Um País à deriva
Nº 1710 - Inverno 2009
Publicado em Editorial por: Revista Seara Nova (autor)
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crise económica e financeira só no discurso ministerial é apresentada como evidenciando sinais de abrandamento ou de retoma.
O patronato chantageia o poder político, obtendo benesses escoradas no permanente medo do governo face aos patrões.
A classe empresarial dominante deu recentes provas de quão troglodita é, ao não querer honrar os compromissos assumidos em concertação social
Os valores predominantes são os de uma sociedade em decadência moral, de resto importados da Europa e do restante mundo capitalista
Os sinais gritantes da profundidade da corrupção são o corolário lógico de toda esta situação. Lá diz o povo que "não há fumo sem fogo"
A descrença na Justiça, o mal estar generalizado e a animosidade aos órgãos de poder são sentimentos marcantes nos dias que passam
O novo governo impressiona pela quase ausência de competências reconhecidas. Não apresenta uma consistência de orientações para enfrentar a crise |
O final do ano de 2009 aponta-nos um País mergulhado numa crise profunda, crispado num azedume político a todos os níveis e completamente à deriva quanto ao rumo do seu devir. A crise económica e financeira só no discurso ministerial e nas "análises" de alguns comentadores políticos mais comprometidos é apresentada como evidenciando sinais de abrandamento ou de retoma. No entanto, o que é assustador, é a evolução negativa do PIB e o acentuar da divergência com as médias europeias; o nível de endividamento do País; o crescimento do endividamento público e do défice orçamental; a quebra do investimento; as dificuldades (provavelmente crescentes) da exportação; a retracção da procura interna; o aumento contínuo do desemprego; a quebra da capacidade produtiva, com o sucessivo encerramento de empresas; o agravamento das desigualdades sociais. Este agravamento é fruto da recessão económica e das opções da classe política dirigente, sempre do lado dos poderosos e com baixíssimo pendor social: é não apenas o aumento do número de desempregados, mas também a precariedade, as condições limitativas da atribuição do subsídio de desemprego, a insuficiência do combate à pobreza (onde predomina uma farisaica visão caritativa), o baixo nível da maioria das pensões de reforma, tornando ridículo o nível de correcção anunciado pelo governo. O patronato chantageia o poder político, obtendo benesses escoradas no permanente medo do governo face aos patrões. A projectada redução dos encargos patronais para a segurança social em certos casos do aumento do salário mínimo nacional (SMN) é uma prova chocante deste medo. Bem se pode dizer que é "dar com uma mão e tirar com a outra". A classe empresarial dominante deu recentes provas de quão troglodita é, ao não querer honrar os compromissos assumidos em concertação social quanto ao SMN ou na pretensão dos hipermercados de instituírem as 60 horas como duração possível da jornada de trabalho semanal (caminho aberto pelo Código do Trabalho de José Sócrates e Vieira da Silva). E que dizer, depois do governo "oferecer" milhões à banca, "safar" bancos defraudados pelos seus gestores, autorizar spreads e taxas de juro elevadíssimos, não usar o poderoso instrumento de que dispõe - a CGD - para moralizar o sector e pô-lo ao serviço dos cidadãos e das PME's, ficar indiferente aos exorbitantes vencimentos e gratificações dos gestores bancários - "e que dizer", dizíamos - do desafio de um gestor bancário de top, em reunião com seus pares e presenças governamentais, exclamar, qual grito de Ipiranga: "deixem-nos trabalhar!". Não é de menosprezar que ministros das finanças ou da economia presentes ficariam atemorizados e subservientes. Não é apenas neste campo mais material da vida que a sociedade portuguesa se vem degradando. Os valores predominantes são os de uma sociedade em decadência moral, de resto importados da Europa e do restante mundo capitalista. Consumismo irracional, ascensão social sem olhar a meios, ignorância dos laços de solidariedade, condescendência perante comportamentos ilícitos, desprezo pelo pensamento filosófico, subjugado pelo pendor tecnocrático. De par vão a degradação da consciência democrática, o respeito das regras democráticas limitado aos aspectos formais, o exercício do poder político como meio de alcançar objectivos de enriquecimento e sucesso social, a mediocridade que se apossou dos órgãos de soberania, o uso indecoroso de todos os meios baixos para vencer na vida. Os sinais gritantes da profundidade da corrupção são o corolário lógico de toda esta situação. Lá diz o povo que "não há fumo sem fogo". Num simples e rápido exercício de memória, podemos arrolar todos estes casos: "face oculta", Freeport, compra de submarinos, abate de sobreiros, adjudicação do Magalhães, Fundação para as Comunicações Móveis, golpes no BCP, BPN ou BPP, parque de contentores em Lisboa, "operação furacão", venda de imóveis dos CTT, adjudicações de auto-estradas. A descrença na Justiça (tão politizada que ela está!), o mal estar generalizado e a animosidade aos órgãos de poder são sentimentos marcantes nos dias que passam. Só que esta última é injusta e grave. Injusta porque avalia todos os políticos por igual (o que se houve nos meios populares é: "eles são todos iguais, querem é encher-se"). Grave, porque se tem muito de pertinente quanto a titulares em todos os órgãos de soberania, acaba por ser desvalorizadora do regime e das instituições democráticas. Após as eleições europeias, o Primeiro Ministro e todos os demais ministros apresentaram-se menos arrogantes e mais dialogantes. Então pensou-se que se iria verificar alguma inflexão no estilo autoritário de governação, tanto mais que nas legislativas de Setembro o Partido Socialista perdeu a maioria absoluta e careceria de encontrar formas de diálogo com os partidos da Oposição. Afinal o estilo dialogante parece ter sido apenas para uso como propaganda eleitoral. O novo governo impressiona pela quase ausência de competências reconhecidas. Não apresenta uma consistência de orientações para enfrentar a crise. Já não se veste de aluno bem comportado na UE, evidenciando-se antes pelo papel de mandarete dos países e forças que comandam a União. Continua a ignorar a realidade e a mover-se para a venda de ilusões. Encena uma grande operação de vitimização, que não é mais do que chantagem sobre a Oposição. O Primeiro Ministro está desorientado e inseguro. Dirige (dirige?) um governo em desgoverno. Será que este governo conseguirá atravessar, mesmo que titubeante, o ano de 2010? |
