano.

José Saramago, que nasceu no seio de uma família humilde e trabalhadora, numa pequena povoação ribatejana, Azinhaga de seu nome, nunca renegou as suas origens a ponto da população ter erguido, numa das artérias locais, um busto em sua honra. Saramago fez-se a si próprio. Era um humanista na mais pura acepção do termo. Sempre atento aos problemas que afectam a generalidade do nosso Povo foi presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, integrado nas listas da CDU, ele que foi membro do Partido Comunista Português desde a década de 60, o que lhe valeu soezes ataques dos adversários políticos que ele encarava com superior desprezo.

Neste momento tão triste para todos nós e para Portugal no seu conjunto, a Seara Nova recorda que Saramago foi o autor do seu primeiro editorial publicado logo após o 25 de Abril, já em liberdade, essa mesma liberdade pela qual tanto pugnou. Transcrevemos, a propósito, um extracto desse magnífico texto onde se revela a sua profunda consciência cívica e política:

.... E agora? A revolta está feita a Revolução está por fazer. O País atingiu o nível mais baixo do vexame e da miséria, e vai ter que sair disso, ou morrerá de vez. É agora ao Povo que compete tomar o destino de Portugal nas suas próprias mãos. De uma vez para sempre. Acabou-se o tempo dos "patriarcas políticos", dos "chefes carismáticos", das "venerandas figuras". Agora todo um Povo terá de ser responsável ou aprender a sê-lo. Uma colectividade escravizada terá de transformar-se num Povo de gente livre, capaz de construir o futuro a partir deste presente de ruínas.

Órgão de doutrina e crítica, a "Seara Nova", liberta da censura e da violência policial estará presente no processo político como sempre o esteve enquanto foi vítima do arbítrio fascista. Apela para que todos os seus leitores, o Povo inteiro, sejam igualmente intervenientes em todos os momentos e circunstâncias. Conscientes do exacto sentido da palavra, exigimos o cumprimento integral do programa do Movimento das Forças Armadas. Mais ainda: exigimos o cumprimento integral do compromisso assumido pelo Movimento perante o País, quer na sua latitude, quer nos prazos fixados. O mínimo adiamento, o mínimo desvio, serão aproveitados pelas forças da reacção fascista, pois deverá ser claro que não podemos ter a ilusão de que o fascismo desarmou.

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