O compromisso maior da Literatura

Nº 1707 - Primavera 2009
Publicado em Cultura por: Ricardo Cabaca (autor)

Em determinados períodos da História da Humanidade, a literatura oral assumiu um papel muito importante na transmissão de aventuras, não só os antepassados que conquistavam terras e derrotavam os deuses, mas também nos tempos mais recentes em que o analfabetismo levava os avós a reunirem em torno de si os netos e contavam histórias sobre a família. Essencialmente eram momentos de união. Em termos mais abrangentes, era uma literatura que reunia as pessoas de uma aldeia, juntava um povo em torno de uma lenda que inspirava nas pessoas a ideia de grupo. As palavras ditas por um bardo ou por um ancião eram mágicas, assustavam se era esse o objectivo ou inspiravam para a luta se fosse o intento do chefe da aldeia. A literatura oral tinha ainda outra particularidade: não era física e ficava arrumada na memória de quem sabia as histórias, podendo assim ser contada num momento em que alguém indesejado estivesse ausente. Acabava por ser uma arma livre e sem qualquer tipo de vigilância, por isso os homens-livro, no filme Farenheit 451 de François Truffaut têm por missão decorar um livro e a partir daí contá-lo à Humanidade vindoura. Tudo isto se passa numa sociedade totalitária que proíbe os livros e os pensamentos próprios. E entretanto a Literatura tornou-se numa actividade perigosa, alguns consideravam-na subversiva, na medida em que resgatava os sonhos e os ideais do esquecimento para as mãos das pessoas, mãos transformadas em armas que conseguiam derrubar as muralhas mais sólidas do mundo.

Na verdade, os escritores comprometidos social e politicamente com a justiça, com a verdade e com o respeito mais puro pelos direitos humanos, não se sentirão menos artistas em relação a outros que abordem temas mais artísticos, pois a arte não pode estar alienada da vida, ou pelo menos, perde um lado importantíssimo se considerar que a realidade concreta não tem lugar na Literatura. Nas décadas de 1920-1940 discutiu-se muito esta questão, colocando-se os presencistas como arautos da arte literária em Portugal, uma vez que praticavam a arte pela arte, enquanto os neo-realistas se limitavam a ser panfletários e assalariados de determinados pensamentos ou conjuntos políticos, escritores sem talento e romances sem qualquer estrutura, apenas um veículo de ideias partidárias. Os autores da Presença consideravam apenas um escritor com qualidades ou talento para se afirmar na literatura portuguesa se estivesse fora do Neo-Realismo, sobretudo se tivesse passado pelo movimento realista e posteriormente tivesse adoptado outra estética, isso seria evolução. Contudo, os escritores neo-realistas acabaram por ser escritores e cidadãos preocupados, homens com objectivos que ultrapassaram o espaço dos livros. Eram escritores na sua totalidade, não usando a literatura como instrumento, aquilo que fizeram foi uma simbiose perfeita entre o talento e as ideias sociais.

Naturalmente a Literatura não pode obedecer a regras que excluam pensamentos que aparentemente estão longe dos cânones da mesma, e sobretudo, os presencistas estavam completamente errados ao adjectivar os autores neo-realistas, menosprezando a qualidade literária dos textos, mas criticando acima de tudo a posição política dos homens que uniram a realidade social e a arte literária. A ideia arte pela arte é um nobre grito de guerra, sobretudo se tomarmos em consideração a entrega e a forma como a arte impulsiona o mundo. No entanto, a arte está muito próxima da vida – a arte imita a vida ou a vida imita a arte? -, daí o lema dos presencistas ser ambíguo, ou seja, a arte só se podia servir a si mesma, excluindo o que estivesse para lá dela. Nesse caso, teríamos de considerar a política como um elemento não-literário, e confesso que seria o primeiro a defender esta posição, a política não é arte, mas faz parte da vida real, a mesma que cerca a literatura. Sem dúvida alguma que a realidade da época obrigou (moralmente) os neo-realistas a reagir perante a opressão fascista, levando-os a denunciar a exploração e o mundo injusto dos proletários, o medo que perseguia as pessoas, a mentira de um mundo maravilhoso que tornava a vida ainda mais sufocante. Perante este cenário a crítica era inevitável e as pessoas não se podiam sentir sozinhas no mundo, a sua angústia devia ser denunciada por alguém. O neo-realismo teve um papel fundamental, tendo sido um dos mais importantes do mundo, pela sua intervenção, pela sua coragem, e sobretudo, pela forma magnífica como ensinou meninos a serem homens.

