Factos & Documentos

Nº 1711 - Primavera 2010
Publicado em Factos e Documentos por: Revista Seara Nova (autor)

Gente esquisita

"Portugal tem tido muita gente esquisita a governá-lo, mas, com Cavaco Silva e José Sócrates, atingimos um elevado grau de desconforto. O semi- presidencialismo destes dois homens produziu um regime híbrido que não executa nem deixa executar. Semi-governante e semi-presidente ao fim de quatro anos de semi-vida institucional aparecem embrulhados numa luta por afirmação confusa e desagradável de seguir. O embaraço público que foram os cumprimentos de Natal adensou a sensação de incómodo. O regime poderia funcionar se os actores se quisessem complementar. Mas estes actores, por formação e deformação, não têm valências associáveis. O voluntarismo de que os dois vão dando testemunho não chega para disfarçar as suas limitações. Com eles a circular a alta velocidade nos topos de gama à prova de bala e nos jactos executivos do Estado, o futuro de Portugal fica hipotecado ao patético despique da escolha de impropérios numa inconsequente zaragata de raquíticos".

Mário Crespo

Jornal de Notícias

28 de Dezembro de 2009

 

Contrapartida de serviços prestados?

"Francisco van Zeller [ex-presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP)] vai presidir à Comissão para a Promoção da Internacionalização (CPI), cuja composição e competências foram ontem aprovadas pelo Governo. O CPI é um conselho consultivo, na órbita do Ministério da Economia, que tem como função apoiar e avaliar a capacidade exportadora das empresas".

Público

8 de Janeiro de 2010

 

Lamaçal

"Não sei se a sociedade portuguesa dispõe, imediatamente, de forças capazes de remover o lamaçal em que foi submergindo. A alternância entre uma vida assente na desistência, e uma vida liberta de imposições, depende da necessidade e do anseio de construirmos novos laços sociais. Os exemplos que vêm de cima não são de molde a criar adeptos. Não confiamos em quase nada e em quase ninguém. Começamos a desconfiar de nós próprios. O indivíduo tem de ter em conta o olhar dos outros, mesmo que negativo: é o que assegura a nossa singularidade. E mesmo isso está a diluir-se, ante a configuração permanente da mentira política, o desprezo pela verdade e a duvidosa dimensão ética de certos jornalistas".

Baptista-Bastos

Diário de Notícias

23 de Janeiro de 2010

 

Comandos à portuguesa

"Já passaram cinco anos desde a primeira missão no Afeganistão, mas os problemas mantêm-se a nível dos blindados e do armamento. Em 2005, as forças portuguesas seguiram para aquele teatro de operações com blindados emprestados pelos espanhóis, agora, no regresso, são os norte-americanos a fazê-lo, com os HUMMVEE. (...) No armamento, o cenário ainda é mais estranho, com a G-3 a manter-se como a espingarda individual, a par da igualmente bem conhecida pistola Walther P38".

Jornal de Notícias

25 de Janeiro de 2010

 

Democracia e transparência

"O essencial está a passar-se nos bastidores, e quem tem conhecimento dos bastidores são o Presidente da República, com os seus sorrisos, e os banqueiros, que de repente ocuparam a comunicação. Houve claramente pressão. Não sei o que é que as agências de rating e os homens da geo-finança foram dizendo a estes intermediários. Mas há uma coisa que concluo: a maioria dos factores de poder não são nacionais e a nossa independência é a gestão das dependências. Há outra coisa que começo a saber: as canalizações da democracia representativa são cada vez menos transparentes".

José Adelino Maltez

Jornal de Notícias

25 de Janeiro de 2010

 

Falsos escritores

"Estão agora na moda os 'romancistas' que escrevem para o Mercado, cujos livros denotam muito Dan Brown, muito diálogo, muitas peripécias e muitas frivolidades sentimentais e (tele)novelescas... José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto e quejandos estão nesta lista. Por outro lado, existem os verdadeiros escritores para quem a literatura é uma forma de Arte e que encaram a escrita como objecto estético. João de Melo encaixa-se claramente neste último grupo, pelo alto nível vocabular das suas obras, pela sua prodigiosa imaginação criadora, por uma sintaxe esplendorosa e pelo deleite estético produzido na consciência do leitor. Ainda não há muito referia ele que 'os falsos escritores estão a produzir falsos leitores e não a aumentar os índices de leitura em Portugal e no mundo".

