A Seara Nova no itinerário pedagógico de Faria de Vasconcelos

Nº 1712 - Verão 2010
Publicado em Memória por: Manuel Ferreira Patricio (autor)

Grupo fundador da Seara Nova: Jaime Cortezão, Aquilino Machado, Raúl Brandão, sentados e Horácio Bio, Faria de Oliveira, Raúl Proença e Câmara Reys
A recente promoção, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, do Colóquio "Proença, Cortesão e Sérgio e o Grupo Seara Nova", nos dias 28, 29 e 30 de Outubro de 2009, proporcionou trazer à luz da ribalta a grande figura de Faria de Vasconcelos, co-fundador daquele Grupo.

Apresentei, no referido Colóquio, uma comunicação sobre as perspectivas educativas abertas pelo eminente pedagogo na Seara Nova.

Parece, pois, oportuna a iniciativa da direcção desta Revista em abrir as suas portas à análise e discussão da obra do pedagogista e pedagogo português que, até ao momento, maior repercussão internacional alcançou e que representa, sem dúvida, justo motivo de orgulho para a Seara Nova.

Estudioso e admirador de Faria de Vasconcelos desde há quase meio século, foi com muito gosto que aceitei o convite para participar neste mais que justo desígnio, procurando contribuir para quebrar o pesado silêncio que estranhamente caiu sobre uma figura tão grande, notável e séria de intelectual e cidadão.

Escolhi como caminho para alcançar o pretendido objectivo traçar um quadro largo do itinerário pedagógico de Faria de Vasconcelos, que a certa altura o trouxe de regresso a Portugal e o conduziu à Seara Nova (Grupo e Revista), no preciso momento em que ambos nasciam, em 1921.

Faria de Vasconcelos - de seu nome completo António Sena Faria de Vasconcelos - nasceu em 1880, em Castelo Branco, e morreu em 1939, em Lisboa. Teve, pois, uma vida curta. Essa vida foi, contudo, muito rica e intensa.

Filho e neto de juízes, bacharelou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. O seu primeiro trabalho académico, hoje incluído no volume I das suas Obras Completas, em curso de publicação pela Fundação Calouste Gulbenkian1, teve por temática central o materialismo histórico e a crise religiosa do século XVI2. Faria de Vasconcelos mostra-se bem informado acerca do pensamento económico-social de Marx e Engels. A sua postura é, todavia, a do cientista social, não a do político: a do cientista social empenhado na transformação da sociedade. O vector transformador que vai escolher será o da educação, não o da intervenção política propriamente dita, ou seja, directa. À educação, com este sentido social transformador, dedicou toda a sua vida. O Direito foi apenas o seu ponto académico de partida, na linha da mencionada tradição familiar.

A formação na Bélgica

Foi precisamente atraído pelo vector pedagógico da vida social que em seguida partiu de Portugal para a Bélgica, onde se matriculou na Universidade Nova de Bruxelas. Nela frequentou a Escola Livre Internacional de Ensino Superior, onde obteve o grau de Doutor em Ciências Sociais, tendo defendido a tese Esquisse d'une théorie de la sensibilité sociale3. Doutorou-se com brilho assinalável. Foi-lhe atríbuida a classificação "la plus grande distinction", a qual ninguém (belga ou estrangeiro) obtivera nos dez anos anteriores (1904 foi o ano do seu doutoramento). Foi imediatamente contratado como professor da Universidade, passando a reger a cadeira de Psicologia e Pedagogia no Instituto de Altos Estudos (1904 - 1914).

O período em causa corresponde, em Portugal, ao última década da monarquia e dos primeiros quatro anos de Implantação da República. É na República que a biografia de Faria de Vasconcelos se inscreve, sem alardes e com toda a naturalidade.

A Escola Nova de Bierges-Lez-Wawre, perto de Bruxelas

À data do 5 de Outubro de 1910, Faria de Vasconcelos é um pedagogo completamente envolvido no Movimento da Escola Nova, que tinha em Genève o seu núcleo mais activo e qualificado, instalado no Intituto Jean-Jacques Rousseau e na Maison des Petits, anexa ao Instituto. Pontificam aí, nessa época, as figuras internacionalmente notáveis de Edouard Claparède, Adolphe Ferrière e Pièrre Bovet. Ferrière é, aliás, o Director do Bureau International des Écoles Nouvelles, cuja sede é precisamente em Genève. Em 1911, fundou o pedagogo português, perto de Bruxelas, em Bierges-Lez-Wawre, uma Escola Nova que aspirava a realizar tanto quanto possível o modelo proposto pelo Bureau International, com os trinta caracteres definidos por Ferrière.