A literatura deve intervir na sociedade e deve fazê-lo pelas pessoas, essa é a literatura que apologizo e considero vital na actualidade.

Literatura comprometida

O conformismo resulta mormente de uma estagnação ou de uma aceitação do momento, culminando com um simples encolher de ombros. Ora, a literatura comprometida é tudo menos actos conformados, pelo contrário, são gestos que trazem a força e a voz de milhões de pessoas, é um poema que também é um grito, um conto que a censura não percebe e deixa publicar, mas que os oprimidos perceberão porque é deles que o autor fala.

Neste plano, existem diversos exemplos de autores que partilharam o seu talento com uma causa, colaborando para que a injustiça terminasse. Embora o Neo-Realismo seja o movimento em que o leitor pensará no imediato quando se fala de literatura comprometida, não é certamente o único movimento a enfrentar o poder. Podemos recuar 550 anos (1450-44) para encontrar um exemplo paradigmático, um acto que revolucionou o mundo e sem dúvida alguma fez acelerar o batimento cardíaco dos poderosos da época: a Bíblia de Johhan Gutenberg. Na altura em que o inventor alemão criou a imprensa e traduziu e publicou a Bíblia, os fiéis apenas podiam ter conhecimento das palavras sagradas, através daquilo que os padres liam nas missas, ou seja, as pessoas sabiam aquilo que a Igreja queria e que achava suficiente, nomeadamente o medo do inferno e o temor a Deus. Gutenberg enfrentou todo o poder eclesiástico e apenas ficou a salvo da Inquisição porque a Alemanha estava livre desta instituição divina. A partir daí, a Bíblia passou a estar disponível nas línguas naturais e não somente em Latim. Resta dizer que este pequeno acto foi um dos antecedentes da grande reforma na Igreja: o Protestantismo.

Outro exemplo que considero de extrema importância é o Iluminismo, movimento sobejamente preocupado com os grandes valores e com os direitos humanos, corrente filosófica que combateu com inteligência a decadência do antigo regime francês. Embora nos anos imediatamente antes da Revolução Francesa a repressão tivesse abrandado, a censura tivesse terminado, a qualidade de vida tivesse melhorado, ainda assim não era suficiente porque a maioria da população não era abrangida com a mudança positiva na sociedade. Obviamente que as classes privilegiadas continuavam a ser a nobreza, o clero e a burguesia. Mas para os iluministas franceses a questão era vital e tinha de ser irremediavelmente sanada, não só a queda da monarquia e a instalação da democracia ajudariam a melhorar o sistema, mas também pelo respeito dos direitos humanos. Desta forma, a obra de homens como Voltaire, Diderot ou Robespierre contribuíram significativamente para a queda do regime, fruto das suas críticas, das sátiras ferozes que atingiam no alvo os visados, mas também pela instalação de uma nova mentalidade, um pensamento que finalmente respeitaria o ser humano. Estes autores contribuíam sobremaneira para a queda da monarquia e iniciaram a primeira revolução dos tempos modernos.

Por outro lado, o poder da palavra e da resistência aos regimes opressores, pode ser encontrado nos gestos aparentemente mais simples, nomeadamente a introdução de um determinado livro num contexto totalmente adverso. A simples circulação da Constituição de Cádiz (1812) por terras brasileiras, impulsionou a revolta dos brasileiros e consequente independência. Não podemos esquecer a distância geográfica e cultural, e obviamente a censura que existia no Brasil, para percebermos a importância deste episódio.

A literatura comprometida não é apenas um movimento do passado distante, existiram diversos autores no século XX que lutaram com todo o empenho pela sobrevivência das suas ideias e pela denúncia das atrocidades cometidas contra o povo. Muitos desses autores foram exilados, feitos prisioneiros, ou mortos. Na República Federal da Alemanha, na década de 1960, o escritor Max Von Der Grün, com o livro Fogo Fátuo e Incêndio, causou uma enorme polémica porque denunciava as terríveis condições de trabalho nas minas. O caso passou para o espírito público, à maneira de Jean-Jacques Rosseau, e colocou as empresas a discutir as opiniões constantes na obra. Os mineiros sentiram-se apoiados, os sindicatos divididos, uma vez que alguns deles estariam do lado das empresas. Seja como for, a revelação foi feita e a literatura mostrou poder ser uma arma fortíssima. Ainda na Alemanha, antes da RFA e RDA, vários autores criticaram abertamente Adolf Hitler, nomeadamente Bertolt Brecht, Thomas e Heinnrich Mann, Anna Seghers. Claro está que o regime nazi fê-los calar, a estes e a todos os outros opositores, quer através do exílio forçado, censura nas obras, perseguições, prisões, etc. Destino semelhante teve Stefan Zweig, autor austríaco judeu, opositor incansável do nazismo, perseguido pelo fascismo foi obrigado a exilar-se no Brasil, onde acabou por se suicidar juntamente com a mulher, pois não podia viver no mesmo mundo em que vivia o nazismo.