Vitor Rui Dores

Tribuna das Ilhas

29 de Janeiro de 2010

 

As moscas

"A Justiça não é credível, é lenta, sem qualidade, sofre de corporativismo, é politicamente manipulada. Além disso, prejudica a economia, a sociedade e os cidadãos. É globalmente injusta. Os principais actores do Estado de Direito sabem disso e põem recorrentemente o dedo na ferida. Porém, não acontece nada. Nem sequer mudam as moscas".

Mário Contomélias

Jornal de Notícias

29 de Janeiro de 2010

 

Quem acredita?

"Decidimos aumentar o nosso défice não por descontrolo, mas para ajudar a economia, as empresas e as famílias', disse ontem o primeiro-ministro na conferência 'Orçamento de Estado 2010', promovida pelo 'Diário Económico' e pela Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas".

Diário de Notícias

2 de Fevereio de 2010

 

Núncio do FMI

"Constâncio cobra por mês 17 mil euros dos nossos impostos para vir regularmente a público manifestar-se surpreendido com o que se passa sob o seu nariz e, no entanto, é incapaz de surpreender seja quem for. Lebre do Governo sempre que há que preparar terreno para más notícias, chegou a vez de vir opinar que, depois do congelamento dos salários, é preciso aumentar o IVA. (...) De uma só inventiva cajadada, o socialista Constâncio faz-se assim, de novo sem surpresa, núncio do FMI".

Manuel António Pina

Jornal de Notícias

3 de Fevereiro de 2010

 

Júpiter e Sócrates

"A filosofia política mais profunda a que José Sócrates conseguiu chegar foi a de que não interessam as acções praticadas, mas a imagem que delas fica - e que os fins justificam os meios. Júpiter, quando queria perder os homens, enlouquecia-os primeiro. Sócrates lançou-nos noutro desvario, o de nos voltar uns contra os outros. Há cinco anos que andamos a odiar-nos: aos juízes, aos funcionários, aos jornalistas, aos professores, a estes e àqueles, tantos nem sei se também entram os frades e os monges neste rol de fel movido por uma inveja instlidad pelo 'agarra que é privilegiado!' (O aprendiz Paulo Portas ada a treinar este jogo de injectar ódio entre os que têm e os que não têm o rendimento mínimo...)".

Óscar Mascarenhas

Jornal de Notícias

15 de Fevereiro de 2010

 

Opiniões

"Tentar alterar a linha editorial de órgãos de comunicação para não serem hostis ao Governo não é crime de atentado ao Estado de direito. Este é o principal argumento usado pelo procurador-geral da República nos despachos que arquivaram o caso de que envolve José Sócrates".

Jornal de Notícias

18 de Fevereiro de 2010

 

Aparências

"Nas sociedades de massas, as aparências circulam como produtos tóxicos. E o mais difícil nisto tudo é isolar e compreender a realidade".

Pedro Lomba

Público

18 de Fevereiro de 2010

 

Portugal degrada-se

"O tempo passa, os acontecimentos, às vezes perturbantes, sucedem-se, tanto interna como externamente. A situação interna, não podemos deixar de o reconhecer, degrada-se, centrada como está no imediatismo - e nos faits divers - sem um plano estratégico, a médio prazo, para sairmos da crise. Tudo se joga no dia-a-dia, sem uma visão coerente de futuro".

Mário Soares

Diário de Notícias

2 de Março de 2010

 

Boa notícia

"A Fundação José Saramago vai ocupar o edifício histórico da Casa dos Bicos, em Lisboa, com um projecto que promove literatura, direitos humanos e meio ambiente. O acordo foi assinado entre a Fundação e a Câmara Municipal de Lisboa, que cedeu o edifício, depois do projecto ter sido aprovado em reunião do executivo municipal. O prémio Nobel da Literatura já prometeu honrar com visitas e eventos a Casa dos Bicos".

