" Amigos, hoje vos hei-de falar da máxima expressão da vida forte - a liberdade. "

Nº 1710 - Inverno 2009
Publicado em Memória por: Carlos Leone (autor)

Sob a égide de Cartas à Mocidade, encontramos vários laços: históricos, políticos, culturais, numa palavra, cívicos. Palavra, é bom de ver, particularmente cara a Cortesão.

Originalmente escritas e publicadas na Seara Nova entre 1921 e 1925, as cartas só tomaram a forma de livro em 1940. Cortesão juntou às seis que já havia publicado (a última das quais reviu substancialmente) uma sétima, de 1940. No intervalo entre a publicação na revista e o surgimento em volume, muito se passara: a queda da República em ditadura militar; a implantação do Estado Novo; a Guerra Civil de Espanha; o início da Segunda Guerra Mundial. Na própria vida de Cortesão isso se sentira: a oposição, revoltosa, contra a ditadura logo em 1927; o exílio em França (participando na chamada "Liga de Paris") e o período subsequente em Espanha; a prisão em Portugal. E, ao publicar Cartas à Mocidade nas edições da Seara, a partida para um exílio brasileiro, que viria a durar até 1957.

No Prólogo que escreve para a edição de 1940, Cortesão afirma terem as cartas um "pequeno valor histórico: o de esclarecer até certo ponto algumas das ideias fundamentais com que o grupo da Seara Nova tentou algum tempo servir de orientador." De facto, as cartas respiram um certo ar do tempo, ou talvez melhor um "ar de família espiritual" (de novo Cortesão, no mesmo passo) em que, como é lógico, a educação foi problema decisivo. Ainda no prólogo, é o próprio Cortesão a notar como a edição em livro inclui uma sétima carta mais próxima da sua experiência pessoal, quer no tom, quer no conteúdo, ao fechar o livro com "amargura". Sem renegar crença alguma, apenas menos cândido na sua confiança nos homens, Cortesão publica o volume no momento em que abandona Portugal "como uma despedida, repassada de saudade e cheia de esperança."

Há de facto uma unidade das seis cartas dos anos de 1920, mesmo com a revisão da última, que a sétima carta incluída para fecho do livro vem alterar. Para aclarar como esse acrescento não transtorna, antes completa, o conjunto, cumpre sistematizar as seis cartas iniciais.

A primeira carta retoma a crítica da República e da sua corrupção interna em moldes muito seareiros. O mote de "republicanizar a República" é decisivo aqui. A segunda carta prolonga-a, mas focando já a Historia de Portugal e a progressiva perda de liberdade que a decadência veio criar, numa argumentação também seareira mas na qual as referências a S. Francisco de Assis e o tom mais edificante do que polémico distinguem já a pena de Cortesão.

O tom edificante serve um propósito inteiramente lógico num volume de cartas destinado a jovens, o de influenciar a formação do carácter. É o ponto central da terceira carta, em que Cortesão discute como se processa a formação de um carácter pessoal, defendendo que "de todos os factores de transformação do indivíduo, o mais poderoso elemento de criação pessoal do carácter é a vontade." Nesta carta reencontramos não só as posições de moral educativa que associamos à Seara (auto-formação, responsabilização pela prática, sociabilidade) mas também advertências que remontam à série de artigos sobre o benefício social da instauração das universidades populares, prevenindo pela educação a desmoralização dos costumes. O estilo é afirmativo ("Sê desabrido na defesa de ti próprio") e a convicção é clara ("a verdadeira firmeza e coragem moral implicam uma resistência invencível a todos os obstáculos, perigos e desgostos"). Apesar do sentimento posto na escrita, do companheirismo com o jovem leitor, fala já o Mestre.

Sem surpresa, a quarta Carta toma por tema a disciplina. A sua falta, começa por observar o Autor, é causa maior dos males nacionais. Cortesão refere-se à disciplina interior, resultante de um carácter bem formado. É a carta mais esquemática e mais datada do conjunto, expondo com alguma minúcia ensinamentos de Séneca e, sobretudo, os doze preceitos de disciplina interior de Benjamin Franklin. Mas, logo na quinta Carta, Cortesão reassume o seu papel de pedagogo e incita os jovens ao traçar da regra de conduta própria de cada um. Assim, a apresentação das principais características do meio social português suscitam-lhe uma adaptação do modelo de Franklin, reduzindo os doze mandamentos deste a cinco e somando-lhe mais dois, ficando o elenco assim composto: Cultura física; Moderação; Método; Cultura do espírito; Castidade; Justiça; Piedade religiosa.