Os exemplos não acabariam, mas antes de ilustrar o panorama português de combate ao fascismo salazarista, tenho de referir alguns nomes essenciais na resistência. Em França saliento Jean-Paul Sartre que sempre procurou a militância num humanismo libertador, consagrando-se no famoso existencialismo. O papel de Sartre foi criar o existencialismo é um humanismo, aparentemente um paradoxo, uma vez que o existencialismo é o indivíduo e o humanismo é a sociedade. Jean-Paul Sartre não abdicou da luta, esteve preso pelos nazis, foi libertado e voltou para resistir e lutar.

Ainda no universo francês temos a Negritude, movimento literário nascido nas colónias francesas, nomeadamente no Senegal com Leopold Senghor e na Martinica com Aimé Césaire. Este movimento africano procurou a sua própria identidade e ao mesmo tempo libertar-se das pesadas correntes do colonialismo.

Abordo agora o exemplo português, centrando-me essencialmente no Neo-Realismo, movimento emblemático de luta e compromisso. Apenas para enquadrar a análise, saliento um aspecto da imprensa portuguesa que me parece importantíssimo, que é o facto de em 500 anos de existência, 400 terem sido sob a pesada mão da censura. Claro que este pormenor ensinou os resistentes a descobrir as falhas e a ludibriar os censores, quer através de códigos como é caso de Carl (referindo-se a Marx) ou ainda diamática (expressão para materialismo dialéctico), quer através dos espaços em branco deixados pela censura, sinal de parágrafos cortados ou artigos suprimidos. Naturalmente aquele espaço vazio estimulava a imaginação do leitor.

Interessava ao regime fascista português – e em sentido lato a todos os regimes fascistas - um povo analfabeto, um povo que não soubesse interpretar as ideias impressas, em suma, que continuasse sem duvidar das directivas de Salazar, e acima de tudo, que jamais questionasse a razão por não existirem palavras livres em Portugal. O índice de analfabetismo no nosso país, durante o período do Estado Novo, rondava os 70%, uma verdadeira calamidade do ponto de vista humanitário, não só porque deixava os portugueses sem análise crítica, quer se tratasse de política ou simplesmente de idealizar um mundo melhor, como também pouco preparados para melhorar as condições de vida em Portugal ou no estrangeiro. O nosso famigerado atraso de 30 anos em relação aos restantes países europeus não é obra do acaso, mas sim tem a concepção total de Salazar.

A questão era importantíssima e o regime parecia estar a vencer a batalha, poucos sabiam ler os textos que a censura deixava escapar julgando alguns deles inofensivos, ou simplesmente aqueles que entravam clandestinamente e iam parar às mãos dos operários, dos humilhados e ofendidos, à massa gigantesca que aspirava a melhores e merecidas condições de vida. Alguém tinha de levar os livros onde eram necessários, arriscar a vida e ser par das bibliotecas ambulantes (estas existiam, contudo emprestavam livros autorizados pelo regime). E na verdade, foram os autores neo-realistas que levaram a Literatura e a Filosofia para as unidades fabris, à semelhança do que referi no início do texto, os escritores neo-realistas eram os anciãos que reuniam à sua volta os operários e liam em voz alta romances neo-realistas. Foram heróis da alfabetização e construção de uma capacidade crítica que se julgava impensável. Com isto não pretendo afirmar a ignorância dos operários, julgando-os inaptos para tecer duras críticas ao sistema, nem tão-pouco incapazes de problematizar o mundo. Pelo contrário, pelas condições extremamente agressivas em que trabalhavam, os operários formulavam críticas acertadas e tinham como alvo os culpados, não apontavam baterias a inocentes.

