Factos & Documentos
Nº 1710 - Inverno 2009
Publicado em Factos e Documentos por: Revista Seara Nova (autor)
"Uma burguesia, cívica e poiliticamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedem entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quatro do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de dela fazer saca-rolhas. Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundido, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar".
Guerra Junqueiro,1896
Vulgaridade exposta
"Nunca percebi as razões para o endeusamento sustentado da figura de Cavaco. Nem, confesso, a especial deferência pelas supostas qualidades excepcionais do professor.(...) Cavaco Silva foi Primeiro-Ministro em anos de vacas gordas. Mudou Portugal? Mudou. Tornámo-nos um País de patos bravos sem saber ler nem escrever. De horizonte e de futuro, os seus governantes deixaram menos que zero. Mas o cavaquismo fez escola: um crescimento pensado a betão e asfalto, liberalismo sem freio e uma certa modernidade tecnocrática. (...) Agora, a sua declaração ao País sobre o chamado "caso das escutas" torna-o definitivamente mortal aos olhos de quem o julgava com dotes divinos. Atira a pedra e esconde a mão. Lança novas interpretações e mistérios. Não confirma nem desmente coisa nenhuma, antes pelo contrário: junta ainda mais suspeitas às teses conspirativas e mais lama à chafurdice. Já tínhamos pântano, disfarçado de cinismo e hipocrisia institucional. Agora temos, com uma clareza meridional, a fractura exposta da nossa vulgaridade".
Miguel Carvalho
Visão, 30 de Setembro de 2009
"Não há máfia em Portugal porque não é preciso ameaçar gente com uma pistola. Basta abanar umas notas".
João Miguel Tavares
Diário de Notícias, 3 de Novembro de 2009
Putrefacção social
"Se tivermos em conta alguns pormenores divulgados sobre este caso da 'Face Oculta' não deixa de ser curioso observar o modo como um pequeno empreendimento de sucateiro com a criação tentacular de um polvo em que a genuína inteligência do desenrascanço com a cumplicidade de quem sabe 'puxar cordelinhos' chegou a um enorme negócio de sucatas feito. Enfim, um caso de polícia. Mas, sobretudo, um 'delicioso' caso de estudo sobre a corrupção à portuguesa. Porém, neste suceder de casos que indagados pela Polícia Judiciária e pelo DIAP há uma outra face que me perturba: os casos vão-se sobrepondo uns aos outros. Surgem nos média um a um. Mas, regra geral, depois 'hibernam', anos a fio, nos tribunais. Perde-se na memória qual foi o desfecho. Que julgamento receberam da justiça. E este é o oculto desta face que corrói por dentro toda a confiança de uma sociedade que fica sem saber se afinal o crime compensa. De caso em caso até à putrefacção social".
Paquete de Oliveira
Jornal de Notícias, 3 de Novembro de 2009
O senhor Silveira
"O Governo anunciou que vai aumentar as pensões. Quanto mais baixa a pensão, maior será o aumento. No limite, pode chegar à loucura de subir 1,25%. Mais ainda, como oportunamente lembrou o primeiro-ministro; se a lei fosse cumprida, as pensões não só não aumentariam, como teriam de diminuir. Tudo por causa da inflação negativa. Ou seja, os pensionistas com pensões miseráveis terão um aumento real que chega aos 2%. E em tudo isto, o Estado vai gastar, de forma altruísta, 150 milhões de euros, que tanta falta fazem, por exemplo, para tapar o buraco do BPN, ou para a construção de uma terceira ponte sobre o Tejo. O senhor Silveira, reformado e residente em Torneiros, Vila Real, recebeu a notícia de forma efusiva. A sua pensão passará de uns míseros 374 euros, para uns abastados 378 euros. Poderá deixar a venda de couves e grelos que cultiva no quintal, para se dedicar a tempo inteiro a programas de turismo senior".
Rafael Barbosa
Jornal de Notícias, 9 de Novembro de 2009
O Bibi da sucata
"O sistema judicial português enfrenta o imenso desafio de não deixar que o Face Oculta se torne numa segunda Casa Pia. (...) Há ainda um perturbante sinal de identidade com a Casa Pia. É que o único detido, até aqui, é o equivalente ao Bibi e Manuel Godinho, o sucateiro, no mundo da alta finança política não pode ser mais do que Carlos Silvina foi no mundo da pedofilia. Ambos serviram amos exisgentes, impiedosos e conhecedores que tentaram, e tentam, manter a face oculta. (...) Godinho saberá subornar com sacos de cimento um Guarda-republicano corrupto ou disfarçar com lixo fedorento resíduos ferrosos roubados. Saberá roubar fio de cobre e carris de caminho de ferro. Mas Godinho não é mais que um executor empenhado e bem pago de uma quadrilha de altos executivos, conhecedores do sistema e das suas vulnerabilidades. (...) Nas finanças públicas, Manuel Godinho não é mais do que um Carlos Silvino da sucata. Se se deixar instalar a ideia de que ele é o centro de toda a culpa e que morto este bicho está morta esta peçonha, as faces continuarão ocultas. E a verdade também".