Estas virtudes (os seus próprios termos, desde logo) pouco participam da cultura actual, a pedagógica ou a juvenil, tanto faz. Mas Jaime Cortesão acreditava profundamente nelas:

"Pensai o que seria numa sociedade como a nossa, onde pela ausência duma opinião pública esclarecida e a corrupção de quasi toda a imprensa, a mentira, a injustiça, o cinismo e a mediocridade vencem, se vós, moços, tornados homens amanhã, na maioria, constituindo uma elite moral cheia de força, viésseis afirmar, com firmeza inabalável toda a verdade, dando amparo aos fracos e oprimidos e castigando com severidade os vendilhões do templo".

Já a última das Cartas da série inicial, sexta na ordem do livro, é dedicada à tradição, afinal um modo de abordar a História de Portugal. O tema formava um corpo autónomo no pensamento de Cortesão. Nesta Carta, o limite histórico do apogeu nacional é identificado em meados do século XVI. E toda a argumentação se desenvolve no sentido de indicar como esse apogeu se construiu no exercício daquelas virtudes já recomendadas à mocidade, assim diferenciando a tradição essencial portuguesa (remota e esquecida) da tradição do aparato exterior, que retém apenas o brilho fátuo sem cuidar de o garantir no futuro. Mais mundo há a descobrir: "O que outrora se realizou à superfície, realiza-o agora na profundidade."

A última Carta, surgida na Seara Nova a 23 de Março de 1940 (no próprio ano, portanto, do livro) intitula-se "Homo" e consiste numa meditação sobre as limitações e a pequenez da civilização no contexto da História Universal. É um corpo estranho à argumentação pedagógica das seis primeiras Cartas mas não a contradiz. O ponto da meditação, bem entendido, não é tanto científico (embora os comentários sobre a evolução da espécie humana mostrem bem a articulação entre o Cortesão médico e o historiador) como ético. Ao concluir, dificilmente poderia ser mais explícito: "E conta que hás-de sofrer tanto mais, quanto te decidires a marchar livremente sobre os teus próprios pés." É uma carta para homens, porventura aqueles mesmos jovens que o haviam lido quinze anos antes. Mas sobretudo, como o prólogo avisara, uma carta de significado autobiográfico.

Entre as esperanças de emenda e auto-engrandecimento de Portugal pela juventude e a amargura perante as consequências de se caminhar livremente, Cortesão mudou, mas apenas por ver confirmadas as suas piores expectativas e não as melhores. Portugal mudara também, a Europa (o mundo) encontrava-se em guerra, a História parecia não ser universalista mas suicida. Nada disto podia fazê-lo abandonar os seus princípios, cada vez mais necessários, e tudo isto justificava a publicação conjunta das Cartas, também ela parte de um trajecto pessoal (e social) de Cortesão já extenso no tempo. Compreendido ou não, bem recebido ou não, e sem dúvida frustrado, o civismo de Jaime Cortesão é o fio condutor de todos estes textos e, é justo dizê-lo, de todo o seu labor - político, educativo, artístico, científico.

A Cortesão, em 1940, restava apenas seguir o caminho do exílio em direcção ao "mundo que fez o Português" (Sílvio Lima), rumo ao Brasil que tanto estimava e que, honra lhe seja prestada, o soube acolher e respeitar, num momento de verdadeira lusofonia. Ainda que, felizmente, a realidade do exílio seja já coisa do passado, muitas e fundadas razões há para revisitar estes textos, em tantos aspectos ainda tão actuais. E ainda que não o fossem, a grandeza da prosa de Cortesão bastava para os recomendar a todos os que prezam a língua e a cultura portuguesas.

P.S. Este texto adapta a comunicação «O civismo político nos homens da Seara Nova: o caso de Jaime Cortesão» apresentada em Outubro de 2009 ao Colóquio «Proença, Cortesão, Sérgio e o Grupo da Seara Nova». O autor deseja agradecer à Seara Nova o convite para apresentar nas suas páginas o essencial dessa intervenção.

Jaime Cortesão, Cartas à Mocidade, II. O presente texto reporta-se à edição original das Cartas, mas o seu autor é responsável pela edição dessa obra do seareiro no âmbito das Obras Completas de Jaime Cortesão (em curso de publicação na INCM), sob o título Cartas à Mocidade e outros textos (ainda por publicar).

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