O discurso do método e da mentira permanente

Nº 1707 - Primavera 2009
Publicado em Crise Economica e Financeira por: Jorge Messias (autor)

O capitalismo global caminha com passos rápidos e seguros para o abismo e para o caos. É cada vez mais evidente que a crise que o sistema enfrenta não é um acidente de percurso qualquer, ciclicamente habitual. Tem expressão económica e financeira e uma incidência à escala mundial. Atinge as estruturas profundas da organização do Estado e do tecido social. No panorama actual não se lhe vê saída possível a não ser, eventual e provisoriamente, pela recondução das ditaduras e pelo recurso ao armamentismo e à guerra. Avizinha-se um futuro catastrófico caso a reacção dos pobres e dos trabalhadores não seja imediata, enquadrada e poderosamente determinante. O que aparentemente não há sinais de vir a acontecer tão depressa. Mas acontecerá mais cedo do que pensamos. Também os czares da Santa Rússia tiranizavam multidões e foram derrubados.

Resta-nos aprender rapidamente com as realidades da História, unirmo-nos em torno das nossas bandeiras e lutar. A noite em que vamos penetrando não é irreversível. Neste sentido, a fim de que os trabalhadores sejam verdadeiros promotores da acção política, é necessário compreenderem-se os traços gerais das raízes da intriga aventureirista que promove o desemprego, a recessão, a especulação, o aumento do custo de vida, a maior miséria dos grupos mais pobres, a negação dos princípios democráticos, a pauperização das camadas inferiores da burguesia, a criminosa concentração da riqueza, o abandono dos campos, etc. A par de todas estas violações dos direitos do homem, os governantes capitalistas constituíram-se em casta e foram aprender a mentir nas grandes universidades que compraram a peso de oiro. Mentem de olhos nos olhos, sem que lhes estremeça um músculo da cara. Mentem por sistema, nas grandes ou pequenas matérias. São geradores de mitos destinados a enganar os que por eles são governados. E só dizem a verdade quando afirmam nada terem na consciência porque, na verdade, quanto a consciência, não a têm. Os grandes criminosos agem a partir do princípio de que tudo é lícito quando se trata de garantir os interesses da classe, dos grupos a que pertencem ou, enfim, os seus próprios interesses pessoais.

Caracterizações

A actual crise é económica porque a sociedade capitalista armazenou descontroladamente produtos que não se vendem. É financeira, porque o capitalismo acumulou grandes massas de dinheiro que giram entre os mercados em busca de mais-valias, mas não se reflectem nos sectores reprodutivos. Consequência do Estado neocapitalista gerir o dinheiro mas não planificar a produção. Finalmente, é social e política, visto que promove a criação de fortunas cada vez mais gigantescas, cria fossos abissais entre pobres e ricos, dissolve ou amputa os serviços públicos sociais e destrói, sem a compensar, qualquer noção de credibilidade do Estado. Neste sentido, o projecto da economia global é construção de loucos e de oportunistas.

Os mentores do grande capital bem sabem que assim é mas estão irremediavelmente prisioneiros da teia de uma dinâmica irreversível que eles próprios teceram. Traçaram utopias, bloquearam os caminhos e, agora, só lhes resta tentar impor aos povos o seu próprio projecto de grandes senhores. Se olharmos criticamente os acontecimentos veremos que as autoritárias decisões da caricata dupla Sócrates & Guimarães são da mesma família das que esmalta os impérios dos Berlusconi, Bush, Sarkozy ou quejandos. O que deverá pôr os cidadãos a reflectirem no significado catastrófico do seu voto quando ele ajuda a empurrar para o poder aqueles que visam destruir direitos, liberdades e o próprio aparelho democrático. A conspiração totalitária em curso – global ou, melhor dizendo, imperial – foi despoletada em meados da década de 90 do século passado. Aparentemente concebida em Sillicon Valey, berço da mais avançada tecnologia informática norte-americana, a política definida como “em marcha para uma nova civilização” foi aprovada por uma assembleia internacional de cerca de 500 multimilionários, de políticos e generais, convocada e coordenada por Mikael Gorbatchev. Estes homens poderosos decidiram, então, que a acção teria de ser imediata e alastrar fulminantemente naqueles cinco anos mais próximos. Começar no século XXI seria tarde demais. Mesmo que tendo de enfrentar todos os riscos. Impunha-se que uma nova geografia política e económica fosse traçada mundialmente, através da derrocada do sistema socialista, com a redução drástica do número de postos de trabalho, com a desvalorização da moeda e com a desertificação de regiões imensas. O projecto era arriscado, como hoje se comprova.

Segundo os estrategas capitalistas a economia devia funcionar, no futuro, com apenas dois décimos dos seus actuais agentes. Gorbatchev apadrinhou este plano criminoso e ficou célebre quando colocou as coisas neste pé : “ Será que o mundo inteiro se vai transformar num grande Brasil, em países cheios de desigualdades, com guetos para as elites ricas ? Pôr esta questão é pegar o toiro pelos chifres. É verdade, até a Rússia se vai transformar num Brasil“ (Reunião do Hotel Fairmont, Setembro de 1995).

Os paraísos artificiais

A citação do Brasil, como modelo da “globalização” não foi lançada ao acaso. O território brasileiro é um verdadeiro continente povoado por uma sociedade humana dividida em classes antagónicas e caracterizada pela existência de um imenso fosso entre pobres e ricos vivendo, uns numa escandalosa opulência, outros na maior das misérias. Numa obra recente muito bem documentada (“A armadilha da Globalização”/Terramar) os seus autores ilustram com um exemplo real esta terrível profecia de Gorbatchev.