No entanto, o trabalho de homens como Soeiro Pereira Gomes conduziu os operários a adquirir a consciência de classe necessária para criticar a uma só voz, o grito em uníssono daqueles que pretendiam a justiça social. Agora eram uma classe de operários e disso tinham consciência perfeita. A Literatura que foi levada para as fábricas abordava essencialmente questões relacionadas com a exploração do homem pelo homem, a relação de forças desigual que estrangulava a vontade dos trabalhadores. A consciência era agora uma realidade que já assustava o poder, representado pelos patrões e pelos capatazes. Curiosamente, estes últimos, eram homens que vinham de classes baixas e o seu trabalho consistia em oprimir os seus pares, facto que foi abordado na temática neo-realista, nomeadamente em Engrenagem de Soeiro Pereira Gomes. Na Literatura neo-realista os heróis eram estes homens, os operários e os camponeses, mas não só, os protagonistas eram uma massa imensa de pessoas, tão diferentes entre si, mas com pontos em comum, mais propriamente o facto de serem oprimidos e explorados que os marginalizava num só grupo.

Embora admire e valorize muito o trabalho de Soeiro Pereira Gomes (autor que viria a falecer na clandestinidade, em 1949, vítima de uma tuberculose que não tratou a tempo), o neo-realismo foi rico ao ponto de ter nas suas fileiras homens militantes pela causa humana, homens que lutaram até ao fim. Refiro-me a Alves Redol, Ferreira de Castro, Joaquim Namorado, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, etc. O papel que cada um assumiu teve a sua importância e com certeza contribuiu para que a cada dia a muralha fascista fosse mais frágil. No campo da teorização destaco o papel de Mário Dionísio que enfrentou as críticas da Presença e cimentou os alicerces do neo-realismo enquanto movimento; Joaquim Namorado foi o grande divulgador e ao mesmo tempo, criador do neo-realismo em Coimbra, cidade importante pela tradição e cultura, mas também pela importância de centro de crítica. Alves Redol foi um dos autores mais importantes e comprometidos com o neo-realismo, assumindo por vezes o papel de “conferencista”, outras o de grande romancista, homem de vivência popular e operária, um autor que veio de povo e para ele escreveu, não esqueceu a sua formação e a dívida que tinha para com os seus companheiros de vida. Obviamente que qualquer um dos autores que referi teve uma importância extrema e que sem eles o neo-realismo português seria incompleto, porém, considero de extrema justiça salientar o papel que Manuel da Fonseca teve na defesa dos camponeses e operários alentejanos, bem como a denúncia feita por Ferreira de Castro no que aos emigrantes diz respeito, aqueles que fugiam do Portugal salazarento para tentar encontrar o paraíso perdido, que infelizmente tão difícil foi de encontrar.

Em suma, o destaque que deve ser dado ao neo-realismo no seu combate ao fascismo nunca será excessivo, pois conseguiu demonstrar a força da Literatura, através da coragem de homens exemplares. Se hoje vivemos na tão ansiada liberdade, sem dúvida que devemos uma palavra de reconhecimento aos autores que por ela lutaram. Obrigado.

Panorama actual

Chegados à contemporaneidade, resta perceber a importância de uma literatura comprometida, se faz falta ou se por outro lado, é algo ultrapassado e de valor museológico. Analisando o panorama actual e tendo em conta as décadas anteriores, é fácil perceber que a ausência de movimentos literários separou os escritores e os colocou distantes uns dos outros. Durante a vigência de determinada corrente literária, podíamos encontrar um certo número de autores que comungavam das ideias e estética dessa mesma corrente, considerando-se assim uma espécie de grupo que era defendido e defendia os outros membros em caso de ataque.

Em Portugal, os movimentos literários terminaram há muito e agora vemos autores demasiado afastados da sociedade, procurando uma linguagem que os distinga dos seus pares, ao invés de uma voz comum que os unifique nas diferenças que existirão necessariamente entre eles. Obviamente que a literatura não é indissociável do que se passa na sociedade e por isso mesmo, a separação entre as pessoas, levou inevitavelmente à distância entre autores. As polémicas desapareceram, bem como os grupos de café. Provavelmente escreve-se porque a voz é tão única – visão do autor - que merece ser considerada. Porém, um fenómeno ocorre em Portugal de uma forma assustadora, porque nem sempre traz consigo a qualidade. Refiro-me ao número avassalador de livros que são publicados (portugueses e estrangeiros), sendo que grande parte deles não tem qualidade ou componente crítica. Actualmente todos escrevem, o que diminui drasticamente a análise e as propostas de mudança, bem como a preocupação pela verdadeira visão da sociedade. A televisão embrutece (já é um cliché dizer isto), mas esta literatura embrutece ainda mais. É uma alienação total, vedetas saídas da televisão (instrumento predilecto do capitalismo) escrevem livros que serão guias para as pessoas. Podemos encontrar livros que falam sobre a forma de estar num jantar VIP, a forma como se arrota com a mão à frente da boca, livros que falam sobre a forma de uma mulher se vestir numa festa, livros famosos que falam de mulheres ultra-sucedidas que conquistam homens e posições invejáveis. É o retrato de um Portugal suave, escrito por pessoas que conseguem ver o país a partir de um ambiente requintado e completamente desligado da realidade.

