Petrocoop - Localização estratégica combate a concorrência

Nº 1711 - Primavera 2010
Publicado em Economia Social por: Ana Goulart (autor)

Começou como cooperativa de consumo dos trabalhadores da Petroquímica, porém, a necessidade de sobreviver fê-la mudar os estatutos. Hoje, com três lojas no Baixo Alentejo orgulha-se de ser a segunda maior cooperativa de consumo do País. Crescer mais não é objectivo recusado, mas as opções têm sempre de ter em conta a concorrência feita pelas grandes superfícies. Até porque, do ponto de vista social, tem compromissos que a impedem de correr riscos se estes não foram bem calculados.

Corria o ano de 1981, quando um grupo de trabalhadores da Petroquímica fundou a Petrocoop que, no ano seguinte, iniciou a sua actividade vendendo produtos de primeira necessidade aos trabalhadores da grande empresa sediada em Sines.

Nesta primeira fase, o supermercado estava localizado junto às fábricas da empresa, mas, em 1986, mudou-se para Santo André. "Deu-se assim início à grande expansão da Petrocoop que, inicialmente, tinha poucos sócios e um volume de negócios muito pequeno", recorda José António Peredo que exerce as funções de gerente das três lojas que a cooperativa hoje detém. À mudança de local seguiu-se uma alteração aos estatutos, possibilitando a quem assim o quisesse ser sócio da Petrocoop ao contrário do que estava anteriormente previsto de que apenas os trabalhadores da Petroquímica e da Epsi (associada da primeira) o podiam ser.

À loja de Santo André seguiu-se a de Porto Covo, aberta há sete anos, e a de Ermidas, inaugurada em Maio de 2008. "Hoje temos 5.990 associados e em volume de facturação somos a segunda maior cooperativa a seguir à Pluricoop", orgulha-se José Peredo.

Quando surgiu, a Petrocoop filiou-se da Fenacoop e na CoopLisboa, a central de compras criadas pelo movimento cooperativo que fornece as lojas e supermecados deste, no entanto, acabaria por desvincular-se de ambas as estruturas. "Surgiram divergências. O tempo infelizmente encarregou-se de nos dar razão quando tivemos dúvidas em relação à central de compras. Agora verifica-se que as cooperativas pagam mal à CoopLisboa e esta tem dificuldades em cumprir com os seus compromissos", explica o gerente, adiantando que a alternativa foi passar a comprar directamente aos fornecedores.

"Quando nos mudámos para Santo André só existia a cooperativa da Petrogal que entretanto fechou. Não havia mais nada e pode-se dizer que o mercado estava todo por nossa conta. Depois surgiram as grandes superfícies, as grandes marcas. Entendeu-se então que a cooperativa só tinha futuro se abrisse mais lojas". A procura de espaços para instalação destas obedeceu a um critério: situá-las junto de aglomerados com mais de dois mil habitantes e a relativa distância das grandes superfícies. "Qualquer iniciativa deste tipo comporta algum risco, mas este deve ser o mais pequeno possível, dado que nós temos uma política social de compromisso com os trabalhadores. Na Petrocoop todos os trabalhadores são efectivos, não somos defendores do contrato a prazo. Das 68 pessoas que trabalham na Petrocoop, apenas três têm contrato a termo e a seu pedido. Acreditamos que é a estabilidade de emprego que garante bons funcionários. Funcionamos há 26 anos e ainda conservamos a nossa primeira trabalhadora", diz José António Peredo.

"Crise sentiu-se, mas pouco"

Com a crise a assolar o mundo e muito em particular o País, o comércio a retalho não deixou de se ressentir embora, no caso da Petrocoop e segundo o seu gerente, de uma forma "ligeira". "Claro que a crise não é apenas para os outros, mas, felizmente, acabámos o ano com uma quebra muito ligeira de 1,4 por cento em relação a 2009". Para isso também contribuiu a baixa de preços no sector alimentar, o que fez "que se tivesse vendido maior quantidade de produtos, mas a menor preço".

Assim, 2009 chegou ao fim e a Petrocoop teve 60 mil euros de resultados positivos, os quais - "as cooperativas investem os seus lucros" - servirão para reforçar a posição da cooperativa no mercado, através de investimentos e melhoramentos, mas também para apoiar iniciativas do movimento associativo. Uma delas será a tradicional mostra de teatro de Santo André.

José António Peredo mostra-se satisfeito com estes resultados que permitiram, em 2009, ultrapassar os oito milhões de euros em vendas e serviços e recorda que os encargos fixos com salários e segurança social totalizam cerca de 800 mil euros. "Para todo este equilíbrio nas contas foi essencial o cuidado na gestão que possibilitou que um ano que se apresentava difícil terminasse com os resultados obtidos. Este equilíbrio foi tido em conta na política de preços e margens de comercialização que permitiu recuperar as quebras iniciais do ano".

Um ano passado difícil que obrigou a cautelas mesmo em matéria de investimentos. "Ainda pensámos ficar com a loja da Alicoop de Vila Nova de Milfontes, mas por prudência não avançámos com o negócio", refere o gerente da Petrocoop que questionado sobre a possibilidade de a cooperativa ter a breve trecho uma nova loja responde: "as perspectivas para 2010 não são muito melhores, nem muito diferentes das que tínhamos para 2009, no entanto, estamos sempre em posição de estudar novas propostas".

Com os supermercados abertos a sócios e não sócios - embora os primeiros beneficiem de algumas regalias -, a Petrocoop tomou conta do mercado em três localidades do Baixo Alentejo e os resultados obtidos permitem-lhe encarar o futuro com confiança. Aliás, o gerente faz questão de apontar que, em 2009, os encargos bancários somaram 40 mil euros, porém, os proveitos financeiros atingiram quase 60 mil euros, para ilustrar a saúde financeira de que goza a cooperativa.

Também a concorrência não é temida. "Temos uma forte ligação às comunidades e estas vêem na cooperativa um parceiro para muitas das suas realizações. Esta ligação e diálogo com as forças vivas não se encontra nas grandes superfícies e é natural que a comunidade retribua, quer seja através da inscrição como sócio quer seja fazendo compras nas nossas lojas".

Este é um exemplo, entre tantos outros, que ilustram a importância que o movimento cooperativo tem do ponto de vista económico e social e que continua a escapar aos governos, pese embora os discursos com sinal contrário. Prova disto é a ausência de estratégias de apoio ao sector, quer nos orçamentos de Estado, quer no Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC).

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