A Oeste de S. Paulo foi construído um sumptuoso complexo, só acessível a gente muito rica. Chama-se esta cidade Alphaville, tem uma área de 322.000 metros quadrados e a segurança dos moradores é garantida por altos muros que cercam todo o complexo, baluartes equipados com holofotes e sensores electrónicos. A área é constantemente patrulhada por centenas de seguranças privados a que se juntam 400 agentes da polícia regular, armados com carabinas de canos serrados e pistolas automáticas de seis tiros. Basta que um simples gato tente saltar o muro e, imediatamente, todo o sistema de segurança é desencadeado. Habitam a cidade 120 mil milionários. Nela há de tudo quanto de agradável se possa imaginar. “Nós criámos as condições para a felicidade terrena”, dizem os construtores de Alphaville. Não longe, mas fora do horizonte, alastra a mancha miserável das favelas de S. Paulo.

Alphaville é bem o paradigma da sociedade que, à escala mundial, o “capitalismo de sucesso” procura promover. É um projecto concentracionário e de exclusão social. Quanto maiores forem as fortunas maior será a extensão da pobreza. Na certeza de que a miséria oculta-se, primeiro, e resolve-se depois suprimindo os miseráveis. As portas das mansões pertencem, por direito natural, aos ricos.

Outra caracterização essencial diz respeito aos famigerados off-shores ou “paraísos fiscais”. São locais onde o Estado perde qualquer poder de controlo da massa financeira. Servem de santuários onde se procede à lavagem dos capitais do mundo do crime. Os off-shores dispõem de um incrível poder político: é neles que se fazem e desfazem governos, se criam ou se destroem nações, se decide da paz ou da guerra e se controla a banca e a economia mundial. Acima de tudo, os off-shores são verdadeiros centros estratégicos de uma sociedade futura baseada na desigualdade da fortuna, na exclusão dos pobres e no esmagamento das classes proletárias. É nesse sentido que os grandes nababos usam a mentira como arma de arremesso e as políticas de crédito como poções envenenadas que escravizam, pouco a pouco, as classes médias e abrem caminho ao poder absoluto do dinheiro.

Há no mundo actualmente centenas de “paraísos ficais” que nenhuma estrutura financeira vigia ou sabe identificar com rigor os fundos que eles movimentam. Surgem como cogumelos, das Caraíbas a Singapura ou do Luxemburgo às Ilhas Caimão. Aí, nas Caraíbas britânicas, a força dos off-shores é como uma montra que revela todo o esplendor do neocapitalismo. Numa área minúscula de 14 quilómetros quadrados, com 14 mil habitantes, estão registados mais de 500 bancos de todas as partes do mundo que traficam divisas na maior impunidade. Outro exemplo do gigantesco poder destas actividades à margem da lei foi recentemente fornecido por um observatório estatal suíço (Departamento Helvético da Justiça e da Polícia): só numa década, de 1990 ao ano 2000, foram transferidos da Rússia para o Ocidente, através de operações secretas dos off-shores, cerca de 50 mil milhões de “euros”!...

De tudo isto resulta uma evidência: o negócio da banca tem um braço legal e outro ilegal que se cruzam e descruzam de acordo com a lei da oferta e da procura ou dos interesses do imperialismo, sem terem de prestar contas a ninguém. É esta a “alma do capitalismo democrático”.

Quem perde, ganha ...

Terá interesse observar-se que, numa perspectiva capitalista, a actual crise mundial económica e financeira tem duas faces distintas. Por um lado, contribui para a ruína do sistema capitalista tradicional, já tão abalado pelo choques petrolíferos, pelas alucinações da moeda única, pelos falhanços da globalização ou pelo genocídio maciço de populações indefesas.

Por outro lado, no entanto, esta crise vem no momento oportuno em que se tenta promover a refundação das técnicas, das tácticas, da orgânica e das estratégias do grande capital. A operação é de risco transcendente mas é possível, se for feita já. As próprias destruições sísmicas dos capitais, causadas pela ruptura dos sistemas económicos, poderão favorecer a complexa mudança dos esquemas capitalistas, originar novas grandes fortunas e talhar o mundo à imagem dos ricos. Trata-se de aproveitar como um trampolim a derrocada do “velho mundo” e fazer surgir um “mundo novo” ao serviço das oligarquias. Para os financeiros, a questão reside em “ganhar, perdendo”. Foi nesse sentido que Gorbatchev sentenciou do alto da sua cátedra: “é hora de pegar o toiro pelos chifres ”.

Os efeitos da crise mal começaram ainda a sentir-se. Os trabalhadores e o povo em geral terão de suportar grandes sofrimentos nos tempos que se avizinham. Mas a nuvem negra não paralisará a resistência popular, antes lhe dará mais forças. E – tal como afirmava na Rússia, ainda czarista, V. I. Lenine - impõe-se para já empurrar a Revolução para a frente. Como? De mil maneiras. Pelo voto consciente, pelas manifestações de rua, pelo reforço dos sindicatos, pela resistência de classe nas empresas, pelo discurso, pela escrita, pela informação, pela denúncia das mentiras dos políticos, dos exploradores e dos governantes. Desencadeando a acção e transformando pela acção a sociedade. Rompendo abertamente com o erro e com o crime.

No campo capitalista a hora é de ansiedade. Chegaram os dias de todos os riscos e é mínima a margem de erro consentida. Que fazer, caso as bolsas desabem e os gigantescos bancos abram falência? Como se comportará amanhã a classe dos muito ricos? Unida e feroz, como sempre? Ou correndo ao acaso num “salve-se quem puder”? Seria o fim de tudo e esta eventualidade não pode ser excluída. Perdido o sentido de matilha, os lobos devoram-se uns aos outros.

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