Desse conjunto perfeito realizou a Escola de Bierges 281/2; a segunda Escola Nova mais perfeita do mundo, pois só a de Odenwald realizou os 30 pontos. As características da sociedade belga não permitiram que Faria de Vasconcelos realizasse integralmente o ideal sumariado pelo seu amigo Ferrière. A experiência veio a ser publicada em livro pela famosa editora Delachaux et Niestlé, com o título Une École Nouvelle en Belgique4. O texto nunca teve a oportunidade de ser publicado em Portugal, em português. Está hoje à nossa disposição nas Obras Completas,5 mas ainda em francês. Ferrière traça o justo panegírico do grande pedagogo Faria de Vasconcelos no prefácio que escreveu para o livro. Faria de Vasconcelos tornou-se imediatamente uma figura emblemática do Movimento da Escola Nova à escala internacional. Não fique esquecido o facto de a Escola de Bierges-Lez-Wawre ter sido criada pelo pedagogo português a expensas suas. Ele quis mostrar à Europa e ao mundo a possibilidade e a realidade de uma Escola que realizava integralmente os princípios da pedagogia científica.

Em Genève, no Instituto Jean-Jacques Rousseau

A guerra de 1914-1918 veio, entretanto, interromper essa experiência, com a invasão da Bélgica pela Alemanha. Faria de Vasconcelos dirigiu-se então para Genève, para junto dos seus amigos do Instituto Jean-Jacques Rousseau (Claparède, Ferrière e Bovet), integrando-se na sua equipa. Por indicação de Ferrière às autoridades cubanas, dirigiu-se para Cuba, onde realizou uma obra notável, e daqui para a Bolívia, onde essa obra deve ser qualificada de notabilíssima.

A primeira obra (1900): O Materialismo Histórico e a Reforma Religiosa do Século XVI

A 1ª fase da obra científica de Faria de Vasconcelos incidiu sobre as ciências sociais em geral (sociologia) e a psicologia social, desde logo com abertura à psicologia educacional.

A sua primeira obra, que é o seu primeiro trabalho académico, intitula-se O Materialismo Histórico e a Reforma Religiosa do Século XVI. Encontra-se hoje publicada nas Obras Completas - I6. Este trabalho, datado de 1900, constitui um extracto de uma dissertação para a 10ª cadeira da Faculdade de Direito, com ligeiras modificações e acrescentamento de uma rápida introdução. Esta introdução é, de qualquer forma, extremamente importante para se perceber a base do pensamento social de Faria Vasconcelos, que é também a base da pedagogia que vai assumir. Termina essa Introdução com a seguinte posição: "A irreligião será um facto real no futuro"7. É Guyau que explicitamente segue. O filósofo francês era na altura lido e apreciado em Portugal. Leonardo Coimbra foi um dos pensadores portugueses que o leu e, na sua primeira fase, o tomou em consideração. A obra de Guyau referenciada por ambos foi L'Irreligion de l'Avenir.

Além da Introdução, este trabalho de Faria de Vasconcelos tem duas partes: a primeira trata do materialismo histórico, com exposição dos seus princípios fundamentais; a segunda é dedicada à análise da determinação da génese e essência da Reforma Religiosa do século XVI. Entende Faria de Vasconcelos, no trabalho a que me venho referindo, que o materialismo histórico é a mais perfeita concepção sociológica moderna8. Sintetizaremos as conclusões do nosso autor sobre a Reforma pondo à vista o penúltimo parágrafo do seu trabalho: " [...] a Reforma é substancialmente um momento da evolução económica do terceiro estado e formalmente, religiosamente, é o regresso consciente e propositado ao primitivo Cristianismo em toda a sua pureza e originalidade."9

A análise social estará sempre presente no desenvolvimento e realização do pensamento pedagógico de Faria de Vasconcelos; a política, não. Mas não se vislumbrando na vida de Faria de Vasconcelos um sinal claro de alteração radical dos seus pontos de vista de partida, este seu primeiro trabalho não deve ser esquecido, para entender o sentido social que alimentava todo o seu labor em prol da educação.