Mário Crespo
Jornal de Notícias, 9 de Novembro de 2009
Rodeado de escândalos
"Há dez minutos que não vem a público um escândalo envolvendo o nome de José Sócrates. Que se passa com este país? O escândalo Face Oculta perdeu o encanto inicial, o escândalo Freeport deixou de produzir notícias, o escândalo das escutas ao Presidente da República esmoreceu, o escândalo da Universidade Independente parece estar parado, o escândalo das casas projectadas na Guarda prometeu mais do que cumpriu, e confesso já ter esquecido o que estava em causa no escândalo da Cova da Beira. Julgo falar en nome de todos quando digo que precisamos urgentemente de um novo escândalo. José Sócrates, certamento, não se importa: o primeiro-ministro parece ter tomado uma vaciona contra os escândalos. Não há suspeita de indecênca escabrosa à qual ele seja vulnerável. Políticos menos resistentes já foram obrigados a demitir-se por causa de anedotas, de sisas que afinal tinham pago, de corninhos. O primeiro-ministro transita de escândalo em escândalo como Tarzan de liana em liana. Nenhum homem é uma ilha, diz o poeta, mas José Sócrates é um homem rodeado de escândalos por todos os lados".
Ricardo Araújo Pereira
Visão, 26 de Novembro de 2009
Espectadores
"Quem são os seus espectadores?
Todos aqueles que não querem viver num mundo sem um sistema de saúde digno, onde cada pessoa pode ter uma arma de fogo e um presidente pode declarar guerra sabendo que está a mentir aos cidadãos".
Michael Moore
Diário de Notícias, 26 de Novembro de 2009
A lebre
"Por vocação ou porque é o modo como entende as suas funções de governador do Banco de Portugal, Constâncio costuma ser a 'lebre' do Governo, aparecendo a apalpar terreno sempre que há medidas restritivas, previsivelmente impopulares, no horizonte orçamental. Por esta altura do ano, quando se prepara o Orçamento, é habitual vê-lo justificar, em adequado socioleto económico, a 'contenção', ou 'prudência', salarial, eufemismos pios da redução do poder de compra. Desta vez, porém, foi a 'necessidade' de aumento dos impostos, que permitiu ao Governo, desmentindo-a de imediato, marcar pontos politicamente. A coisa funciona como os clássicos 'polícia mau' e 'polícia bom': aos olhos dos eleitores, a bondade do Governo resulta mais óbvia face à madldade técnica dos anúncios catastróficos do governador".
Manuel António Pina
Joranl de Notícias, 26 de Novembro de 2009
Tragédia de mentiras
"Pouco podemos esperar desta democracia. Chamam-lhe 'representativa' mas, na verdade, pouco ou nada nos representa. Vivemos não numa comédia de enganos, mas numa tragédia de mentiras. Os conceitos morais, os princípios éticos foram pulverizados".
Baptista Bastos
Jornal de Negócios, 27 de Novembro de 2009
Terceira via
"Surgiu finalmente a terceira via, a da ingovernabilidade, também ditada pela incapacidade de antecipar tudo o que aparece para corrigir as medidas erradas do Governo de maioria absoluta. Esta operação foi montada em acção concertada do líder parlamentar do PS e do ministro Lacão, com as subsequentes declarações de Sócrates e Teixeira dos Santos. Acusaram os partidos de aprovar projectos que põem em risco o défice e as contas públicas. Só faltou culpar as oposições pelo défice de 8%, pela recessão, pela dívida internacional... (...) Para sustentar a operação, Sócrates divulgou números de receita e despesa totalmente fantasistas; acena com aumento de despesa em projectos que foram rejeitados; mente no pagamento especial por conta, dizendo que há menos receita quando, quem tiver de pagar paga o mesmo, mas na altura própria, não por antecipação; mente na devolução do IVA em 30 dias sabendo que não há perda de receita quando o dinheiro não é do Estado, mas este está mal habituado e só o devolve ao fim de três meses; omite que o 'pacote' foi aprovado na generalidade e que há projectos muito diferentes. Enfim, um acto que bem comprova a ética de Sócrates..."
Honório Novo
Jornal de Notícias, 30 de Novembro de 2009
Portugal dos pequeninos
"Dez anos depois, a estratégia de Lisboa deu no que deu. E nós, o que ganhámos com isso? Amanhã entra em vigor o Tratado de Lisboa. Dizem que vai tatuar a nossa capital na história europeia ao lado de Nice ou Maastricht. Dizem que temos de estar orgulhosos. Este é o Portugal dos pequeninos. Por tudo isto convém não embandeirar em arco na festa que alguns líderes europeus vêm amanhã fazer a Lisboa, e fazer de conta que as escolhas políticas não têm custos. Para qualquer europeísta que se preze, convém não esquecer que o processo de ratificação das propostas deste Tratado foi uma vergonha. Três referendos negativos contornados à bruta e muitas promessas de referendo - como em Portugal - que ficaram na gaveta, provavelmente para sempre".
Luís Rego
Diário Económico, 30 de Novembro de 2009