Ao contrário daquilo que seria esperado, uma parte significativa da literatura portuguesa, aquela que chega a mais pessoas e a maiores destaques, fruto de máquinas de promoção gigantescas e grupos editoriais que monopolizam o mercado, opta por abordar o fantástico e o místico, romances plenos de mistério e de suspense que seguram o leitor até ao fim, acontecimento que eu diria exactamente igual àquilo que Dan Brown fez há poucos anos atrás, mas que agora é copiado de forma incipiente. A literatura portuguesa que agora temos nas livrarias é uma importação do estrangeiro, em que os cenários fantásticos são criados à semelhança daqueles que vimos nos cinemas e nos entusiasmam porque tudo esquecemos perante imagens deslumbrantes. Por outro lado, vejo uma determinada facção que procura falar de África e de temas históricos, reavivando um género literário importantíssimo, mas esquecendo inevitavelmente os temas actuais, aqueles que são os pertinentes, aqueles que encerram em si uma urgência imensa em ser estudados, para tratar a História com uma leviandade preocupante. A contemporaneidade não existe nesta literatura actual – salvo algumas excepções – e os autores esquecem as pessoas, os futuros leitores, a literatura tem necessariamente de ter como destinatária uma massa tremenda de leitores e estes não querem continuar sozinhos. Pese embora o facto de existirem os leitores ocasionais e os habituais, o dever dos escritores é fidelizar as pessoas na leitura, ao contrário do que é afirmado por Margarida Rebelo Pinto, as pessoas não se tornaram leitoras com ela, ser leitor é ser crítico, e não serão os livros desta autora a conseguir esse objectivo. Todos nós precisamos de uma voz que denuncie publicamente este estado que nos anula todos os dias, este quotidiano que nos mergulha na depressão colectiva e nos afasta de um optimismo que ainda existe. O escritor é um ser livre que na solidão do seu escritório sente as angústias diárias, escuta as pessoas com quem se cruza e é desses escritores que nós precisamos, aqueles que se comprometem sem receio com a causa humana.

Naturalmente que há quem pense que vivemos numa democracia e que a existência de uma literatura atenta é desnecessária. Eu digo que é cada vez mais urgente, e para isso basta referir dois exemplos, sendo um deles famosíssimo e o outro só não é porque aconteceu há pouco e foi prontamente relativizado pela comunicação social acomodada: o primeiro exemplo refere-se ao célebre caso do Evangelho Segundo Jesus Cristo, onde o ex-Sub-Secretário de Estado adjunto da Cultura, Sousa Lara (onde é que este senhor andará?) criticou e vetou o livro de uma lista de romances candidatos a um prémio europeu, para além da crítica tremendamente abonatória feita pelo ex-arcebispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, nomeadamente considerando José Saramago “ateu confesso e comunista impenitente”. Sendo que todos os ataques foram feitos em 1991/1992, posso considerá-los dentro do período democrático (18 anos depois da queda do fascismo). Claro está que as críticas são livres, agora querer censurar a obra já é outra questão. E por falar em censura, será que aquilo que se passou em Braga, em Fevereiro último, durante uma feira do livro, é legítimo de acontecer numa democracia? Obviamente que não. A PSP de Braga apreendeu todos os exemplares de um livro que tem na capa uma pintura de Gustave Courbet, mostrando o sexo feminino. Sem dúvida que é censura à cultura, facto gravíssimo numa sociedade de informação e supostamente livre. Se eu ligar a televisão verei uma apresentadora de um programa infantil em trajes bem mais perigosos para as mentes frágeis das crianças do que a tal gravura.

Defendo incondicionalmente a literatura comprometida com a verdade, com as pessoas, a literatura que assume o compromisso com a justiça social. Este texto é um pequeno contributo para o enriquecimento crítico e para a cada vez mais urgente voz que defenda os que estão a ser silenciados.

Ver todos os textos de RICARDO CABACA