Registe-se, a este propósito, a observação de Cristiana de Soveral, que vê em Faria de Vasconcelos basicamente um seguidor e praticante das correntes de pensamento positivista e experimental, parecendo-lhe mais precisamente que "o positivismo de Faria de Vasconcelos vai-se aproximando de Lafitte, como também o fez Teófilo Braga"10.

Obras sociológicas e psicológicas (1902-1904)

Em 1902 publica Faria de Vasconcelos o livrinho O Pessimismo (Semiologia e Terapêutica).Procurando desenhar as grandes linha da terapêutica, combate o que chama a ética individualista e propugna uma visão diferente, de identificação do interesse particular com o interesse social, do indivíduo com a Sociedade, subordinando a perfeição daquele à perfeição desta11. Para que venha a ser assim, brada pelo investimento na educação e na instrução: "Eduquem-se e instruam-se as multidões"12. Não bastaria, e ele o saberia bem. Mas é interessante ver que, à cabeça das transformações a operar, aparecem a instrução e a educação.

Nesse mesmo ano de 1902 fez Faria de Vasconcelos uma conferência no Ateneu Comercial de Lisboa, na noite de 18 de Outubro, sobre "O ensino ético-social das multidões". A temática social do pessimismo continua presente no espírito preocupado de Faria de Vasconcelos. "A arte, a filosofia e a vida estão invadidas de todo um cepticismo glacial que desacorda as vontades e perturba os espíritos"13. O intelectual português não partilha essa visão da vida. Seguindo Gustave Le Bon, ele defende que "é com a instrução e com a educação que se altera ou melhora a alma das multidões, [...] e consequentemente, [...] a alma dos povos e a da humanidade que é a síntese integradora de todas as multidões"14. Acontecia, porém, que os sistemas de educação e instrução vigentes nos diversos países viviam ainda de um anacronismo descomedido, com relevo para as raças latinas. Contra a educação fossilizada dominante nestes países, entre os quais o nosso, pensava Faria de Vasconcelos ser necessário instaurar "uma nova educação moral e científica" que levantasse as forças deprimidas das Sociedades Modernas, que fizesse da escola uma aprendizagem da vida, de uma vida mais larga, humana e social15. Defende, no quadro desta visão das coisas, iniciativas novas de vulgarização da cultura humana, como as universidades populares, em que aliás veio mais tarde a empenhar-se e envolver-se pessoalmente. Em 1902 escrevia: "No nosso país infelizmente nada há. A lepra do analfabetismo corrói o povo."16

Estamos a ver como a instrução e a educação emergem no pensamento de Faria de Vasconcelos em coerência com a sua apologia do materialismo histórico. E estamos de igual modo a ver a tradução política que ele faz dessa convergência.

Obras psicológicas (1903)

Em 1903, apresenta ao Laboratoire de Sociologie de l'Université Nouvelle de Bruxelles uma Mémoire intitulada La psychologie des foules infantiles. O caminho da educação a trilhar abre-se cada vez mais nitidamente aos seus pés.

Obras sociológicas e psicológicas (1904)

Logo no ano seguinte, 1904, elabora e apresenta a tese Esquisse d'une théorie de la sensibilité sociale. O movimento da sua análise condu-lo da sensibilidade dos grupos sociais à sensibilidade do indivíduo nos grupos, para chegar à consciência social. O ponto de partida, ou base, havia sido o esforço de definição, domínio e condições de produção dos factos da sensibilidade social. Dentro da sua postura positivista fundamental, anti-metafísica, para Faria de Vasconcelos "a consciência social, como a individual, é um dos modos superiores e complexos da sensibilidade"17. Não é, pois, "une entitè métaphysique et abstrate"18. Como tal, é necessário geri-la e formá-la. Nas suas palavras: "Le processus conscient est le processus qui accompagne tout phénomène social. Sans lui il n'y a pas de fonctionnement social vraiment caractéristique et spécifique."19 Na sua boa gestão põe Faria de Vasconcelos as suas melhores esperanças: "À l'accroissement et complications de la puissance rationelle et consciente des groupes sociaux, correspondra celle de l'individu et l'avenir nous assurera le triomphe de l'individu dans un groupe libre."20

A primeira obra pedagógica (1909)