Jornal "i"

2 de Março de 2010

 

Era só o que faltava

"O reforço das exigências de austeridade será a moeda de troca da criação de um Fundo Monetário Europeu (FME) nos moldes do FMI dirigido aos países da UE, um dos elementos-chave em reflexão. Olli Rehn, comissário europeu responsável pelos assuntos económicos e financeiros, deixou ontem claro que eventuais intervenções de um fundo deste tipo terão como contrapartida "condições estritas" nos países visados, o que pressupõe pelo menos algumas das reformas impopulares que celebrizaram as intervenções do FMI".

Público

9 de Março de 2010

Abaixo a inteligência?...

Como se conhece, a horda nazi-fascista tinha horror aos livros e à cultura. O mesmo é dizer, que abominava o progresso e a emancipação da Humanidade. Foi no seu seio que germinou a serpente da ignomínia e, sob as botas cardadas das milícias nazis, que arderam milhares de livros. Na esteira, aliás, do bestial grito "Abajo la inteligencia, viva la Muerte", proferido pelo general fascista Milan Astray, na Universidade de Salamanca, em plena da Guerra Civil de Espanha, em 1936.

Claro que os tempos são outros. A dominação ideológica não se impõe, hoje, a pontapés, nem sequer aos gritos. O ataque à inteligência e à cultura são hoje mais subtis e sinuosos. Hoje em dia, os livros não vão para a fogueira, ora essa! Vão para a guilhotina!...

E impolutas consciências lembram-nos que os tempos não se compadecem com censuras e inquisições. Somos livres, enfim, nas nossas escolhas, - dizem-nos - designadamente, nas nossas escolhas culturais...

Seremos?...

Vejamos. Como os mais atentos sabem, recentemente, um "moderno" e poderoso grupo livreiro abateu dezenas de títulos de autores como Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Maria Velho da Costa, António Ramos Rosa, Manuel António Pina, Eduardo Lourenço, Maria Helena da Rocha Pereira, Camilo Castelo Branco, Urbano Tavares Rodrigues, (entre outros) bem acompanhados, aliás, por autores como Hölderlin e Goethe.

Saíram, assim, de circulação e dos escaparates das livrarias milhares de exemplares da obra de autores de referência da cultura portuguesa, com os quais muitos portugueses aprenderam não apenas o prazer da leitura, mas sobretudo, o exemplo de dignidade cívica.

Justificação para a moderna barbárie: "o desinteresse do mercado por estes livros!"... Como se não se soubesse como o "interesse do mercado" se constrói....

As poderosas e agressivas campanhas de marketing formatam o gosto e decidem o que se vende e não se vende, com vantagem para a literatura cor de rosa ou esotérica, reproduzindo os modelos sociais dominantes, onde não cabem, naturalmente, os livros de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Maria Velho da Costa, António Ramos Rosa ou de Urbano Tavares Rodrigues. Ou Hölderlin. Ou Goethe...

Por outro lado, a sobreprodução editorial, a que a taxa marginal de lucro permanente obriga, determina a velocidade de circulação dos livros nos escaparates das livrarias, aumentando o refluxo dos livros com conteúdos mais exigentes, que assim são duplamente ostracizados - pelas opções editoriais e de marketing e pela procura do público.

Assim, nesta voragem do mercado, se abate a inteligência...

Sabemos que a actuação da editora em causa despertou as pusilanimidades e as irritações de costume. Mas não me recordo (e quem me dera estar enganado) de ter visto colocada a questão de saber se os livros, como qualquer outro objecto cultural, poderão ou deverão ser considerados como mera mercadoria, sujeita à pura lógica do mercado e do lucro...

É que se a resposta for positiva, teremos então que reconhecer, invertendo lógica de um consagrado axioma capitalista, que a "má moeda expele a moeda boa..."

Manuel Veiga

http://relogiodependulo.blogspot.com/

21 de Março de 2010

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