Aproxima-se a implantação da República. É o ano de 1909. Da série de lições sobre pedologia que professou na Sociedade de Geografia de Lisboa, sob os auspícios da Liga de Educação Nacional, resulta a publicação do livro Lições de Pedologia e Pedagogia Experimental. Nas breves palavras de apresentação que escreveu a anteceder as lições escreveu Faria de Vasconcelos estas palavras, que bem esclarecem a crença profunda que tinha nas virtualidades de transformação social (e decerto política) da educação: "A Liga de Educação Nacional, com uma clareza que a todos convence, reduziu o problema nacional a um problema de educação. Entre nós, como de resto nos outros países, é este o problema fundamental. Para ele devem, pois, convergir os melhores esforços e as melhores esperanças de quem tudo espera da Educação."21 Faria de Vasconcelos era um desses. A sua vida o provou sem uma falha. Uns anos mais tarde, pela Seara Nova de que fora um dos fundadores, saíram duas séries dos Problemas Escolares (a 1ª em 1921, a 2ª em 1929)22. Estas lições são, vemo-lo hoje, uma espécie de prolegómenos a essas outras publicações. Talvez não seja inútil apresentar sumariamente as temáticas tratadas neste livro. A 1ª lição é de Introdução; a 2ª, de apresentação dos problemas e dos métodos; a 3ª, sobre o crescimento físico; a 4ª, sobre os factores do desenvolvimento mental; a 5ª sobre os órgãos dos sentidos; a 6ª, sobre a memória; a 7ª, sobre a associação das ideias; a 8ª, sobre a atenção; a 9ª, sobre a inteligência; a 10ª, sobre a afectividade; a 11ª, sobre a actividade; a 12ª, sobre a fadiga.

Para cada lição é indicada copiosa e actualizada bibliografia. O livro representava um preciosíssimo auxílio dado aos pedagogos e docentes nacionais. A clareza e objectividade da exposição, o sentido prático, a relação íntima sempre estabelecida entre a ciência e a sua aplicação com as crianças constituem ainda hoje um exemplo a seguir. O pedagogo Faria de Vasconcelos está maduro.

1 Estão publicados, até este momento, 4 volumes. Por indicação do Professor Doutor José Ferreira Marques, organizador da edição, serão publicados mais 2 volumes. Os anos de publicação foram os seguintes: Vol. I, 1986; Vol. II, 2000; Vol. III, 2006; Vol. IV, 2009.

2 Faria de Vasconcelos, Obras Completas, Vol. I, organização e introdução de J. Ferreira Marques, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1986, pp. 1-26.

3 Id., Esquisse d'une théorie de la sensibilité sociale, in Obras Completas, Vol. I, ed. cit., pp. 111-186.

4 Id., Une École Nouvelle en Belgique,Genève, Delachaux et Niestlé, 1915.

5 Id., Une École Nouvelle en Belgique, in Obras Completas, II Vol., ed.cit., pp. 1-144.

6 Id., O Materialismo Histórico e a Reforma Religiosa do Século XVI, in Obras Completas, Vol. I, Ed. cit., pp. 1-26.

7 Id., ib., p. 5.

8 Id., ib., p. 13.

9 Id., ib., p. 25.

10 Cristiana de Soveral e Paszkiewicz, "Faria de Vasconcelos: uma aproximação ao seu pensamento", in AAVV, O Pensamento Luso- Galaico-Brasileiro. Actas do I Congresso Internacional, Vol. I, Lisboa, INCM, 2009, p. 248.

11 Faria de Vasconcelos, O Pessimismo (Semiologia e Terapêutica), in Obras Completas, Vol. I, ed. cit., pp. 76-77.

12 Id., ib., p. 77.

13 Id., ib., p. 83.

14 Id., ib., p. 85.

15 Id., ib., p. 86.

16 Id., ib., p. 92.

17 Id., Esquisse d'une théorie de la sensibilité sociale, in Obras Completas, Vol. I, ed. cit., p. 179.

18 Id., ib., p. 179.

19 Id., ib., p. 186.

20 Id., ib., p. 186.

21 Id., Lições de Pedologia e Pedagogia Experimental, in Obras Completas, Vol. I, ed. cit., p. 190.

22 Id., Problemas Escolares. 1ª Série, Lisboa, Empresa de Publicidade «Seara Nova», 1921.

- Problemas Escolares. 2ª Série, Lisboa, Empresa de Publicidade «Seara Nova», 1929.

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